Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 23 de junho de 2018


País

Ideologias derretem na sopa de siglas partidárias

Gabriela Caesar - Do Portal

29/11/2011

 Arte: Jefferson Barcellos

A sigla PTB, fundada no fim do Estado Novo, em 1945, e pela qual Getúlio Vargas voltou à Presidência, em 1951, mudou de perfil em sua versão 2.0, na década de 1980. A extinção da legenda trabalhista de Vargas e Jango ocorreu em 1965 e tornou-se explícito com o AI-2, em 1967, determinando o fim do pluripartidarismo, durante o regime militar. O cenário político da época opôs o partido governista – Arena – e o de oposição – MDB –, num “bipartidarismo artificial”, como qualifica o jornalista Claudio Bojunga, professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. “Se a ditadura não fosse implantada, as pessoas teriam criado laços mais fortes (com os partidos)”, acredita o professor Luís Reznik, do Departamento de História. O PTB voltou às urnas na redemocratização, hoje presidido por Roberto Jefferson, um dos envolvidos no escândalo do mensalão. “(Leonel) Brizola chorou em público”, recorda Bojunga, sobre a reação do político que “pretendia retomar a tradição do getulismo” e disputou a sigla com a ex-deputada Ivete Vargas, sobrinha de Vargas.

Assim como o PTB, o PSD de Juscelino Kubitschek também deixou de existir com o AI-2. A sigla, no entanto, volta agora como o partido “nem de esquerda; nem de direita; nem de centro”, criado por Gilberto Kassab, para abrigar parlamentares insatisfeitos com as legendas.

Autor de "JK – O artista do impossível" , Bojunga lembra que, na década de 1950, integrantes do PSD da Europa vieram ao Brasil conhecer o PSD verde-amarelo, então representado por JK. Ele observa que, apesar de ambos adotarem “social democracia” na legenda, aqui a maioria dos filiados do PSD era formada por banqueiros, fazendeiros e plantadores de café. A sigla foi ressuscitada, acredita o professor, por ser “um nome simpático para a modernidade”. Referências à parte, a sopa de 28 legendas do país (já incluso o PSD de Kassab) derrete ideologias na quentura do pragmatismo, ou oportunismo, político:

– Eles (os políticos) enxergam os partidos como associação de interesses para explorar oportunidades, sem saber a plataforma do partido. Eles não mudam mais de partido, mas de sigla, como se fossem jogadores de futebol, que trocam de time – compara Bojunga.

O pendor pela melhor adequação do filiado ao partido, como princípio de coerência e transparência democráticas, lembra a necessidade de uma das reformas essenciais que há anos patinam no Congresso: a política. O professor Ricardo Ismael, do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, considera difícil a aprovação de mudanças radicais no Congresso. Para o analista, já seria um avanço, por exemplo, a extinção dos suplentes e das coligações. Ismael pondera, no entanto, que o saneamento político depende menos das leis do que da "consciência dos eleitores".

Igualmente ponderado, Reznik alerta para que a "reforma" não se tranforme num tiro no pé do amadurecimento democrático. A prioridade, na opinião dele, é "otimizar as práticas eleitoriais e o seu entendimento":

– Devemos tomar cuidado para que mudanças nas práticas eleitorais não interrompam o aprendizado que a população já teve.

Reznik refere-se, em especial, aos esforços de redemocratização empreendidos com o fim do regime militar iniciado nos anos 1960. Ele ressalva, porém, que "a democracia já está consolidada".

Ismael aponta como exemplos mais recentes desse amadurecimento duas iniciativas decorrentes do apelo popular: a Lei Ficha Limpa – cuja validação para as eleições do próximo ano está próxima de ser apreciada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – e a Lei de Compra de Voto, aprovada em 1999, contra o crime eleitoral.

– Se não tivesse havido pressão da sociedade, não seriam aprovadas. (Os parlamentares) querem fazer reformas que os manteriam lá – observa o professor.

Apesar do aprendizado democrático e das medidas para melhorar a higiene do processo eleitoral, Reznik reconhece que a população brasileira vota "conforme a agenda política". Para ele, em 1994, a eleição de Fernando Henrique para presidente deve-se à agenda marcada pelo controle de moeda e da inflação. Já as vitórias de Lula, ainda na avaliação de Reznik, sustentaram-se numa agenda supostamente voltada para anular a desigualdade social.