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Rio de Janeiro, 24 de julho de 2024


Mundo

Analistas preveem transições graduais para a Síria

Isabela Castro - Do Portal

20/03/2012

 Stock Photo

A onda de levantes deflagrada há pouco mais de um ano no Oriente Médio e norte da África, que derrubou os governos de Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen e que ainda se desenrola na Síria, carrega incertezas sobre o futuro político, social e econômico daqueles países. Enquanto revisam estratégias para a região, potências como os Estados Unidos aguardam maior nitidez sobre os efeitos das trocas dos antigos regimes autoritários e dos conflitos na Síria – cujo desfecho esbarra nas divergências religiosas, na resistência do Exército de Bashar Assad e na política externa regional. Diante destes novos movimentos no xadrez geopolítico mundial e da polarização de opiniões no Conselho de Segurança das Nações Unidas, analistas projetam uma caminhada paulatina para modelos menos autoritários de poder. Apontam também a necessidade de reestruturação da ONU.

Especializado em estudos árabes e islâmicos, o professor de História da PUC-Rio Murilo Sebe avalia que esta transição no Oriente Médio será complexa e, assim, deve ser conduzida de forma gradual. Ele pondera ainda que um processo lento revela-se ideal para reduzir a chance de revanchismo:

– A Primavera Árabe representa o esgotamento de um modelo de regime autoritário que perdura desde a década de 1970. O que temos agora é um início de um processo de democratização longo e complicado. É importante que seja gradual, para não criar revanchismos entre os que apoiavam a ditadura e os que se estabeleceram no poder após seu fim, para que evitar uma guerra civil – reitera o professor – Não podemos definir um prognóstico, pois a democracia se adapta a cada local de implementação, ela não tem um modelo fixo.

À luz das transformações já observadas nos países onde as ditaduras caíram, o professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio Márcio Scalércio, especialista em guerras e Oriente Médio, ressalta a tendência de organização de grupos religiosos em partidos políticos:

– A religião é parte fundamental da equação dos países do Oriente Médio, e isso se reflete nas primeiras eleições realizadas após a derrubada do governo na Tunísia, por exemplo. O grupos estão se consolidando e já mostraram que são bons de voto – observa – Nos países onde estão havendo eleições minimamente corretas e razoáveis, podemos apostar em governos eleitos com respaldo da população e, mais para frente, em regimes e sociedades mais democráticas.

No caso sírio, Scalércio vê na religião um maiores impasses para o fim dos confrontos que já deixaram mais de 9 mil mortos, de acordo com o Observatório Sírio de Diretos Humanos (OSDH). Ele lembra que a Síria é um país de “equilíbrios difíceis”, devido à "atuação expressiva" de grupos religiosos antagônicos:

– O governo está nas mãos de uma minoria xiita alauíta e tem apoio dos cristãos. Isso desagrada a maior parte da população, que é sunita. A elite no poder não quer a derrubada de Assad, pois representaria uma inversão dessa ordem religiosa que vigora há décadas.

Além dos segmentos religiosos cristãos e xiitas alauítas, a legitimidade interna do governo autoritário conta com o forte apoio do Exército. Sebe considera esta instituição "fundamental" para a manutenção do poder:

– A grande maioria dos países não democráticos do Oriente Médio tem no Exército a principal instituição nacional, pois é responsável por controlar a coerção. Além disso, o Exército está completamente entrelaçado à sociedade civil, por ser um meio de ascensão social fácil. É comum as famílias quererem que seus filhos façam parte das Forças Armadas – acrescenta – O rompimento do Exército libanês com [o ex-presidente] Kadafi foi decisivo para a sua queda. Já na Síria, o Exército não só continua ao lado do ditador como é responsável pelos atentados à população.

Sebe destaca ainda o papel-chave do regime sírio dentro do Oriente Médio, por “atuar além de suas fronteiras”, como empecilho para a queda de Assad:

– A Síria tem posições definidas, o que ajuda a definir com quem se está lidando. É inimigo declarado de Israel e é decisivo para a sobrevivência do Hezbollah no sul do Líbano e para os grupos palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Então, retirar o presidente do poder é criar um cenário de incertezas na região, o que a maioria dos países não quer – completa – Para que não haja prejuízos para outros países do Oriente Médio, é preciso que as transformações sejam paulatinas.

Caso sírio agrava rachaduras das Nações Unidas

No Conselho de Segurança das Nações Unidas, órgão responsável por assuntos relacionados à segurança mundial, as tentativas de promover sanções à Siria, devido ao massacre à população civil, foram vetadas por China e Rússia, antigos parceiros do país árabe. Embora considere equivocadas as posições dos governos chinês e russo neste caso, Murilo Sebe pondera as divergências sejam importantes para “dar mais equilíbrio ao órgão, mas comprometem seu poder de ação”:

– A problemática na Síria criou uma divisão de forças dentro do Conselho: os EUA intervêm em todas as sanções contra Israel e o bloco Rússia e China, nas sanções contra inimigos regionais dos israelenses. Esse equilíbrio é positivo, mas o poder do Conselho como árbitro de conflitos fica debilitado, pois é necessário consenso de todos os membros para que haja aprovação.

Para Sebe, impasses como estes, além de esvaziar a possibilidade de atuação da ONU, criam solo fértil para atitudes unilaterais que diminuem sua credibilidade:

– A legitimidade da ONU está em xeque desde que o governo americano ignorou a decisão do Conselho de Segurança e invadiu o Iraque em 2003. O caso sírio aumenta os questionamentos e a evidência da necessidade de reformas, já que sua autoridade para conter a violência contra civis é debilitada.