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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Analistas projetam relação mais proveitosa com EUA

Isabela Castro - Do Portal

08/03/2012

 Arte Jefferson Barcellos

A Super Terça americana, quando dez estados votaram as prévias republicanas, confirmou as rachaduras da oposição a Barack Obama, candidato à reeleição. Em Ohio, estado cobiçado por ser historicamente “indeciso”, o ex-governador de Massachussets Mitt Romney teve vitória apertada, com 38% dos votos contra 37% do seu principal adversário, o ex-senador Rick Santorum. Somada à recuperação econômica do país, a cisão republicana reduz o peso das oscilações da popularidade de Obama ao longo do governo e o fortalecem para as urnas em novembro. Embora só se tenha mais nitidez sobre o futuro ocupante da Casa Branca a partir de agosto, a perspectiva da reeleição projeta um modelo administrativo mais liberal – ou menos unilateral, como preferem alguns analistas – do qual o Brasil pode se beneficiar, pois alinha-se à política externa de aproximação com os Estados Unidos e a Europa. 

Para o jornalista e pesquisador Arthur Ituassu, doutor em Relações Internacionais e coordenador do curso de Jornalismo da PUC-Rio, o resultado da Super Terça, com Romney vitorioso em seis estados, Santorum em três e Gingrich em um, confirma a crise do conservadorismo nos Estados Unidos. Ele identifica uma tendência política e cultural mais liberal, vantajosa às ambições brasileiras:

– O governo Bush (2001-2009), com gerenciamento econômico polêmico, atos unilaterais e abertura de várias frentes de guerra, marcou o fim de um período conservador que se estendia desde o governo Nixon (1969-1974). Os EUA não têm mais força para adotar essa postura. O resultado em Ohio confirma essa crise. Romney não convenceu ainda a ala mais conservadora, como o movimento Tea Party. Sendo o voto facultativo, não acredito que eles vão votar – avalia – A possível reeleição de Obama aponta para uma administração mais liberal, engajada em questões sociais, meio ambiente e paz mundial. Nas reuniões internacionais, temos muito a aproveitar dessa postura menos unilateral.

O professor ressalva que "atritos podem ocorrer em questões comerciais, como no cancelamento da compra de aviões da Embraer pelas Forças Armadas americanas". Mas se diz "otimista", considerando que o presidente Obama confirme o certo favoritismo decorrente da recuperação econômica e da cisão no Partido Republicano.

Enquanto os republicanos se enfrentam para escolher um candidato, Barack Obama se esforça para manter a economia e a popularidade em rotas ascendentes. O professor de Relações Internacionais da PUC-SP Geraldo Zahran, coordenador de pesquisa do Observatório Político dos Estados Unidos, também aposta na vitória do presidente:

– É muito provável que Obama se reeleja, a menos que haja uma crise de grande proporção ainda esse ano. Os sinais de recuperação da economia, como a redução do desemprego, e a falta de consenso no partido republicano o ajudam muito. Além disso, Obama ainda não se lançou em campanha. Como candidato, ele é mais forte do que como presidente, por causa de sua boa retórica e carisma.

Itassu ressalta outra qualidade da campanha eleitoral que o elegeu em 2008:

– A capacidade de atingir as massas da plataforma Barack Obama é enorme. O uso revolucionário das tecnologias como twitter, facebook e email gerou um novo tipo de mobilização, mais espalhada e disseminada.

O professor de Ciência Política da PUC-Rio Ricardo Ismael pondera que, apesar do cenário favorável ao presidente Obama, as eleições "ainda não estão decididas". Ele lembra que o período decisivo será entre agosto e outubro, quando os eleitores avaliarão os candidatos:

– Enquanto a oposição se desgasta dentro do partido, Obama está em uma posição confortável para montar sua plataforma. Mas só a partir de agosto, quando for definido o candidato republicano, será possível montar um panorama. Ainda não sabemos como irão se posicionar os independentes que ajudaram a eleger Obama em 2008, nem as estratégias adotadas por cada partido.

As eleições de novembro definirão não só o futuro chefe da Casa Branca como também o rumo das relações políticas e econômicas entre Brasil e os EUA. Boa parte dos analistas acredita, como Ituassu, num terreno mais fértil às pretensões brasileiras no jogo internacional. Ismael considera até que turbulências como as do caso da Embraer possam adquirir novos trilhos:

– O cancelamento da compra pode ter ocorrido por ser ano eleitoral e o presidente estar se empenhando em um discurso de produção de empregos dentro do país. Acredito que negociações comerciais como esta voltarão a acontecer. Não vejo o caso como algo que possa criar um impasse na agenda dos dois países.

Se por um lado Ismael enxerga, a exemplo de vários analistas, sinais de aproximação entre Brasil e Estados Unidos, por outro ele observa que as agendas internacionais ainda carecem de um maior alinhamento: 

– O foco dos americanos no momento não é a América do Sul, a preocupação maior está na crise europeia, na Primavera Árabe e no Irã.

Para Zahran, o Brasil pode se beneficiar do ambiente que ainda se recupera do baque econômico para obter vantagens comerciais com os Estados Unidos:

– A fragilidade econômica dos Estados Unidos tornou a relação entre os dois países mais igual. Algumas demandas históricas do Brasil, como o corte ao subsídio do etanol, têm sido atendidas por causa das crises domésticas. Mas, no panorama geral, não vejo grandes mudanças na agenda EUA-Brasil.

Como funcionam as eleições americanas

As prévias dos partidos

Os indicados à presidência são apontados por meio das votações primárias. Nesta etapa, cada partido político promove eleições estaduais, nas quais o pré-candidato vencedor terá apoio de todos delegados do respectivo distrito. A quantidade de delegados de cada estado varia de acordo com o número de deputados e senadores da localidade.
Nas eleições deste ano, o Partido Democrata não realizou as primárias, pois Barack Obama tentará se reeleger. Já os republicanos têm como principais pré-candidatos Mitt Romney, Ron Paul, Rick Santorum e Newt Gingrich.
Em agosto, será realizada, no estado da Flórida, a Conferência Nacional Republicana. O pré-candidato apoiado pelo maior número de delegados será confirmado como candidato à presidência dos Estados Unidos.

As eleições

A escolha do presidente nos Estados Unidos é feita por votação indireta. A população de cada estado escolhe delegados para representá-la no Colégio Eleitoral, responsável por votar e decidir o novo presidente do país. Cada distrito tem quantidade de delegados proporcional ao tamanho da respectiva população.
Os delegados de um estado, na maioria dos casos, seguem a preferência da maioria da população que representa. A Califórnia, com maior número de habitantes, é representada por 55 votos no Colégio Eleitoral, logo, o candidato vencedor no estado conta com cerca de um décimo do total de delegados.
No Brasil, a escolha do presidente segue o modelo das eleições diretas: quem obtiver maior quantidade de votos da população será eleito presidente. Nos EUA, é diferente: como cada estado terá toda sua população representada por um número fixo de delegados, não se revela decisiva a margem de vitória do candidato.