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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

México: velhos problemas desafiam o "novo" PRI

Tiago Coelho e João Pedroso de Campos - Do Portal

04/07/2012

 Arte: Jefferson Barcellos

Ainda sob a poeira da desconfiança, a volta do Partido Revolucionário Institucional (PRI) ao poder central no México, depois de 12 anos na oposição, levanta dúvidas sobre a capacidade de o tradicional grupo – cuja hegemonia se estendeu de 1929 a 2000 – cumprir os discursos de renovação e resolver problemas crônicos como os relacionados ao narcotráfico. Enquanto analistas projetam a perspectiva de um México mais integrado, o vencedor das eleições de domingo passado, Peña Nieto, ainda tenta confirmar a legitimidade das urnas. A pedido do candidato derrotado, Manuel López Obrador, da coalizão de esquerda Movimento Progressista, as autoridades eleitorais vão recontar mais da metade dos votos. O cientista político Bruno Borges acredita que, embora a tradição eleitoral mexicana seja marcada por fraudes, a confusão não deve ir muito além do proselitismo político de Obrador:

– Acho improvável algum desdobramento expressivo. Peña Nieto conseguiu fazer uma campanha profissional, canalizando as insatisfações populares com o presidente Calderón. López Obrador está gasto com a população. Tem um índice de rejeição muito grande, porque é muito identificado com o PRD, que a classe média, não da Cidade do México, mas do interior, tem muita dificuldade em aceitar. A política mexicana é tradicionalmente marcada por viradas de mesa, é sempre complicado, mas imagino que não haja espaço para isso agora – avalia o professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, para quem o resultado da eleição apontará uma nova cara para o México.

A habilidade de capitalizar a rejeição por Obrador e Calderón foi o trunfo do "novo" PRI, que já havia governado o México por 71 anos. Outro trunfo remete ao DNA, digamos, agregador: por ser historicamente um partido de centro, com flexibilidade para reunir diversas correntes políticas, não terá, segundo o professor Cunca Bocaiuva, professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, dificuldade de formar uma ampla base governista – necessária para enfrentar problemas como  esvaziamento do Estado, desigualdade social, pobreza e narcotráfico. Para Bocaiuva, o Partido da Ação Nacional, que ficou no governo mexicano nos últimos 12 anos, "não foi capaz de impulsionar a economia e promover distribuição social":

– A eleição mostra que o maior problema do México deriva da desproteção social e do enfraquecimento do Estado. As pessoas votaram na perspectiva de um governo mais centrista e federativo, com vínculo com prefeituras. O governo anterior desarticulou a sociedade mexicana, expondo-a ao sabor dos acordos de livre comércio, o que levou o aumento de imigrantes para os Estados Unidos, o trabalho desqualificado e o narcotráfico.

Durante a campanha de Peña Neto, o PRI vendeu a imagem de renovação. O professor Bocaiuva observa que o partido nunca perdeu a força política, como indica a grande quantidade de governadores eleitos pela legenda, e as mudanças alardeadas seguem tendências mundiais. Para ele, o PRI é “o mesmo partido com novos desafios”:  

– O que tem de novo é que a política, não só no México mas no mundo todo, se esvaziou de um conteúdo fundamental. Toda política hoje é mais midiática, comunicativa, baseada em disputa de informação, marketing. O PRI ressurge com esta tendência mundial, misturando pragmatismo, algum fisiologismo, inclinações ao centro. É como se fosse o PMDB, o PT e o PTB em um mesmo partido.

Sobre os rumos econômicos sob a nova gestão, Bocaiuva pondera que, como a economia mexicana é muito atrelada à saúde financeira americana, prognósticos mais precisos só poderão ser feitos depois de decidida a corrida à Casa Branca, em novembro. Ele recorda que, em 2009, no auge da crise americana, o PIB mexicano chegou a recuar 6%. Se hoje a economia mexicana segue estável, por outro lado, avalia o especialista, o presidente eleito tem o desafio de dirimir a desigualdade:

– A economia mexicana segue estável, mas enfrentando uma desigualdade brutal, com muita pobreza. A economia ir bem não quer dizer que a sociedade vai bem. O Brasil conseguiu avançar no desenvolvimento econômico e social porque adotou políticas de distribuição de renda. De qualquer forma, o novo governo está apostando na recuperação da economia americana.

Na lista dos problemas que esperam Peña, a área social esvaziada pelo governo anterior ocupa o topo. Bocaiuva acrescenta que os deveres de casa incluem outras áreas:

– O presidente eleito terá que responder na área social, assistencial, na saúde. À agenda urbana, somam-se a agenda ambiental e os conflitos étnicos e agrários.

