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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


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Jornalista argentino minimiza impacto da ditadura no Brasil

Matheus Vasconcellos - Do Portal

16/08/2012

A experiência da comissão da verdade argentina foi tema da Conferência Internacional Memória: América Latina em perspectiva internacional e comparada, realizada na PUC-Rio nesta quarta-feira junto com a 61ª Caravana da Anistia. O jornalista argentino Horácio Verbitsky, do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), relatou como a reabertura de documentos históricos da última da ditadura militar argentina, de 1976 até 1983, possibilitou à comissão da verdade argentina, a Conadep, processar a junta militar e os militares envolvidos em torturas e assassinatos durante a ditadura – 272 militares, julgados, foram condenados e 20 absolvidos pelos crimes até o momento.

– O modelo argentino de comissão da verdade não é uma fábrica que distribui sentenças. Cada caso é analisado de acordo com as provas e os documentos que temos em mãos – afirmou o jornalista, que apresentou o número de militares condenados, absolvidos e em julgamento, para embasar seu discurso.

De acordo com o jornalista, com base em dados oficiais, entre 15 mil a 30 mil argentinos desapareceram ou foram assassinados nos anos 80, enquanto no Brasil o impacto teria sido “de 170 a 340 vezes menor”.

O documentarista Silvio Tendler, professor de cinema pela PUC-Rio, questionou os dados do jornalista referentes às vítimas da ditadura no Brasil:

– Está na hora de o Brasil reconstruir essa história e descobrir as verdadeiras muitas vítimas da ditadura no Brasil. Não podemos nos esquecer de muitas pessoas que não são contabilizadas nos números oficiais. Pouca gente fala das pessoas que morreram sem serem conhecidas – protestou Tendler.

O documentarista antecipou que prepara dois novos filmes: um sobre os advogados contrários à ditadura que desapareceram; e outro contando a história de militares que lutaram contra o regime. Tendler lembrou que muitos foram expulsos por apoiar o presidente João Goulart, e outros morreram sem serem reincorporados ao Exército.

Apesar de concordar que a criação da Caravana da Anistia e da Comissão da Verdade foram dois grandes passos para o país, Horácio contou que se surpreendeu ao ver a reunião da caravana pela primeira vez.

– Quando vi pela primeira vez a cerimônia da Caravana da Anistia, não entendi por que o Brasil anistiava o militante, uma vez que quem havia cometido crimes contra a vida era o próprio país. Só depois entendi, quando vi o relator da comissão pedindo desculpas ao torturado em nome do Brasil – disse o jornalista.

Segundo Alípio Freire, membro do Comitê Curador do Memorial da Anistia, ainda existem 308 mil processos em andamento para a Caravana analisar.

– Essa luta ainda vai continuar por muito mais tempo, porque existem ainda muitos políticos governando, empresas e empresários muito poderosos que estão hoje no poder e passam ao largo dos olhos dos relatores – afirmou o diretor do Núcleo de Direitos Humanos da PUC-Rio e mediador do debate, João Ricardo Dornelles.

O debate foi antecedido pela pré-estreia do filme Eu me lembro, de Luis Fernando Lobo, dando início ao ciclo Cinema pela Verdade. O documentário, que mostra depoimentos de torturados e o acompanha o trabalho da Caravana da Anistia, tem estreia prevista para o Festival do Rio, fim de setembro.