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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Família Caymmi exalta a afinação com Jorge Amado

Tiago Coelho - Do Portal

20/04/2012

Reprodução TV

O baú de memórias da família Caymmi reúne 80 anos de amizade pela família de Jorge Amado. Algumas destas histórias foram compartilhadas na sexta-feira, 13, no auditório da Academia Brasileira de Letras. Na roda musical que reforçou o repertório de homenagens ao centenário de Jorge Amado, os herdeiros de Caymmi subiram ao palco para contar e cantar uma das maiores parcerias entre música e literatura da cultura brasileira. Depois do show, que integrava o projeto MPB na ABL, Stella Caymmi, neta de Dorival, e Danilo Caymmi, o filho mais novo do patriarca, relembraram ao Portal histórias pouco conhecidas dos dois baianos e exaltaram a afinação entre as obras.

Stella, que é escritora e professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, contou, por exemplo. como Jorge convenceu Dorival a musicar um hino comunista. Um episódio que até extrapolou a conexão temática e o festejado entrosamento entre as famílias:

– São dois baianos da mesma geração que tinham um amor pela Bahia e a sentiam de maneira muito igual. Houve não só uma afinidade na obra e no tema que tratavam, mas houve uma simpatia, um amor de um pelo outro que durou 70 anos. Ao ponto de me sentir neta de Jorge Amado e Zélia Gattai – conta Stella, cujo nome artístico vem da avó Stella Maris, cantora de rádio e mulher de Dorival.

Os elementos comuns às obras de Caymmi e Jorge Amado, na maioria das vezes ligada ao universo baiano, têm a ver com os cheiros e sabores que os contemporâneos compartilharam. Uma comunhão que atravessou gerações, pois Dori Caymmi, o filho do meio de Dorival, e o caçula Danilo também compuseram canções baseadas na obra de Jorge Amado:

– A comida, o cheiro de Salvador, a cultura baiana: as coisas e graças da Bahia, como o meu pai falava. Tudo isso ligava esta amizade que durou até a morte deles. "Alegre menina", da trilha de Gabriela, é uma ligação de Jorge Amado com a segunda geração da família Caymmi, como o Dori e, mais tarde, eu – destacou Danilo, que compôs duas canções, uma delas com o pai, para a trilha da minissérie Teresa Batista (baseada no romance "Teresa Batista Cansada de Guerra", de Jorge Amado, exibida na Globo em 1992).

A política também aproximou Dorival e Jorge Amado. Em 1945, com a abertura política, Luis Carlos Prestes se candidatou a senador. Jorge Amado, comunista como Prestes, intimou Caymmi a compor o hino e o jingle da campanha. Caymmi, esclarece Stella, tinha simpatia pelos comunistas mas não era um militante como Jorge Amado. Também não gostava de fazer música por encomenda. Acabou musicando “Beijos pela noite”, com letra de Jorge Amado e Carlos Lacerda. O grupo costumava a se encontrar na Cinelândia, no centro do Rio, tradicional ponto de intelectuais da época.

– O Jorge [Amado] conseguia tudo o queria. Ninguém negava nada para ele. Meu avô detestava fazer música por encomenda. Ele queria ter tempo para fazer música. Mas o Jorge arrancava do Dorival qualquer coisa. Como eram muito amigos, Jorge não exitou, pegou meu avô de jeito e pediu para compor rapidamente um hino para a campanha de Prestes – conta Stella.

No tom do esclarecimento, ela acrescenta que Dorival era um artista "à moda antiga, não tinha uma preocupação necessariamente ideológica":

– Consegue imaginar Dorival Caymmi militante? Não dá pra enxergar isso. Ele era um artista que estava mostrando a música dele. Mas achava bonito o posicionamento dos comunistas e sofreu com o rompimento dos comunistas com Carlos Lacerda – relembrou Stella, que, apesar de debutar no palco, mostrou a desenvoltura e a afinação da mãe Nana.