Os cartéis de drogas representa outro grande desafio para o novo presidente mexicano. Tanto social quanto diplomático: a relação com Estados Unidos está prejudicada pela ação do narcotráfico na fronteira entre os dois países. O combate aos cartéis dependerá de políticas conjuntas entre os dois países, opina Borges. Ele ressalva, no entanto, que as decisões dos Estados Unidos devem vir a reboque das iniciativas da administração pública mexicana:

– As ações americanas se definirão mais à frente, depois de medidas tomadas pelo Peña Nieto. Os Estados Unidos estão mais focados em combater o consumo, em política internas. Mas sempre relutantes em controlar o fluxo de armas, que são complicadores da política interna de segurança do país. Quanto às drogas, os EUA tendem a ajudar de alguma maneira.

Na campanha, Peña prometeu adotar políticas de segurança pública que "surtam efeito em curto prazo". Uma delas é aumentar os investimentos nas forças de segurança. Nos últimos seis anos, 50 mil pessoas morreram vítimas da violência. Cunca Bocaiuva considera que nenhuma dessas medidas será suficiente sem o acompanhamento de políticas sociais, sobretudo para a juventude:

– Isso tudo torna-se fuga para adiante se não há politicas para a juventude, modificação das bases produtivas, politicas urbanas. Conjunturalmente, pode ter efeito, mas não modifica o quadro de violência.

Uma das principais criticas ao governo de Calderón foi o suposto comodismo no combate ao narcotráfico. Bruno Borges acredita que o novo presidente não repita este comportamento:

– Não acho que o Peña Nieto esteja disposto a bancar a briga que afundou o Calderón. Foram onerados recursos, capital político, toda uma mobilização da sociedade mexicana. Isso manchou a imagem mexicana no cenário internacional. Não acredito que o Peña queira repetir este cenário.

Igualmente importante para as ambições mexicanas, a expansão econômica e política na América Latina pode, segundo Bocaiuva, levar a disputas com o Brasil, que tem aumenta a influência tanto econômica quanto politica na região. O professor avalia as chances nesse Fla-Flu:

– O governo mexicano disputará mais com o Brasil na região do Caribe. Se o Brasil tiver uma ótica apenas sul-americana poderá perder espaço para o México que tem um ótica latino-americana. No momento de crise global, todo mundo quer fazer política regional.

O México já embala alianças com Colômbia, Chile e Peru e exporta, por exemplo. carros para o Brasil. E o Brasil tem mirado no Caribe, zona tradicionalmente influenciada pelo México.

Carismáticos e bem acompanhados

O Partido Revolucionário Institucional (PRI) surgiu no México no contexto do fenômeno politico mais marcante na América Latina no século XX: as repúblicas populistas. Os governos populistas tentaram concentrar num mesmo partido as diversas correntes políticas que surgiam e, assim, contemplar as contradições sociais da época. Oligarquias, indústrias, operários e descamisados repousavam nas asas dos governos populistas. No Brasil o principal nome desta corrente política foi Getúlio Vargas. No México, Lázaro Cárdenas foi o presidente eleito pelo PRI em 1929. O PRI só deixaria o governo 71 anos depois, em 2000. Na Argentina,  Juan Domingo Perón marcou a história como um dos mais populares presidentes latino-americanos.

Depois de 12 anos longe do poder, o PRI reassume o poder central mexicano. O presidente eleito, Enrique Peña Neto, acenou para os eleitores como candidato de um partido que surge renovado. Especialistas em política externa afirmam que as mudanças do PRI tem a ver com as mudanças na politica global como um todo. Mas uma coisa Peña tem em comum com as antigas práticas populistas: o carisma e o namoro com atrizes famosas.

Em 1945, Perón aproveitou a popularidade da atriz de rádio Eva Peron, com quem se casou falsificando documentos. Imortalizada pelos argentinos como Evita Perón, ela praticava a caridade e tentava retribuir o carinho do povo que venerava sua beleza e beneficência. Para um tipo de política em que governantes assumiam a função de “pais dos pobres”, Evita logo se converteu em  “mãe dos pobres” e organizou um escritório, na residência presidencial, onde recebia milhares de doações para serem distribuídas aos mais necessitados. Muito carismático e sempre sorridente, Perón formou com Evita um dos casais mais célebres da política mundial. Em 1996, Evita ganhou uma versão hollywoodiana, interpretada pela rainha do pop Madonna.

Enrique Peña Neto, guardada as proporções históricas e biográficas, possui certas semelhanças com Perón. A distribuição de sorrisos e acenos simpáticos é uma delas. A outra é o fato de turbinar a popularidade ao lado de Angélica Rivera, popular atriz das telenovelas mexicanas. Durante toda a campanha, Peña era visto ao lado da bela mulher que, assim como Eva Perón, além de popular, chama a atenção pela beleza e atrai os holofotes para o marido.

O noticiário alemão chegou a chamar Angélica de “a primeira-dama mais bonita do mundo”, deixando o resultado da eleição e a análise política no segundo plano. Peña Nieto e Angélica Rivera casaram-se em 2010. Antes dela, o político havia sido casado por 13 anos. Na campanha, o candidato precisou se justificar por ter tido dois filhos fora do primeiro casamento. Esta novela, que é acompanhada por milhões de eleitores, promete render nos próximos capítulos. (T.C.)