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Rio de Janeiro, 20 de junho de 2024


Cultura

Exposições de fotografia no Centro do Rio propõem reflexão

Ligia Lopes - Do Portal

15/05/2012

 Divulgação/ Samuel Aranda

Levar à reflexão sobre o mundo em que vivemos é a proposta das exposições World Press Photo e A Terra vista do céu, ambas em exibição no Centro do Rio. Trazendo as principais fotos publicadas na imprensa mundial em 2011, a 55ª edição da exposição internacional, na Caixa Cultural, apresenta 170 fotos de 57 profissionais, selecionados entre cerca de cem mil imagens de cinco mil fotógrafos de 24 países. O maior destaque é o registro do espanhol Samuel Aranda durante os confrontos em Sanaa, no Iêmen.

Há mais de dez anos trabalhando no Oriente Médio, o fotógrafo de 33 anos é o vencedor desta edição do WPP. A foto, publicada pelo New York Times, retrata uma mulher coberta por um véu preto abraçando o filho ferido.

"Mulher segura em seus braços o filho ferido durante protestos contra o presidente Saleh", registro de Samuel Aranda para o The New York Times. Sanaa, Iêmen, 15 de outubro de 2011.

Ultrapassando as lentes da câmera, Aranda criou laços com a família fotografada. Em entrevista ao Portal, por e-mail, o fotógrafo contou que mantém contato com a mãe, Fatima, e o rapaz, Said, e que ambos estão bem:

– Gosto de passar tempo com as pessoas que fotografo e não construir nenhuma barreira emocional. É um momento de confiança mútua, onde eles confiam em mim e eu confio neles – conta.

 Divulgação/Yuri Kozyrev

A avaliação do júri foi realizada na sede da WPP, em Amsterdã, na Holanda. Segundo a produtora da exposição e representante da WPP no Brasil, Flávia Moretti, a imagem vencedora representa a força das mulheres na guerra, uma coragem muito mais sentimental do que física.

– A foto do Samuel é uma fotografia bíblica. Remete à imagem da Pietá, figura emblemática cristã que significa a piedade de Maria com o menino Jesus. A foto representa, de maneira muito poética, ao mesmo tempo força e carinho. É o lado humano da guerra – afirma Flávia, ressaltando que a mostra não serve apenas como retrospectiva histórica, mas como panorama do que está acontecendo no mundo.

“Rebeldes em Ras Lanuf”, de Yuri Kozyrev, Rússia, Noor Images para Time. Por semanas, rebeldes resistiram contra o líder líbio Muamar Kadafi na esperança de que o mundo iria ajudá-los. A rebeldia diminuiu quando os aviões e tanques do ditador retomaram o que chamava-se de Líbia Livre. Líbia, 11 de março. - 1º lugar Notícias em Destaque/Categoria Single

Este, no entanto, não foi o objetivo do fotógrafo. Ele conta que o momento era de muito caos, disparos e bombardeios: “Não tinha tempo de pensar em Michelangelo” (artista que imortalizou Pietá).

– Quando fotografo, minha intenção é conseguir fotos que possam transmitir emoções, e que o público possa se sentir conectado com a imagem – explica Aranda.

Para Flávia, o objetivo da exposição é dar ao público a condição de refletir sobre os principais acontecimentos do mundo, “criando uma massa crítica coletiva”.

– É uma oportunidade de as pessoas tentarem mudar o que acham de errado e refletirem sobre as coisas que não vivenciam no dia a dia, mas que outros vivenciam, como a guerra, a perda, o despejo de uma casa.

 Divulgação/Vânia Matos Também com a intenção de dar ao público a oportunidade de refletir sobre a transformação do mundo, a exposição ao ar livre A Terra vista do céu, do fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, chega pela primeira vez ao Brasil depois de ser vista por 120 milhões de pessoas em 110 países. A bordo de helicópteros e balões, o ambientalista fotografou a beleza dos quatro cantos do planeta e sua perceptível degradação ao longo de vinte anos. Das 130 imagens, 11 delas são inéditas e feitas no Rio.

A exposição monumental ocupa a Praça Floriano, a Cinelândia, e já chegou a ter mil visitas por hora, de acordo com a produção. À noite, um sistema de iluminação valoriza ainda mais as imagens, acompanhadas de créditos, como reproduzido aqui.

