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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Depois do carnaval, tudo volta ao normal

Amanda Reis e Ligia Lopes - Do Portal

09/03/2012

 Arte de Jefferson Barcellos sobre foto de divulgação

Depois que o carnaval acaba, a rotina dos profissionais das escolas de samba também volta ao normal. Alguns destaques do cenário carnavalesco do Rio de Janeiro mantêm atividades paralelas ao trabalho nos barracões. Luiz Calixto Monteiro, conhecido como Casagrande, é mestre de bateria da Unidos da Tijuca, campeã do carnaval 2012. E taxista.

Casagrande, 47 anos, foi criado no Borel e tem verdadeiro amor pela escola da comunidade, a qual pertence há 36 anos, mesmo morando hoje no Santo Cristo.

– A Tijuca é a minha segunda família. É a minha casa, onde eu posso fazer tudo, porque sei onde estou pisando.

Como taxista, Casagrande trabalha há 15 anos no trecho Centro-Zona Sul. Sem ponto fixo, gosta de rodar pela cidade. Geralmente, dirige seis horas por dia – "Trabalho pouco, meu táxi é quase um carro de passeio", confessa, atribuindo a baixa rotatividade à atenção exigida pela escola.

A bateria começa a se preparar para o desfile em junho. Em dezembro e janeiro, Casagrande abandona o carro e se dedica totalmente à Unidos da Tijuca. Mestre da escola há cinco anos, ele guarda na memória três carnavais especiais: o de 2008, quando estreou na bateria, o de 2010, quando foi campeão pela primeira vez, e o deste ano, quando a escola foi tricampeã (o primeiro campeonato foi em 1936).

Outro que não se dedica apenas ao carnaval é o compositor de samba-enredo Sidney Sã. Aos 53 anos, ele se divide entre a escola de samba Unidos de Vila Isabel, do Grupo Especial, e a funerária Rio Pax, no mesmo bairro. Paradoxalmente, Sidney lida com a alegria, que embala os foliões, e a tristeza que envolve famílias ao perder um ente querido.

– Embora esteja acostumado com o trabalho, não consigo me acostumar com a dor das pessoas.

Tudo começou três anos atrás, quando Sidney, desempregado, recebeu a indicação de um amigo para trabalhar como agente funerário. Ele afirma conciliar bem as duas atividades. Faz seu próprio horário na funerária e, geralmente, compõe durante a madrugada.

Chefe de Sidney, o gerente da Rio Pax, Alex Castro, 40 anos, conta que o compositor é "muito tranquilo" e que seu profissionalismo como agente funerário é "impecável".

– Eu sei da carreira dele no carnaval, até porque somos amigos fora do trabalho. Sidney sabe realmente separar as coisas. Administra muito bem o mundo da música e seu trabalho aqui na funerária – relata.

Sidney atua como compositor há 27 anos, mas conta que já pensou em abandonar a disputa de sambas-enredos porque, "além de ser muito caro participar, há muitas panelinhas dentro das escolas". De acordo com o sambista, para levar um samba até a final do concurso, se gasta em média R$ 80 mil, e os compositores são responsáveis pela produção completa da apresentação, desde a torcida até a contratação dos intérpretes e ritmistas.

– É muito difícil furar esse bloqueio. Sem um patrocínio por trás, é como dar um tiro no escuro. Se tivesse sorte de despontar no cenário musical com outras produções, deixaria a disputa.

Apesar das dificuldades, Sidney se orgulha dos sambas que deram o primeiro lugar à Vila Isabel, em 1992, 2004 e 2005, e também das vezes em que foi campeão pelo Salgueiro, em 2002, 2003 e 2004 – ano em que conseguiu a façanha de ser campeão duas vezes por duas escolas diferentes. Em meio às lembranças, o compositor confessa que Vila e Salgueiro são suas escolas do coração. Nascido na Tijuca, ele e a família frequentam ambas.

 Arte: Jefferson Barcellos sobre foto de divulgaçãoSão Clemente, também do Grupo Especial, tem Jeferson Castro, o Caliquinho, como mestre de bateria. Aos 29 anos, o jovem vive de música o ano inteiro: está na São Clemente desde 1998, e também comanda a bateria dos blocos Suvaco do Cristo e Bloco de Segunda, além de fazer parte do grupo Batuque Digital

A música passa nas suas veias desde antes de nascer: "minha mãe desfilou grávida no carnaval". Morador do morro Santa Marta, em Botafogo, sua renda também vem das aulas de percussão que dá, duas vezes por semana, a crianças e adolescentes da comunidade. O projeto social de bateria mirim foi criado há três anos pelo bloco Spanta Neném.

