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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Revista que fez história ganha exposição na Gávea

Ana Luiza Cardoso - Do Portal

08/08/2012

 Maria Christina Corrêa

Nas paredes, a história do Brasil entre 1940 e 1950 é contada pela revista ilustrada O Cruzeiro. São mais de 300 imagens divididas em sete salas do Instituto Moreira Salles, na Gávea, que destacam o fotojornalismo de outra geração.

A exposição “Um olhar sobre O Cruzeiro: as origens do fotojornalismo no Brasil” tem como principal objetivo mostrar a contribuição da revista para a história do fotojornalismo brasileiro. A partir das imagens produzidas pelos fotógrafos e das reportagens publicadas, a mostra revela como questões políticas e culturais do país eram abordadas no período de maior inventividade e penetração social da revista.

A revista O Cruzeiro teve a sua primeira edição publicada em 1928, pelo grupo Diários Associados, comandado por Assis Chateaubriand, mas foi em 1943, com a entrada do fotógrafo Jean Manzon, que a revista deu o pontapé inicial para o fotojornalismo no Brasil. Os “caçadores de imagens”, como os fotógrafos eram chamados, passaram a incluir relatos das dificuldades que enfrentavam na produção das imagens e até seu próprio retrato em ação. A partir daí, a fotografia passou a ser tão importante quanto a reportagem.

Para a curadora da exposição e do Museu de Arte Contemporânea da USP, Helouise Costa, O Cruzeiro possibilitou a profissionalização da atividade de repórter fotográfico, até então pouco valorizada no Brasil:

– Trata-se de uma fotografia inovadora do ponto de vista da linguagem, com uma surpreendente autonomia, até então inédita, em relação ao texto – disse. – Além disso, usa-se um novo tipo de edição, característico do modelo internacional da fotorreportagem que explora o caráter narrativo da imagem, adotado por revistas como a Match e a Life – complementa Helouise.

A frase “An eye with a brain!”  (Um olho com cérebro) e a imagem de uma câmera fotográfica com chapéu de formatura ilustraram o anúncio da revista Life, em 1938, marcando o surgimento do fotojornalismo nos Estados Unidos. Na exposição sobre O Cruzeiro, a propaganda é lembrada na seção A autonomia da câmera – uma das unidades temáticas em que está distribuída a mostra. Há ainda destaque para O índio; A imprensa e o sistema de arte; A política na fronteira entre o público e o privado; Fait divers; e Fotorreportagens seriadas, remetendo a temas que serviam de pauta para a revista.  Maria Christina Corrêa

Na primeira sala da exposição, que abriga as temáticas indígenas e o sistema de arte da imprensa, e é possível encontrar algumas das máquinas fotográficas originais usadas nas reportagens e registros históricos de Manzon, como o de um grupo de xavantes apontando suas flechas para um avião que sobrevoava a aldeia, até então isolada. Para os expositores, essas imagens produzidas por Manzon em 1945 “reencenam a descoberta do Brasil” através do fotojornalismo.

No campo das artes plásticas, nota-se que, com a fundação dos Museus de Arte de São Paulo, de Arte Moderna de São Paulo e do Rio e da Bienal de São Paulo, a revista passou a dar mais espaço em suas páginas para os movimentos artísticos da época. Mas sem esconder a preferência pelas coberturas relacionadas ao Masp, que assim como a revista, foi criado por Assis Chateaubriand. 

O CIDADÃO KANE DO BRASIL

Assis Chateaubriand alcançou a marca de 30 jornais, 15 estações de rádio, duas revistas, uma editora e uma emissora de televisão, entre as décadas de 1930 e 60. Uma edição internacional de O Cruzeiro, em espanhol, chegou a circular entre 1957 e 1965. Na exposição Um olhar sobre O Cruzeiro, Chateaubriand é apresentado ao público e comparado a Willian Hearst, magnata da imprensa norte-americana. Hearst foi proprietário de 28 jornais, 18 revistas, cadeias de rádio e uma produtora de cinema. Foi um dos precursores da “imprensa marrom” e serviu de inspiração para Orson Welles na criação do clássico do cinema Cidadão Kane.

 Maria Christina Corrêa “Antes de Roberto Marinho e Vitor Civita, havia Assis Chateaubriand”, diz Carla Siqueira, professora de História da Imprensa no Brasil da PUC-Rio. Para a professora, a semelhança entre Chateaubriand e Hearst ia além do cenário da comunicação e atingia interesses políticos.

– As histórias de Hearst e Chateaubriand ensinam muito sobre a relação entre mídia e política nos Estados Unidos e no Brasil. Eles foram os primeiros magnatas da imprensa e tiveram influência não só como empresários da mídia como também no cenário político, utilizando os meios de comunicação para atingir seus interesses.

A temática A política na fronteira entre o público e o privado lembra as relações entre Chateaubriand e Getúlio Vargas, iniciadas ainda no fim dos anos 1920, quando o empresário recorreu ao então ministro da Fazenda em busca de investimentos para suas publicações, em troca de apoio político nas páginas ilustradas.

A união entre o sertanista Ayres Cunha e a índia Diacuí, proibida pelo Serviço de Proteção ao Índio, é outro exemplo da influência de Chateaubriand, que intermediou com governo e Igreja a autorização para o casamento, e explorou o caso em uma fotonovela publicada em capítulos na revista O Cruzeiro entre 1952 e 1953, com desfecho dramático. “Abandonada pelo branco, morreu Diacuí”, estampou a revista em agosto daquele ano.