Grande Fonte Hidrotermal Prismática, parque nacional de Yellowstone, Wyoming,EUA  (44°31’ N - 110°50’ O)


Situado num planalto vulcânico situado nos estados de Montana, Idaho e Wyoming e criado em 1872, Yellowstone é o primeiro e mais antigo parque nacional do mundo. Enquanto os EUA concluíam a “conquistado Oeste” e massacravam os últimos bisões, alguns tiveram a intuição de que a natureza devia ser protegida. O parque se estende por 9.000 km2 eapresenta a maior concentração de fenômenos geotérmicos do globo, com mais de 300 gêiseres e milhares de fumarolas e nascentes quentes. Com um diâmetro de 112m, a Grande Fonte Prismática é a bacia termal mais vasta do parque, e a terceira do mundo em tamanho. O espectro de cores, razão do seu nome, é devido à profundidade da água em seu centro e, na periferia da fonte, à presença de algas microscópicas cujo crescimento na água quente difere em função da temperatura. Reserva da biosfera desde 1976, inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco em 1978, o parque nacional de Yellowstone recebe, em média, 3 milhões de visitantes a cada ano. O continente norte-americano, onde estão situados os 5 sítios naturais mais frequentados no mundo, recebeu mais de 98 milhões de turistas em 2010, ou seja, mais de 10 % dos 940 milhões de turistasinternacionais contabilizados nesse ano. Na escala mundial, a atividade turística representa um volume de negócios de quase 6.000 bilhões de dólares, ou seja, mais de 9 % do PNB mundial. Mesmo representando 250 milhões deempregos, o turismo tem um impacto negativo sobre o meio ambiente, os recursos naturais e as culturas locais.

A mostra, iniciativa do Consulado Geral da França no Rio, em parceria com a Prefeitura, e produção da Agência Bonfilm, chega como uma introdução à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que será realizada na cidade entre os dias 20 e 22 de junho. Vinte anos após a ECO92, quando teve o insight, o fotógrafo ativista mostra sua proposta de reflexão sobre a evolução do mundo.

Arthus-Bertrand sempre se interessou pelo meio ambiente. Por ter vivido em uma reserva ambiental por três anos, descobriu o gosto por fotografar. Com 35 anos de carreira, o francês já publicou mais de 60 livros com fotos feitas ao redor do mundo.

– Falar de meio ambiente é sempre complicado, porque as pessoas acham os discursos muito pessimistas e cansam de ouvir. A exposição é uma forma de civilizar as pessoas através da arte e de forma lúdica – explica o produtor Christian Boudier.

Desde 2005, Arthus-Bertrand é presidente da Fundação Good Planet, que luta contra as mudanças climáticas do planeta através do programa Action Carbone. Os gases de efeito estufa emitidos com a estrutura da exposição serão compensados com um projeto de reflorestamento no Estado do Rio. O projeto é uma parceria entre a Voltalia Energia do Brasil com a Associação do Mico Leão Dourado.

– De acordo com uma avaliação das emissões de gases, a exposição emitiu 37 toneladas de gás carbônico e calculamos que devemos plantar 246 árvores – explica Etienne Vernet, responsável de qualidade da Voltalia. O plantio será no dia 26 de maio.

Passarela de Niemeyer - Rocinha, Rio de Janeiro, Brasil
(22°59’32.62” S – 43°15’4.51” O)

A passarela localizada na Avenida Lagoa-Barra, em frente à favela da Rocinha, foi concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer (que acaba de completar 104 anos), mundialmente reconhecido por sua arquitetura moderna, singular e “sinuosa”. De acordo com suas próprias palavras: “ Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher amada. De curvas é feito todo o universo. O universo é curvo.” Situada entre os bairros de classe alta da Gávea e de São Conrado, a Rocinha foi povoada devido em grande parte ao êxodo rural do Nordeste brasileiro, intensificado a partir da década de 1950. Trata-se de uma verdadeira cidade dentro da cidade, e sua população é particularmente difícil de ser contabilizada: as estimativas vão de 70.000 a 150.000 habitantes. No início de 2012, a 20ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) foi implantada nessa comunidade há muito tempo ocupada por traficantes de drogas bem organizados. Com 60 metros de comprimento, a passarela foi construída em 2010 ao custo de R$ 15 milhões, a fim de facilitar os deslocamentos da comunidade até o Complexo Esportivo da Rocinha, construído no âmbito do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento criado pelo governo brasileiro), e até a escola de samba da comunidade.

Paralelamente à exposição, Arthus-Bertrand lançou o livro homônimo A Terra vista do céu – 20 anos de retratos do planeta, pela editora Casa da Palavra em coprodução com a Bonfilm. O livro agrupa as imagens expostas na Cinelândia e um DVD do documentário Nosso planeta, nossa casa, de autoria do próprio fotógrafo. A obra custa R$ 90 e pode ser comprada na exposição.

A Terra vista do céu ficará na Cinelândia até o fim de junho. Já a World Press Photo fica na Caixa Cultural até 3 de junho, de terça a domingo, das 10h às 21h. A entrada é franca e a classificação é 16 anos.