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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Urnas na Europa e no Egito geram alívios só provisórios

Tiago Coelho - Do Portal

18/06/2012

Arte: Jeferson Barcellos

O fim de semana de eleições representativas na Europa e no Egito dividiu os holofiotes mundiais com a Rio+20 e a reunião do G20 (grupo de países mais desenvolvidos), marcada para a próxima terça, no México. Ao elegerem o conservador Antonio Samaras, os gregos sinalizaram um passo para a permanência na zona do euro. Os bancos centrais europeus, que passaram o domingo de sobreaviso, respiraram aliviados e os mercados abriram a semana com moderado otimismo. Analistas ponderam, no entanto, que a manutenção do bom humor dependerá de fatores como a adoção, pelo novo governo, da agenda política alinhada à austeridade fiscal proposta pela Alemanha da premier Angela Merkel. 

No Egito agitado com a escolha do primeiro presidente depois de décadas de ditadura, os rumos também mostram-se incertos. A eleição de Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, é esvaziada pela limitação de poderes imposta pela junta militar que governa o país desde a queda de Osni Mubarak, há um ano e meio. Especialistas avaliam que, a exemplo dos gregos, os egípicios precisam resolver profundas questões politicas e econômicas por meio do diálogo e da formação de coalizões. Para melhor identificar as mudanças decorrentes desses movimentos eleitorais, inclusive no Parlamento francês, o Portal conversou com professores e pesquisadores da área de relações internacionais. As projeções são apresentadas abaixo, divididas por país.

Eleições da Grécia aliviam crise interna, acalmam mercados, mas a instabilidade persiste

O resultado da eleição legislativa na Grécia, por exemplo, cujo partido de direita Nova Democracia obteve a maioria no parlamento,  provocou otimismo nas bolsas de valores da Europa nesta manhã. Os especialistas afirmam que ainda é cedo para dizer se o quadro é suficiente para manter a Grécia na zona do euro.  Para o professor Márcio Scalércio, do Instituto de Relações Internacionais da PUC, a vitória do partido ameniza momentaneamente a desconfiança que cercava o país:

– Esta vitória cria um alívio, pois o partido que teve a maioria pretende manter a agenda de austeridade proposta pela Alemanha. Isso dá certo fôlego para a situação da Grécia na Europa pelo menos por enquanto.  Mesmo por que eles foram os responsáveis pelo atual quadro em que se encontram.

A avaliação do professor Cunca Bocaiuva, do Departamento  de Relações Institucionais, a situação da Grécia deverá ser definida pela capacidade de articulação e formação de coalizão entre os partidos:

– A instabilidade é permanente. A questão é o conceito de crise já tá instalado de tal forma em que você tem um cenário que pode ser mais grave ou menos grave mas é sempre crítico. Esta vitória constrói uma maioria interna e uma maior negociação, na medida em que os acordos econômicos não foram apenas inviabilizados pela oposição, foram também inviabilizados pela própria situação prática da economia grega. A ideia é que a negociação interna passe a ser menos endurecida. Vai depender da flexibilidade da negociação com os outros partidos.

Para que esta articulação ocorra, dependerá dos cenários que se desenharam na Europa nos próximos meses. As divergências entre França e Alemanha e mais a situação da Espanha serão definitivas para a situação da Grécia no bloco europeu, explica o professor:

– Além da capacidade de negociação, a situação na Grécia dependerá do resultado da luta de forças travada entre França e Alemanha sem contar com a crise na Espanha que parece grave e dependendo como os bancos espanhóis possam reagir o quadro ficará mais complicado ainda.

O professor Scalércio é pessimista quanto à possibilidade de diálogo entre os partidos de direita e esquerda:

– É possível que haja um diálogo deste partido de direita com os socialistas, mas o grupo de esquerda mais radical vai fazer uma forte oposição – aposta.

O impasse entre a Grécia e a Europa não afeta apenas os países europeus. Bocaiuva ressalta que países emergentes como Brasil e China estão interessados no desdobramento da crise e diz que as decisões tomadas durante o G20 em Cancun, no Caribe, e que conta com a presença da presidente Dilma, podem contribuir para definir a situação da Europa. Márcio Scalércio afirma que o interesse do Brasil nestes cenários é a rápida recuperação da Europa:

– Para o Brasil, o melhor  é que crise da europa acabe logo e retome seu crescimento econômico, pois seria benéfico para nossa economia.

Maioria parlamentar fortalece presidente francês no diálogo com a Alemanha

O Partido Socialista do presidente francês François Hollande garantiu a maioria absoluta no parlamento permitindo uma facilidade de articulação para o governo eleito em maio. O bloco socialista assegurou 320 cadeiras no segundo turno da eleição parlamentar, número superior aos 289 votos necessários para a maioria na Assembleia Nacional, de 577 cadeiras.

Bocaiuva diz que o impacto deste resultado é facilitador para o governo tomar decisões:

– Eles poderão montar um governo com mais tranquilidade e responsabilidade, e criar uma saída em que fica mais confortável começar a governar.

Para Scalércio o resultado significa que a Alemanha terá que aprimorar o diálogo com a França:

– A Alemanha vai ter que conversar mais com os franceses do que conversava no tempo do Sarkozy.

Rumos políticos do Egito dependem de aproximação do governo eleito com o Exército

O resultado da eleição no Egito foi definida no último sábado, mas a vitória só será confirmada na quinta-feira. Na disputa, o candidato Mohamed Morsi saiu vencedor pelo partido da Irmandade Muçulmana. Para assumir o poder terá que enfrentar as forças armadas do país que há 60 anos conta com presidentes com quem possui ligações estreitas. Márcio Scalércio enxerga tempos difíceis para o país:

– A transição egípcia ou será paralisada com a retomada da autoridade militar no estado egípcio e coroada com a dissolução do parlamento. Ou ela continua em andamento com idas e vindas complicadas.

O novo presidente terá poderes reduzidos. As Forças Armadas irão controlar o orçamento e assumir o poder legislativo, enquanto a Irmandade Muçulmana reivindica vitória na eleição. O mais importante para o professor é que neste momento o Egito busque alguma estabilidade, mesmo que ela venha da proximidade com os militares, como analisa Scalércio:

– O ideal agora é que o Egito busque alguma normalidade, pois a economia do país encontra-se em péssima situação. Ou a Irmandade Islâmica tenta entrar em acordo com os militares ou então encontrará uma dura oposição.

O professor Cunca Bocaiuva concorda com esta visão e alerta que, caso não haja uma aproximação das forças políticas, o cenário pode se agravar:

– Há um quadro de luta politica e contestação, tem uma disputa politica institucional que precisa acomodar forças que não estavam no esquema de poder e terão que ser incorporadas pela articulação politica. O Egito tem tutela militar permanente. Se for rompida terá um espaço de incertezas.