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Rio de Janeiro, 17 de setembro de 2019


Cidade

Rio já soma um milhão de viagens de bicicleta por dia

Isabela Castro e Caroline Hülle - Do Portal

27/02/2012

 Jefferson Barcellos

A reativação do sistema de aluguel de bicicletas da prefeitura, conhecidas como “laranjinhas”, abre caminho para o crescimento do número de ciclistas, especialmente na temporada de férias. Segundo a Associação Transporte Ativo, a cidade já reúne em torno de um milhão de viagens de bicicletas por dia, um aumento de 55% em relação a 2004, quando foi feito o último levantamento Plano Diretor de Transporte Urbano da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (PDTU). No entanto, para que o meio de transporte ecologicamente correto se torne uma opção consolidada na rotina do carioca, especialistas reforçam a necessidade de aperfeiçoamentos em segurança e infraestrutura. O subsecretário municipal de Meio Ambiente, Altamirando Moraes, aposta na ampliação das ciclovias para desafogar o trânsito:

– A malha cicloviária do Rio de Janeiro não era contínua, pois a mentalidade estava voltada para o lazer. Na Zona Sul, por exemplo, as ciclovias se concentram na orla. Agora o objetivo é outro. Temos que ligar a rota da praia às estações do metrô – esclarece Moraes – Nossa meta é terminar este ano com cerca de 300 quilômetros construídos. Esse aumento vai colaborar bastante para a organização do trânsito.

A prefeitura vai implantar, em março, numa parceria com a CET-Rio, uma "escola de trânsito" direcionada ao público jovem, no Parque dos Patins, na Lagoa. Educadores ensinarão práticas, leis e rotas para melhor utilizar a bicicleta no dia a dia e evitar riscos como o enfrentado pelo estudante Pedro Abreu. Aluno de Engenharia da PUC-Rio, ele se habituou a pedalar entre os carros, de sua casa até a universidade. “Moro no Jardim Botânico e não faz sentido desviar até a Lagoa para pegar a ciclovia. A solução é ir pelo meio do trânsito, pois se vou pela calçada os pedestres reclamam", alega. "Quase fui atropelado algumas vezes”, admite.

Histórico Bike Rio

O sistema de aluguel de bicicletas da prefeitura começou em 2008 com o projeto Pedala Rio. Em julho de 2011, o serviço foi interrompido e reformulado, dando origem ao atual projeto, Bike Rio. Dentre as principais mudanças estão a diminuição do preço do aluguel e a construção de novas estações.

Desde que foi inaugurado, há cerca de dois meses, mais de 18 mil pessoas já se cadastraram no site e foram feitas em torno de 70 mil viagens. Em um único domingo, foram contabilizadas três mil retiradas de bicicleta.

Os interessados em utilizar o sistema devem se cadastrar na internet (movesamba.com) O aluguel diário custa R$ 5 e a mensalidade R$ 10. A liberação da bicicleta nas estações é feita pelo telefone celular que o usuário utilizou no cadastro. O tempo de utilização é de uma hora e a renovação só pode ser feita após 15 minutos.

De acordo com a consultoria europeia Copenhagenize Consulting, o Rio é a 18ª melhor cidade o mundo para se pedalar. Amsterdã, onde o vaivém sobre duas rodas há muito se incorporou à paisagem, está na primeira posição. Enquanto metade dos deslocamentos da capital holandesa é feita de bicicleta, na capital fluminense esse número ainda é de apenas 5%. Para aumentá-lo, especialistas em deslocamento urbano recomendam avanços na infraestutura viária e na segurança. Para o diretor da Associação Transporte Ativo, Zé Lobo, é essencial "dar suporte ao ciclista", sobretudo o iniciante:

– A insegurança no trânsito desmotiva aqueles que querem começar a pedalar. Se dermos segurança aos que utilizam a bicicleta para se deslocar, mais pessoas se sentirão confiantes para adotá-las.

Inácio Souza, entregador de bebidas no Leblon, reconhece os riscos que ainda envolvem o ofício. “Faço entregas de bicicleta há cinco anos e já fui atingido duas vezes por carros. Em um dos casos, quebrei o braço. Não me sinto seguro para pedalar”, confessa.

