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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Show do Los Hermanos reforça onda multiuso dos cinemas

Ana Luiza Cardoso - Do Portal

04/06/2012

Divulgação

“Aqui vocês podem pular e dançar, mas tomem cuidado com os degraus”, avisou a funcionária do cinema para os 20 espectadores que se acomodavam nas poltronas minutos antes da "sessão", quinta-feira passada, num cinema da Barra. O show do Los Hermanos transmitido ao vivo de São Paulo reforçava a tendência de abertura dessas casas para outros tipos de espetáculos e até outros negócios. Se por um lado os fãs lamentavam a distância do palco, a falta do burburinho, por outro a tela grande aproximava-os das caretas do vocalista Rodrigo Amarante, flagrava o dedo mindinho excluído na sandália fechada de Marcelo Camelo, ampliava o papelzinho colado no baixo de Gabriel Bubu (uma homenagem ao músico Nelson Jacobina). 

Veterana em Los Hermanos mas caloura em trasmissão no cinema, a estudante Cíntia Ferreira estava ansiosa para conseguir ver detalhes despercebidos nos shows da banda, tradicionalmente concorridos:

– Tinha ido ao show do domingo anterior (dia 27, na Fundição progresso), mas não fiquei satisfeita. Queria mais. Como não sei quando eles se apresentarão de novo, resolvi vir ao cinema. A princípio achei estranho ver o show num cinema, mas vou poder enxergar melhor o que acontece no palco – ponderou.

Outros fãs mostravam-se igualmente curiosos com a nova experiência. A banda tentava reduzir a distância mandando alôs ("Gente, vamos dar um alô para o pessoal do cinema", dizia Amarante), pedindo para que cantassem juntos. Alguns quebraram o protocolo das salas do gênero e ficaram em pé, mas logo voltavam aos assentos e acompanhavam o show cantando. Na plateia, Jayro Neves, pai de Rodrigo Amarante, verificava se a nova experiência mantinha o padrão sonoro:

 – A maior preocupação da banda é com a qualidade do som, e estou aqui também para informá-los sobre o que achei. A transmissão travou um pouco, mas foi possível escutar e ver o show com clareza.

A qualidade audivisual estimulava uma onda inadvertida de filmagens. Celulares à mão, boa parte dos espectadores registrava o show até uma funcionária acabar com a festa: “É proibido tirar fotos no cinema”. 

Los Hermanos foi a primeira banda nacional a protagonizar uma transmissão de um show ao vivo para o cinema. Câmeras de alta definição instaladas em diversos pontos do palco e da plateia reproduziram para cinemas de 21 cidades brasileiras o que rolava no Espaço das Américas, em São Paulo. Tinha o desafio de transportar o clima do espetáculo para as salas escuras a quilômetros dali.

Para Laudson Diniz, diretor-executivo da Cinelive, empresa responsável pela transmissão do show, o público dessas sessões de cinema especiais "busca, acima de tudo, conforto e tranquilidade". Mas, na apresentação do Los Hermanos, a necessidade também fez a diferença: com os ingressos esgotados, ir ao cinema era a única forma de assistir ao show da banda. Laudson acrescenta  que a reprodução deste show representa a quebra de um antigo modelo:

– Esse projeto havia sendo estudado há meses, mesmo antes de os ingressos esgotarem – esclarece. – Acho que, a partir desse show, a transmissão ao vivo pode ganhar mais visibilidade. A demanda para esse tipo de reprodução só aumenta. Por exemplo, a Liga dos Campeões da Europa foi transmitida em 10 salas de cinema no ano passado. Agora em 2012, são 38 salas.

Shows internacionais, óperas, balés, jogos de futebol e até reuniões coorporativas. Há três anos, os cinemas passaram a incorporar, de forma sistemática, atrações e negócios além dos filmes. Na temporada de óperas do The Royal Opera House, de Londres, mais de 30 salas da rede Cinemark exibiram o espetáculo. De acordo com a assessoria da empresa, este tipo de transmissão está crescendo e "recebendo uma aceitação cada vez maior".

– Os resultados mostram que há interesse do público. Embora os filmes continuem a ser a grande razão das salas de cinema, elas estão ganhando uma nova configuração com a oferta de conteúdos variados – observa Alice Schmitt, assessora da rede de cinemas.

Tosca, Cendrillon, Rigoletto, Cosí fan Tutte, Il Trittico e Macbeth já foram exibidas neste ano pela Cinemark e comentadas por Marcel Gottlieb, especialista em óperas e amante da música clássica. Para Marcel, o êxito da transmissão em cinema indica não só o interesse de um novo público, mas também ajustes de produção. A proximidade da câmera aumentou a preocupação com detalhes das interpretações e da ópera propriamente dita. Nas primeiras montagens filmadas, a câmera entrava no palco, coberta por um pano preto. Hoje, com o desenvolvimento das técnicas de captação, observa-se um trabalho mais fluido e adaptado:

– A ópera no cinema é popular no mundo todo e tem muitas vantagens. É possível ver as melhores produções com som e imagem de primeira – ressalta Marcel. – Tudo tem que evoluir e se adaptar. O cinema mudou e a ópera acompanhou.