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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

O cinema mundial reinventa a história da Guerra Fria

Jessica Cezar - Da sala de aula

09/04/2012

 Jessica Cezar

Uma guerra político-diplomática começa no final da década de 40 envolvendo as duas maiores potências mundiais: os Estados Unidos e a União Soviética. Detentoras de grande arsenal nuclear, elas lançam no mundo o temor de transformar a Guerra Fria em uma Terceira Guerra Mundial. Em outubro de 1962 toda a tensão do terror nuclear se concentra em duas semanas, depois que um avião norte-americano fotografa a instalação de mísseis soviéticos em Cuba, que podem alcançar o território continental em cerca de cinco minutos. Tudo isso até parece coisa de cinema – e é.

Passados 50 anos da Crise dos Mísseis de Cuba é possível notar com clareza a sua influência na cinematografia, em especial americana. De acordo com Oswaldo Munteal, professor de História Contemporânea, os EUA sempre tiveram o cinema como importante instrumento de propaganda para construir a imagem do bem contra o mal – neste caso, o socialismo soviético –, divulgando para o mundo o modo de viver do povo americano. Em treze dias que abalaram o mundo, de Roger Donaldson, lançado em 2000, parece haver uma tentativa de contar a realidade por detrás da crise. “Essa preocupação com a narrativa dá uma dimensão mais jornalística para o filme”, analisa Munteal. Outro ponto marcante do longa é da criação do mito John Kennedy.

– Treze dias retrata a faceta do Kennedy que os americanos querem que o mundo veja. Ele é projetado como o presidente que leva nas costas a imagem da nação livre, tocqueviliana, da democracia americana. Kennedy foi vendido quase como uma commodity, um produto aceito. E o assassinato dele reforçou essa dimensão mítica, porque quando o herói não concretiza seu feito tende a ser mais imortalizado – afirma Munteal.

Para Hernani Heffner (foto), professor de Cinema Mundial do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, o filme reflete uma tentativa de compreensão, do ponto de vista americano, de como se chegou a uma situação limite com poucas opções. “Recuar politicamente era perder a Guerra Fria e avançar significaria apertar o ‘botão’. Como criar uma solução para isso?” Bastaria um “botão” apertado, americano ou soviético, e uma guerra nuclear se iniciaria. E a previsão de destruição geral que partiria dela causava pânico na população.

Realidade e ficção também se misturam em tramas menos comprometidas com a verdade, mas que carregam forte carga de sentimento americano. Um exemplo recente é X-Men: Primeira Classe, dirigido por Mattheu Vaughn (2011), no qual o bloqueio naval dos EUA a Cuba só não se tornou uma tragédia por conta da interferência dos personagens, principalmente de Charles Xavier (James McAvoy) cujo poder é penetrar na mente das pessoas. “Esse filme quer mostrar que os americanos estavam lutando pela paz e os heróis, originários dos quadrinhos, aparecem como representantes de uma nação livre”, acredita Munteal.

Segundo Heffner, a consequência mais terrível de uma guerra nuclear – o aniquilamento – é trabalhada no universo das histórias em quadrinhos em dimensões paralelas, na qual seria possível transcender a vida. “No caso dos X-Men eles são mutantes, são híbridos. A partir disso se tem uma resolução que indicaria que a raça humana não desapareceria por completo, mesmo diante do perigo atômico-nuclear.”

No entanto, são os filmes produzidos nos anos 60 que melhor representam as sensações que se tinha naquele período. O estudante de cinema Victor Fiuza lembra de um emblemático longa de Franklin Schaffner, O Planeta dos Macacos, lançado em 1968.

– Diferentemente dos outros filmes, ali de fato o mundo havia acabado. A raça humana se autodestruiu, como indica a última cena, uma das mais chocantes da história do cinema, na qual os astronautas desciam para um planeta destruído e recomeçado por macacos: a Terra no futuro. Nessa hora você vê uma possibilidade real de um fim do mundo.

Outra produção que alcançou o íntimo do sentimento que a Guerra Fria causou foi o filme inglês Dr. Fantástico ou Como eu aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba (1964), de Stanley Kubrick. Segundo Heffner, o longa retrata a Crise dos Mísseis de Cuba como uma consequência de questões históricas, como a corrida imperialista na primeira metade do século XX. “Em particular, você tem a remissão ao nazismo dentro do filme. O próprio Dr. Fantástico é um ex-nazista que foi acolhido pelos Estados Unidos.” De acordo com Munteal, o protagonista ironiza a tentativa de paz militarizada, em que a maior ameaça é a hipocrisia do discurso político, e não a corrida armamentista propriamente dita: “Não é tanto a bomba atômica, mas o ‘político atômico’. Kubrick desloca a questão para as pessoas e não para a bomba.”

Apesar do legado cinematográfico que a Crise propiciou, Lier Pires, especialista em Relações Internacionais do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), considera complicado fazer de um filme de ficção a base informação histórica sobre um acontecimento como esse, levando em consideração que o cenário atual é outro.

– As questões que brotaram da Crise, a exemplo o amadurecimento político dos líderes das grandes potências, fizeram com que o mundo hoje se tornasse, se não mais seguro do ponto de vista dos conflitos bélicos, pelo menos livre da ameaça nuclear de larga escala. Não há como negar que isso talvez seja o principal desdobramento positivo da Crise dos Mísseis em 1962, afirma Pier.