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Rio de Janeiro, 23 de maio de 2024


Economia

Com moeda própria, Cidade de Deus valoriza autoestima social

Mayara Avance - Da sala de aula

25/07/2012

 Divulgação

A comunidade da Cidade de Deus, onde vivem 65 mil pessoas, tem uma moeda própria. Criada em setembro de 2011, a CDD é resultado de mais de um ano de estudos feitos pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico Solidário. O banco comunitário pretende ajudar os moradores a terem uma economia articulada e independente. Atualmente, 850 estabelecimentos comerciais na Cidade de Deus, e 200 deles já estão inscritos para receber a CDD.

Apesar do seu caráter inovador, a medida ainda não é muito conhecida pelos moradores. “Nunca tinha ouvido falar na CDD, mas acho que a iniciativa vai ajudar a comunidade a economizar dinheiro”, disse Magno da Silva Leonor, morador da Cidade de Deus.

De acordo com o secretário de Desenvolvimento Econômico Solidário, Marcelo Henrique da Costa, é normal que nem todo mundo conheça ainda o banco comunitário. “Toda semana nós fazemos reuniões com a comunidade, mas infelizmente o processo de inserção dessa prática é lento, no mínimo levaremos seis meses para fazer com que os moradores conheçam o projeto”, disse.

 Divulgação A ideia de criar no Rio de Janeiro um banco comunitário surgiu depois que Marcelo conheceu o Banco Palmas (Fortaleza-CE), o primeiro banco comunitário criado no Brasil. O instituto tem uma moeda própria, que circula pelo Conjunto Palmeira, um bairro popular com 32 mil moradores. Segundo o site oficial, entre os anos de 2007 e 2009, o Instituto Palmas emprestou um volume equivalente a R$ 4.126.712,79 e 2.500 famílias foram beneficiadas. Além disso, 2.000 empregos foram gerados. Hoje em dia, no Brasil, existem 63 bancos comunitários.

Não é qualquer favela que pode receber o banco comunitário. É preciso que tenha uma economia forte e seja afastada de grandes centros urbanos, para que a iniciativa dê certo. O Santa Marta, por exemplo, não poderia receber a moeda social, pois não tem força de sustentação da medida. O Complexo do Alemão deverá ser a próxima comunidade a ter um banco próprio, e está sendo estudada a possibilidade de implantação na Rocinha. Só que essas são apenas algumas das quase 1.000 favelas contidas na cidade do Rio de Janeiro.

Marcelo reconhece que criar um banco social não é a solução de todos os problemas do Rio de Janeiro. Ele acredita, porém, que a cidade vive um momento de ouro.

“A Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 vão ajudar muito a cidade carioca a se desenvolver. Implantar a moeda social nesse período de pacificação das favelas foi uma estratégia de desenvolvimento local comunitário. Outros eventos como o Rock in Rio, por exemplo, também são decisivos para a reconstrução da cidade”, afirmou.

Para Marcelo Henrique, a construção do banco comunitário no país não só ajuda na reconstrução da cidade, como significa um aumento na autoestima da comunidade. Benta Neves do Nascimento, Dona Geralda, Padre Júlio Grooten e o morador João Batista foram os escolhidos para ter o rosto estampado nas cédulas. “A moeda social, além de tudo, representa a valorização dos moradores da comunidade, porque gera uma identidade social”, disse o secretário.

ENTENDA O FUNCIONAMENTO DA MOEDA CDD

O morador vai até o banco comunitário e faz a troca do seu dinheiro em reais para CDD. Com a nova moeda em mãos, ele pode fazer compras nos estabelecimentos credenciados e ganhar descontos. Há cinco cédulas em circulação: 0,50 CDD; 1 CDD; 2 CDD; 5 CDD e 10 CDD.

O banco também realiza empréstimos para os consumidores e os comerciantes, com juros bem inferiores em relação aos bancos convencionais. A cabeleireira Aritimea Belarmina da Paz é um exemplo de comerciante que adotou a CDD. Ela tem um salão há 18 anos e dá 10% de desconto aos clientes que pagam o serviço com a nova moeda local.

 

* Reportagem produzida para a disciplina Laboratório de Jornalismo Impresso, da professora Carla Rodrigues.