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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Campus

"A educação no Brasil precisa de uma revisão urgente"

Sofia Miranda - Do Portal

15/11/2011

 Ligia Lopes

“A desigualdade racial no Brasil é gritante”, ressalta a assistente social Andréia Clapp Salvador, professora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio. Nesta quarta-feira, dia 16, no terraço do Edifício Cardeal Leme, Andréia lançará o livro Ação afirmativa na PUC-Rio: a inserção de alunos pobres e negros, pela Editora PUC-Rio, em que registra a história da implementação da política de ação afirmativa na PUC-Rio, criada em 1994, com o objetivo de favorecer o acesso de camadas populares da sociedade aos cursos de graduação. Com entrevistas de alunos, professores e organizadores do projeto, 15 anos antes do ProUni, Andréia problematiza as desigualdades social e racial e a educação no país, tema de sua tese de doutorado.

Em entrevista ao Portal, a pesquisadora afirma que a educação no Brasil é sucateada. “Temos um Estado mínimo que está pouco preocupado com a educação”, opina. Andréia destaca a importância de uma revisão na educação pública do país, conta como foi o contato com alunos que entraram na universidade por meio do programa e comemora o sucesso do projeto, ressalvando a necessidade de melhorias.

Portal PUC-Rio Digital: Como surgiu a ideia de escrever o livro?
Andréia Clapp: Foi uma luta muito grande. Conheci um pouco dessa política de inserção de alunos oriundos de classes populares dentro da universidade quando passei a trabalhar na PUC. Começamos a receber esses alunos e isso me chamou a atenção, era uma coisa nova. Esse livro é a pesquisa da minha tese de doutorado. Acho que ninguém tinha parado para estudar a origem desse programa. Ele nasceu de onde? Quem fez? Hoje, na universidade, você tem uma política muito mais ampliada, que é o ProUni, e outras formas de bolsa. Mas, na época, aquilo era uma coisa pontual de algumas pessoas. Então, o que fiz foi tentar identificar e construir essa história como se fosse um quebra-cabeça.

Portal: Como começou o seu contato com alunos que entraram na universidade pelo programa de inclusão social?
Andréia: Como eu trabalho no Departamento de Serviço Social, sempre estive em contato com esses alunos. Não é um aluno bolsista comum, é bastante diferente. Eu os chamo de estudantes bolsistas militantes. Quando esse aluno entra para a PUC através do programa, ele é oriundo de um movimento social e político. Ele vem de uma perspectiva de luta, é um aluno que vem com uma luta política, com uma militância e uma transformação. Isso tudo é um aprendizado muito grande para mim e para toda a universidade. Nós vamos aprendendo com esses alunos e vice-versa. O livro nasceu disso, desta minha curiosidade de saber mais sobre essa história.

Portal: O primeiro capítulo do livro trata das desigualdades social e racial. A senhora acha que a desigualdade racial é um fator determinante para os problemas da educação no Brasil?
Andréia: A desigualdade racial no Brasil é gritante. Mas é uma desigualdade pouco falada, é como se ela fosse invisível no Brasil. A questão é de uma complexidade muito grande. Encontramos desigualdade racial em todos os aspectos, na desigualdade social, na desigualdade de gênero. A questão da raça perpassa todas as desigualdades. Dos entrevistados que aparecem no livro, 99% são negros e pobres. É o retrato da desigualdade social brasileira.

Portal: A desigualdade racial é marcada por fatores históricos, mas o preconceito das pessoas acentua esse problema. Ainda há muito preconceito no Brasil?
Andréia: O Brasil é um país ainda bastante racista. O próprio depoimento dos alunos mostra essa realidade de um Brasil ainda muito desigual, com muita desigualdade racial, de gênero e de renda. Quando eu fiz a entrevista com os alunos, perguntei se eles tiveram alguma vivência de racismo ou discriminação. Os depoimentos são dramáticos, inacreditáveis, coisas que você não pode imaginar que ainda estejam acontecendo na atualidade. Num dos depoimentos, um aluno conta que no primeiro dia de aula perguntou onde era a sala, e um rapaz respondeu: “Você vai ali, porque você é funcionário”, não acreditando que fosse um estudante.

 Ligia Lopes Portal: No âmbito da educação, o problema vem abaixo do ensino superior, vem da base do ensino fundamental. Como a senhora encara o problema da educação pública no Brasil?
Andréia: Há um problema grave na educação. Um problema que me parece estrutural. É uma educação sucateada que precisa de uma revisão. Nós temos um Estado com bastante influência de um projeto neoliberal, um Estado mínimo que está pouco preocupado com a questão da educação pública. Outro problema é que vemos poucos alunos de periferia e moradores de favela dentro das universidades. A exclusão de determinados grupos sociais das escolas e dos campos universitários é muito grande, e histórico. Eu acho que isso acontece desde que Brasil é Brasil.

Portal: O Ensino Fundamental e Médio influenciam diretamente o Ensino Superior, pois o aluno que entra na universidade por meio desses projetos de políticas de afirmação vem, na maioria das vezes, de uma escola pública fraca. Como professores e alunos podem ser estimulados para que o ensino melhore?
Andréia: A educação no Ensino Fundamental e no Ensino Médio pede uma revisão urgente, tanto nas escolas públicas como nas particulares. Quando falamos das boas escolas privadas, nós pensamos em algumas, que são muito poucas, mas a grande maioria também precisa de uma revisão. Os professores são muito mal pagos e estão acumulando uma carga horária enorme. Nós vemos o jovem entrando na universidade com algumas dificuldades de escrita e de compreensão de texto. Há um nível de exigência cada vez maior, as escolas cada vez cobram mais, então é uma questão muito ampla que deve ser encarada.

Portal: A senhora acredita que possa haver melhorias na educação?
Andréia: Eu sou muito otimista. Acredito que o exemplo das políticas de ação afirmativa no campo da educação superior mostra uma melhora. Nós já conseguimos bons avanços. Hoje, tanto nas universidades públicas quando nas universidades privadas, vemos um número maior desses grupos oriundos de classes populares. É um campo que vem avançando. Temos que avaliar a maneira como estamos pensando em inclusão, para melhorar isso. Na questão da educação pública, em geral, temos que avançar muito. Nós temos que encarar essa realidade.

Portal: Como foi a experiência de ouvir esses alunos e professores e ter todos os relatos para montar o livro?
Andréia: Na hora da entrevista com os professores, foram relatos muito interessantes, de muito otimismo, de uma luta por uma sociedade mais justa. No relato dos estudantes, você começa a perceber uma realidade profundamente dura. As entrevistas me deixaram com o coração muito apertado. Às vezes, nós não temos a dimensão do que é a trajetória desse universitário oriundo de ação afirmativa. São pessoas que andam quatro horas de ônibus e de trem, estudam, trabalham e sustentam uma família inteira, ou seja, têm muitas dificuldades. Foi muito enriquecedor, mas, em alguns momentos, fiquei emocionada.

Portal: A senhora vê essa ação afirmativa na PUC-Rio como um sucesso?
Andréia: Nós temos hoje uma PUC mais diversa e democrática do que antes do projeto. Isso não significa dizer que está tudo perfeito. Nós temos que sentar e repensar. Temos que ouvir mais esses jovens, os professores, o corpo docente, os funcionários. Acho que podemos acolher esses alunos de forma mais integral. Eu digo que estamos em um momento de avaliação. Mas nós já caminhamos bastante positivamente.