Curiosamente, a quadra do Santa Marta não foi palco só para ele se interessar pelo samba. Desde os 16 anos Caliquinho também trabalha como pedreiro.

– Depois do colégio, eu vinha para a quadra ajudar a montar os instrumentos e, uma vez, vi uma obra e resolvi ajudar. Foi aí que me interessei em virar pedreiro – lembra Caliquinho, que começou como auxiliar nas obras.

Os meses mais pesados para o carnaval são dezembro, janeiro e fevereiro. Nesse tempo, conta Caliquinho, fica difícil conciliar obras e samba, por conta da agenda cheia de entrevistas e ensaios.

– Eu até fazia as duas coisas ao mesmo tempo, até o dia em que, no meio de uma obra, o presidente me ligou para fazer um show dali a uma hora, e não tinha me avisado antes. Quando voltei, estava muito cansado e nem tinha como mexer mais na massa, que tinha endurecido. Foi o maior prejuízo. Aí eu tomei a decisão de que, em época de carnaval, é proibido pegar na colher e na pá.

No Grupo de Acesso, o presidente da Império Serrano, Átila Gomes, 44 anos, está na escola de samba desde os 9. Há 22 anos também trabalha como bombeiro.

– Fiz vários concursos na área militar, mas optei pelo Corpo de Bombeiros. Sempre gostei de ajudar o próximo.

Átila trabalhou por seis anos na Diretoria Geral de Serviço Técnico, no Quartel Central dos Bombeiros, na Praça da República, no Centro. Segundo o coronel Vandenberg Pereira Dias, seu supervisor na época, Átila é muito competente e, devido à sua excelência na profissão, foi convidado a servir autoridades.

– Ele era motorista, e passou a dirigir para diretores. Foi bom para ele, que pôde conhecer muitas pessoas.

 Arte: Jefferson Barcellos sobre foto de divulgaçãoEm 1991, quando trabalhava na Escola de Oficiais em Jurujuba, Niterói, o bombeiro saiu de sua casa, em Madureira, para buscar um coronel em Icaraí. Na Avenida Brasil, viu um acidente envolvendo dois carros e prestou os primeiros-socorros. Uma das vítimas era o médico Eduardo Pinheiro, que estava com o motor do carro sobre a perna. Alucinado de dor, o médico chegou a pedir que Átila cortasse a perna imobilizada. O bombeiro tentou acalmá-lo até a chegada da ambulância, e depois soube que Eduardo tinha se recuperado bem. Passado um ano, Átila se casou. Sem que o bombeiro soubesse, o médico que ele havia socorrido pagou parte das despesas do casamento, como a cerveja e o salão de festas, com a cumplicidade de colegas do quartel.

Átila deixou o setor de salvamento há oito anos. Agora, trabalha no Ceterj, instituição de ensino que oferece cursos técnicos. A recepcionista Gilda Campos, 43 anos, é casada com Átila há 22 e confessa que ficava muito preocupada quando o marido saía para fazer salvamentos.

– Rezava todos os dias para pedir proteção a ele.

Quanto ao cargo do marido como presidente da Império Serrano, Gilda define como um trabalho estressante, de grande responsabilidade.

– Ele fica um pouco ausente na família, mas eu entendo. Nós temos um entrosamento muito bom e conversamos sobre tudo – conforma-se a recepcionista, que sempre acompanhou o marido na escola.

Quando começaram a namorar, ele era ritmista, e ela sempre ia assistir a suas apresentações. Já frequentava a quadra com a família e, depois que se conheceram, começou a desfilar. Atualmente comanda a Ala das Guerreiras, uma extensão da bateria, formada por parentes dos ritmistas.

Átila afirma que deve muito à Império, onde conheceu sua mulher e conseguiu pagar as inscrições dos concursos públicos. A primeira posição de destaque de Átila na Império foi como mestre de bateria, em 1990. Saiu da escola por dois anos, para comandar a bateria da Vila Isabel. Retornou à sua escola do coração como presidente este ano. Embora tenha um grande cansaço mental, Átila nunca pensou em abandonar o samba. "Tirar férias já alivia o estresse", afirma.

– Apesar do sofrimento, tem o glamour. O objetivo, agora, é pôr a Império Serrano no Grupo Especial novamente.