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Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2017


Cidade

Carioca abre os braços para hospedagem domiciliar

Monique Rangel - Do Portal

19/06/2012

 Maria Christina Corrêa

A sueca Therese Carlbrantd arrisca, com sotaque carregado, um simpático “bom dia” para o porteiro, enquanto leva a equipe do Portal PUC-Rio para conhecer o apartamento em que está hospedada há duas semanas, no Leblon. A ativista, moradora de Estocolmo, integra uma ONG participante da Rio+20 e já é "quase da família" da anfitriã Heleonora Cordeiro. Assim como Therese, outros 55 mil visitantes, de acordo com a Associação Brasileira de Indústrias e Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), passarão pela cidade na esteira da conferência da ONU para o desenvolvimento sustentável. Entre hotéis e albergues, o Rio oferece cerca de 33 mil vagas. Para atender à demanda impulsionada por convenções e competições internacionais nos próximos anos – Jornada Mundial da Juventude, Copa do Mundo, Olimpíada – a hospedagem em casa de família ganha força valendo-se também de um dos ingredientes básicos do imaginário brasileiro: a hospitalidade.

Transformar a decantada hospitalidade em negócios seguros e proveitosos tanto para o hóspede quanto para o afitrião é um desafio que exige, segundo especialistas, desde cuidados com a procedência dos negociantes e a adoção de contratos específicos até a pesquisa para ajustar o perfil e os propósitos do visitante ao tipo de hospedagem. A tarefa tende a ser favorecida por experiências como as observadas na Rio+20.

Mesmo acostumada a andar pelo mundo, Therese está encantada com o “jeito brasileiro”. Há seis meses a sueca viaja com a ONG Up with People, que participa da Cúpula dos Povos com apresentações musicais e serviços comunitários. Uma participação adoçada, diz ela, pela combinação do “verde” da cidade com a alegria do povo. “É minha primeira vez no Brasil. Sempre quis vir ao Rio de Janeiro, conhecer a cultura. Adoro cantar e dançar, sou uma grande fã do samba.”

Para a sueca, as famílias brasileiras são mais abertas aos visitantes. Em outros lugares onde também se hospedou em domicílios, conta que levou mais tempo para "se ambientar". Therese está no apartamento do casal Heleonora e Marcos Cordeiro, que se ofereceram voluntariamente para abrigá-la, por meio da ONG. Nesses 15 dias, confirmou a suposição de que as famílias brasileiras são divertidas, adeptas a gargalhadas e conversas variadas: "falam abertamente sobre todos os assuntos".

O apartamento no Leblon é o lar de uma família paranaense. As portas abertas para receber Therese são uma forma de preencher o “ninho” da mãe que deixou os filhos, já adultos, em Curitiba, sua terra natal. “Ela é uma menina, eu só tenho rapazes. É muita novidade”, empolga-se Heleonora. Na sala, uma coleção com DVD's, desde O vento Levou a até AI - Inteligência Artificial indica como o pouco tempo livre da visitante é preenchido. “No domingo a gente faz pipoca e vê um filme”, conta a anfitriã.

Mímicas se somam ao dicionário inglês-português estrategicamente deixado embaixo da mesa de centro da sala. Marcos e Heleonora falam inglês, mas às vezes precisam recorrer a essas ferramentas na hora da comunicação com a hóspede.

Os custos da “nova filha” são baixos. O orçamento do casal manteve praticamente inalterado desde que a hóspede passaou a conviver diariamente no apartamento, garante Heleonora. Como passa a maior parte do tempo envolvida com as atividades da ONG, Therese fica no apartamento apenas para dormir e tomar café. Heleonora explica que a rotina da casa pouco se alterou:

– Não somos nós que temos que nos habitar a ela. É o hospede que se adapta à nossa realidade.

 Maria Christina CorrêaAssim que voltar para Estocolmo, depois da Rio+20, a sueca planeja estudar Relações Internacionais. Ela quer ser diplomata ou trabalhar nas Nações Unidas. Por enquanto, aproveita as belezas do Rio entre uma tarefa de ativista e outra. Inspiração para as apresentações musicais na Cúpula dos Povos e no Riocentro. 

– Eu estou muito animada para trabalhar com as pessoas, principalmente depois de ouvir os discursos das conferências. Quero poder ajudar logo. Fazer ações globais – conta a jovem, que pagou 17 mil dólares para integrar o grupo da ONG que viajou pelo mundo. Ao ser questionada sobre o retorno desse investimento, Therese argumenta que, em qualquer lugar do mundo, “estar com uma família local é uma experiência muito rica”. A sueca chegou ao país como voluntária para as apresentações  e atividades durante a Rio+20.

Por outro lado, Therese diz que dificilmente viria sozinha ao Rio. por considerar os hotéis, as passagens e os gastos com alimentação muito caros. O aluguel de um quarto na Zona Sul, como o usado pela sueca, varia de R$ 130 a R$ 250 por dia. O grande número de visitantes durante a conferência e os preços mais baixos em relação aos principais hotéis da Zona Sul, cujas diárias oscilam entre R$ 650 a R$ 1.110 – popularizam a modalidade de hospedagem já comum em países europeus.  Na preparação para os próximos eventos internacionais, como a Jornada Mundial da Juventude, a Copa e os Jogos Olímpicos, a prefeitura e a Riotur lançaram, em maio deste ano, o site Hospeda Rio – que ajuda quem quer se tornar um anfitrião e divulga vagas cadastradas no sistema para turistas.

 Cuidados na hora do aluguel

A prática de alugar quartos cresce como alternativa à hospedagem tradicional no Rio. A atividade é incentivada pela prefeitura e não sofre restrição urbanística ou fiscal.

Aos adeptos da modalidade, ou interessafos em experimentá-la, o professor da PUC-Rio Adriano Barcelos, especialista em Direito Civil, recomenda um contrato, com firma reconhecida, no qual são determinadas claramente as garantias e obrigações dos negociantes.

– Em locações desse tipo, o ideal é receber o pagamento integralmente adiantado para evitar que o turista fuja sem pagar – orienta – Em caso de transtornos ou de desrespeito ao contrato, as duas partes podem recorrer à Justiça, mas o melhor sempre é resolver amigavelmente.

Os visitantes que alugarem quartos devem ficar atentos se os anfitriões obedecem às regras da prefeitura:

. Ter no máximo três quartos para uso turístico;

. Oferecer café da manhã e serviço de limpeza;

. Fornecer a chave da residência;

. Oferecer quarto privativo;

. Estar acessível por telefone 24 horas por dia.