Já jornalista Carla Peixoto, cujas pedaladas restringem-se à ciclovia da orla, sente-se segura e animada com a mudança de hábito. Ela elegeu a bicicleta de aluguel para ir de sua casa no Leblon até o curso de francês em Ipanema. Duas vezes por semana, pega uma "laranjinha" na estação da Praça Antero de Quental, uma das 46 em funcionamento na Zona Sul. 

– Além de melhorar meu condicionamento físico enquanto me desloco, gasto menos dinheiro com ônibus e contribuo para diminuir a poluição na cidade. Mas, como não tenho o hábito de pedalar, só ando pela ciclovia da orla – ressalva.

À medida que mais cariocas introduzem a bicicleta no dia dia, maior se revela a necessidade de avanços nas condições para o ciclista.  Reconhecida pelo Ranking Mundial GreenMetric, da Universidade da Indonésia, como a instituição de ensino superior mais sustentável do Brasil, a PUC-Rio mantém um bicicletário no campus. Reformado em 2008, o espaço reúne 160 vagas em área coberta.

– É um ótimo incentivo para vir de bike à universidade. Gasto apenas 10 minutos no trajeto e ainda tenho um lugar seguro para guardá-la. Mas poderia ter mais vagas – propõe Hugo Parpagnoli, aluno do curso de Relações Internacionais – Uma vez, outro aluno prendeu sua bicicleta à minha por falta de espaço e não pude ir para casa até ele ir buscá-la – recorda.

Embora a oferta de bicicletários ajude a disseminar as pedaladas, o professor José Eugênio Leal, do grupo de pesquisa de Transporte e Logística do Departamento de Engenharia Industrial da PUC-Rio, alerta: sem um investimento em ciclovias contínuas, será impossível a bicicleta se tornar um meio efetivo de transporte.

– Além disso, é preciso densenvolver um respeito pelo espaço do ciclista, não raramente ocupado por outras pessoas, como ambulantes – acrescenta o professor – A construção da estação do metrô, com a diminuição do número de vagas no estacionamento, pode representar um estímulo à transição do carro para a bicicleta entre alunos e professores – sugere.  

Na avaliação do professor Walter Porto, do Programa de Engenharia de Transportes do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ (Coppe), é preciso "harmonizar o trânsito" por meio de um planejamento de transportes "mais técnico do que político".

 Jefferson Barcellos

– Para que haja melhoria, é preciso pensar o Rio de Janeiro como um todo. Temos que levar em conta as peculiaridades geográficas, como as baías, lagoas e montanhas. Sem essa mentalidade, faremos apenas consertos pontuais – alerta.

Ainda de acordo com o professor, deve-se dar prioridade ao transporte coletivo e à "intermodalidade". Ele acrescenta que a bicicleta é fundamental nas periferias, "onde o transporte público é deficiente".

– O ideal é que os sistemas de menor capacidade alimentem os sistemas de alta capacidade como metrôs e trens. As bicicletas desempenham muito bem esse papel intermediário e têm a vantagem de serem sustentáveis. Seu uso como meio de locomoção ou como objeto de trabalho aumenta as oportunidades para a população de baixa renda. Facilitar a mobilidade é sinônimo de inclusão social – lembra.

Especialistas consideram a bicicleta uma solução para diminuir o estresse, a poluição, o risco de doenças e, em alguns casos, o tempo no trânsito urbano. Também é vista como um crescente suporte a determinados negócios. De acordo com a prefeitura, só em Copacabana, são feitas cerca de 25 mil viagens diárias de entrega e transporte.

Bicicletada Nacional Rio+20

O Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD), será realizado no Rio de Janeiro entre os dias 20 e 22 de junho de 2012. O objetivo da Conferência é assegurar o comprometimento dos chefes de Estado com desenvolvimento sustentável por meio da produção de um documento político.

Motivados pelo Rio+20, ciclistas de todo país planejam pedalar até o Rio de Janeiro durante o período da Conferência. A iniciativa foi nomeada Bicicletada Nacional Rio+20 e pretende chamar atenção para a necessidade de incentivo ao transporte alternativo e sustentável, em especial à bicicleta. A organização da bicicletada é feita através do site do projeto (bicicletadanacional.wordpress). Ao todo, 880 ciclistas espalhados entre 14 estados brasileiros já se mobilizaram. A logística do percurso é discutida nos grupos por região, na rede social Facebook.

