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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Crítica de Cinema

Meirelles diz que '360' é filme mais intimista que dirigiu

Tiago Coelho - Do Portal

17/08/2012

Ligia Lopes

Com seis longas-metragens lançados, acostumado a ter grandes temas como pano de fundo, como o tráfico de drogas (Cidade de Deus), a indústria farmacêutica (O jardineiro fiel) e uma epidemia de cegueira mundial (Ensaio sobre a cegueira), o cineasta Fernando Meirelles afirma que 360, que estreia nas salas de cinema do país nesta sexta-feira, 17, é um filme intimista. Em entrevista realizada quarta-feira no hotel Marina Palace, o diretor falou sobre os bastidores do filme, as facilidades e dificuldades de se filmar em vários países e línguas, da relação com Anthony Hopkins e os projetos futuros, entre os quais um filme sobre Aristóteles Onasis e a produção de conteúdo on demand para a TV (vídeos para comprar na TV a cabo).

360 conta a história de pessoas de diferentes países que têm suas vidas e caminhos cruzados pelo acaso, formando uma ciranda globalizada nas grandes metrópoles do mundo (leia crítica abaixo). O filme, coproduzido por Brasil, Reino Unido, França e Áustria, é uma verdadeira babel, com atores e equipe técnicas falando seis línguas diferentes. Para Meirelles, que dirigiu a equipe falando em francês, inglês e português, a linguagem cênica vai além da interpretação, a experiência foi positiva. Só teve dificuldades para se comunicar com o ator russo.

– Filmar com pessoas de vários países não foi difícil. A interpretação não está só nas palavras, mas também no olhar, nos gestos. Foi uma experiência muito legal. Depois desse filme percebi que seria possível filmar até em chinês.

Apesar de considerar o filme mais intimista que dirigiu, Meirelles ressaltou que este foi um projeto muito mais do roteirista Petter Morgan (A rainha e Frost/Nixon) que dele. Diferentemente dos outros filmes, em que se envolveu na produção e no roteiro, neste foi apenas diretor:

– O filme está muito parecido com o roteiro do Petter. Era um projeto muito dele. Talvez o mais pessoal da vida dele que mora em Viena e trabalha em Londres.

 Ligia Lopes Simpática e bem-humorada, a atriz Maria Flor, que interpreta uma brasileira residente em Londres que namora o personagem do ator Juliano Cazarré e contracena com Anthony Hopkins. Para ela, o maior desafio foi criar uma intimidade cênica com o ator britânico, vencedor do Oscar de melhor ator pelo filme O silêncio dos inocentes. Mas ressaltou aspectos positivos por trás das câmeras:

– Não foi fácil, não. Ele é um ator muito técnico, que interpreta para a câmara. Foi difícil criar um entrosamento cênico. Mas é uma ótima pessoa. Ele é aberto, receptivo, fez até um desenho para mim.

Meirelles também não poupou elogios a Hopkins e lembrou que o ator veterano não titubeou em aceitar o papel. Na trama, Hopkins interpreta um homem bem-sucedido que se trata num grupo de alcoólicos anônimos.

– Hopkins é um cara de bem com a vida e não reclama de nada. Fica feliz por ainda ser chamado para trabalhar. Quando o convidamos, ele disse: “Quero interpretar a mim mesmo. É a minha história pessoal”. Ele é ainda um excelente músico, e compôs o tema do próprio personagem – contou Meirelles, cuja mulher, Ciça Meirelles, assina a trilha sonora.

Na coletiva, o diretor reclamou dos jornais que cobram uma grande bilheteria sem dar o devido tempo para que os filmes cresçam com o boca-a-boca. Para o cineasta, que já recusou dirigir alguns blockbusters, uma produção independente e com vários parceiros, como 360, é a melhor forma de trabalhar. O diretor não descarta dirigir filmes com grandes expectativas de bilheteria para Hollywood, mas para o futuro, e apenas em trabalhos menores, em que possa ter liberdade para criar, e não apenas obedecer a ordens de estúdio.

– Já tive convites para filmes grandes de Hollywood, mas recusei. Não digo que não faria. Mas não é algo que eu busque. Na produção independente, a equipe é a sua parceira.

No momento, o  que ele busca é fazer o filme Nêmeses, que tem previsão para início de filmagens em novembro, e contará a história do aristocrata Aristóteles Onassis. Para além dos olhos do artista, Meirelles usa a lente de empresário e pensa investir no mercado de produção audiovisual on demand:

– Quero tentar fazer, ainda neste semestre, um pacote de vídeos on demand para a TV a cabo. É um mercado em potencial.

 Ligia Lopes Durante as filmagens de 360, Quico Meirelles, filho de Fernando, fez dois curtas-metragens, 5 minutos e 5 metros. Os filmes são protagonizados pelos personagens e atores do filme de 360. O jovem cineasta, que também participou da equipe de 360, tem exibido os curtas em festivais universitários.

Crítica

'360' faz um giro multicultural na vida vazia dos personagens, mas vazio é o olhar sobre eles.

"360 é um filme muito mais do roteirista Peter Morgan do que meu". Esta afirmativa de Meirelles justifica a flagrante impressão de que o diretor evitou mergulhar fundo na história. Os caminhos cruzados entre uma prostituta eslovaca, um britânico alcoólatra, um maníaco sexual americano, um dentista de origem árabe e três casais (de britânicos, brasileiros e russos) percorre uma trilha regular que em poucos momentos surpreende e emociona.

Baseado em uma peça teatral de Arthur Schnitzler, o roteirista Petter Morgan, que concorreu em 2007 ao Oscar de melhor roteiro por A rainha, criou um trama muito menos arriscada do que as escolhas de seus personagens sugerem. A grande quantidade de personagens no filme contribui para que o espectador não se concentre nas histórias e emoções da vida deles, criando um mosaico desarticulado. O próprio Meirelles reconheceu este problema: “O filme tem muitos personagens e pouco tempo para desenvolver e elaborar melhor suas histórias”. Divulgação

Mas se diretor e roteirista pecam em ir mais a fundo na angústia e solidão das relações vazias dos moradores da grande metrópole, a escolha do elenco, em alguns casos, garante a emoção do filme. Entre jovens revelações e interpretações consagradas, Ben Foster (Tyler), Lucia Siposova (Myrka) e Anthony Hopkins, que utiliza todo o peso de sua trajetória como ator e sua história pessoal para compor um alcoólatra reabilitado frequentador do AA. Ben Foster, interpretando um maníaco sexual que acaba de sair da prisão, garante alguns dos poucos momentos em que o diretor parece se entregar e, por isso, pontos altos do filme. Divulgação

O diretor de fotografia Adriano Goldman, assim como Daniel Resende, que trabalharam com Meirelles em Cidade de Deus, repetem a dobradinha em 360. A fotografia de Goldman é competente, enquanto a montagem de Resende não surpreende e nem compromete.

Em determinado momento do filme, a prostituta eslovaca cita uma frase que diz que diante de uma bifurcação, a melhor escolha é escolher um caminho. Meirelles sempre levou em conta este ditado ao dirigir seus filmes. Assumiu riscos e tomou partido de suas histórias. Desta vez, parece ter dado a meia-volta e evitado o risco de enfrentar uma via. (T.C.)