Para Wilson Santana, a bicicleta significa inclusão no mercado de trabalho. “Há cinco anos, estava desempregado quando surgiu a possibilidade de ser entregador. Faço entrega de bebidas e gelo em curtas distâncias", conta. O colega Raimundo Freitas faz entregas para um restaurante no Leblon há 10 anos. “Uso a bicicleta porque é mais rápido e ágil. As pessoas pedem comida e querem que ela chegue às suas casas ainda quente”, observa.

A aluna de Letras da PUC-Rio Carolina Pereira iniciou-se há menos tempo nas pedaladas. Começou a utilizar a bicicleta há seis meses, por incentivo de uma amiga. “Pedalar pelo trânsito ainda me assusta um pouco”, reconhece.

Para os iniciantes, recomenda-se, além da consulta ao profissional de saúde, um período de adaptação: começar com pequenos percursos, que lhe permitam se habituar melhor ao trânsito e às exigências físicas. Outra recomendação é o contato com grupos como Bike Anjos. Formado por ciclistas experientes, o grupo oferece orientação gratuita aos que desejam entrar no mundo das pedaladas.

Zé Lobo lembra que as bicicletas são ideais para trajetos curtos, entre cinco e sete quilômetros. “Temos o hábito de ir à padaria perto de nossa casa de carro. Paramos em fila dupla e complicamos o trânsito. A bicicleta seria ideal para essas viagens de bairro”, argumenta.

Rio ganhará novos bicicletários

Para estimular as pedaladas, a prefeitura desenvolveu o programa Rio Capital da Bicicleta. “O programa é baseado na ampliação do número de rotas cicláves, no investimento em educação no trânsito, na facilitação no acesso às bicicletas e na construção de novos bicicletários. O incentivo ao transporte alternativo e a restrição a automóveis são tendências mundiais e o Rio está se adaptando a esse novo quadro”, ressalta Altamirando Moraes, subsecretário de Meio Ambiente da cidade do Rio de Janeiro. Ele também considera fundamentais parcerias com empresas:

 

 Jefferson Barcellos

 

 – Esperamos incentivar, com licitações mais rápidas e diminuição do IPTU, a construção de novos prédios comerciais que, pensando na bicicleta como meio de transporte, planejem bicicletários e vestiários para seus funcionários.

 

O professor de Publicidade da PUC-Rio, Leonardo Cavalcanti, utiliza a bicicleta para ir de casa no Jardim Botânico até a universidade. “Quando está muito quente, trago uma muda de roupa para trocar. O vestiário da PUC-Rio é ótimo, só precisa melhorar a manutenção dos chuveiros”.

 

O foco principal do programa Rio Capital da Bicicleta é a Zona Oeste. No ano passado, foram construídos mil bicicletários na região e de 50 quilômetros de "rotas cicláveis" (ciclovias, pistas exclusivas separadas completamente dos carros; ciclofaixas, pistas parcialmente separadas, como a recém-reformada ao lado do Cemitário São João Batista, em Botafogo; e vias compartilhadas, ruas com velocidade máxima de 30 km/h). Ao todo, ampliou-se em 100 quilômetros a malha carioca, que é a segunda maior da América Latina, com 250 quilômetros de extensão.

Para melhor pedalar

Antes de adotar a bicicleta como meio de transporte, é preciso tomar alguns cuidados:

• Checar freios e pneus antes de começar a pedalar.
• Checar equipamentos obrigatórios, como farolete e buzina.
• Conhecer as leis de trânsito.
• Andar no sentido dos carros e respeitar os sinais de trânsito.
• Ter atenção redobrada nos cruzamentos.
• Utilizar equipamentos de proteção como capacete e cotoveleira.
• Utilizar roupas justas na canela para evitar que prenda na corrente.
• Passar filtro solar se for pedalar durante o dia.
• Usar blusa com faixa que reflita, ao andar à noite.
• Fazer manutenção da bicicleta periodicamente.