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Rio de Janeiro, 25 de junho de 2022


Esporte

Entre pranchas e pranchetas, uma estudante rumo a Pequim

Gustavo Coelho - Do Portal

18/04/2008

Tudo começou “meio do nada”. Patrícia Freitas tinha 13 anos quando velejou pela primeira vez, aceitando o despretensioso convite de uma prima. Quase sem perceber, envolveu-se com o windsurf. O wind virou assunto sério. O ponto alto viria só em fevereiro deste ano, quando Patrícia conseguiu uma façanha limitada aos melhores atletas do planeta: a classificação para os Jogos de Pequim. Aos 18 anos, Patrícia também navega  bem entre livros e cadernos. Em agosto, ela trocará a Escola Americana, seu colégio desde a sétima série, pelo curso de Arquitetura da PUC-Rio.

Embora esteja preocupada com os estudos, a garota não vai diminuir o ritmo dos treinos até a Olimpíada. Em junho, partirá com o restante da delegação brasileira de iatismo para a China. Terão um mês para se ambientar. Patrícia considera a viagem fundamental para superar as "desvantagens da juventude":

– Na Olimpíada, vou encarar uma galera mais velha e mais experiente. A maioria das adversárias tem 25, 26 anos. Mas estou treinando de domingo a domingo. Quero ter o melhor desempenho possível, mas será minha primeira vez. Vamos ver no que vai dar...

A performance de Patrícia no Pré-Olímpico de fevereiro – quando garantiu seu passaporte para Pequim com uma regata de antecedência – é seu grande cartão de visitas. Um mérito curiosamente conhecido com atraso:  como não gosta de ser avisada sobre o resultado parcial da competição, Patrícia não sabia que precisava apenas de um terceiro lugar para vencer a seletiva. “Só depois que voltei, percebi que havia algo diferente. Todo mundo estava pulando. Foi a maior festa”, conta Patrícia, que comemorou jogando-se na água junto com amigos e familiares.

O windsurf tornou-se o esporte preferido de Patrícia, depois de ter tentado a sorte em vários outros. Praticou futebol, vôlei, hipismo e tênis, sempre incentivada pelo pai, Pedro Freitas. No tênis, Patrícia chegou a disputar campeonatos, mas o seu talento com a raquete não era o mesmo que ela tem com a vela. “Eu só jogava a bolinha para fora da quadra”, lembra a bem-humorada Patrícia. Com o windsurf, a estudante vive uma lua-de-mel:

– Eu me encontrei com a vela. Dos esportes que pratiquei, é o mais interessante, principalmente porque tem muitas variantes. É a maré que muda, é a luz que influencia, é o peixe que pula. Não encontrei esse prazer em nenhuma outra modalidade. Quando eu velejo, vejo o Cristo Redentor bem à frente, o Pão de Açúcar ali do lado, e isso não dá para trocar por nada. Não é um sacrifício. É por isso que eu treino todo dia.

A rotina de treinos é puxada, sobra pouco espaço para descanso. Todos os dias, Patrícia veleja durante duas horas. Quando o vento não permite, faz academia, nada ou corre. “Ficar parada é que não pode”, diz a disciplinada velejadora. Tanto esforço deixa pouco tempo para a sua casa. Ela sai de manhã e só volta às oito da noite. Nos raros momentos de pausa, Patrícia relaxa assistindo a filmes. Também ouve música, de diversos gêneros – desde forró até hip hop. “Só não sou muito chegada a funk e pagode”, revela.

A carreira como windsurfista trouxe muitas alegrias, mas dificulta a vida social. Como o estudo e os treinamentos são suas prioridades, ela é obrigada a deixar um pouco de lado as amigas. “Elas já devem ter desistido de me chamar para sair ou para viajar, porque eu nunca vou”, brinca Patrícia. Sorte dela que o namorado Gustavo Médici também é velejador, e compreende as privações:

– É complicado, é meio chato, mas eu entendo. Já precisei viajar por causa do windsurf também. Sei que isso é muito importante para ela, e dou a maior força. A Patrícia pode surpreender em Pequim, porque a competição deve ser disputada com vento fraco, que é a especialidade dela. Vai ser uma grande experiência – torce o compreensivo Gustavo, que parou de competir depois de entrou para o curso de Comunicação da PUC-Rio (está no quarto período). 

Patrícia também costuma velejar com outra pessoa muito especial: a irmã mais velha, Catarina. Estudante do segundo período de Design da PUC-Rio, Catarina terminou em terceiro lugar no Pré-Olímpico de fevereiro, vencido por Patrícia. Apesar de competirem na mesma categoria – a RS:X – Catarina garante que não há rivalidade entre as duas. Pelo contrário:

– O windsurf nos deixou ainda mais próximas. Velejamos juntas e passamos mais tempo uma com a outra – conta Catarina. Ela traça um prognóstico equilibrado sobre a participação da irmã na Olimpíada:

– Patrícia vai para pegar experiência. Não há motivo para colocar pressão sobre ela, para que chegue entre os três primeiros. A vitória no Pré-Olímpico já foi um grande resultado.

O técnico de Patrícia está confiante num bom resultado em Pequim. Há um ano e meio preparando uma das principais revelações da vela brasileira, Lucas Souza acredita que ela pode superar as favoritas:

– Patrícia está com a Olimpíada na cabeça. Ainda falta mais experiência, mas a rotina de treinos é puxada. Pode ser uma surpresa em Pequim.

Patrícia recebe uma ajuda financeira da Confederação Brasileira de Vela e Motor, que patrocina as despesas com viagens e equipamento. Apesar disso, ainda enfrenta dificuldades para continuar no iatismo profissional. O ideal, diz ela, seria conciliar as competições com a carreira de arquiteta. Um casamento quase impossível:

– Na hora da encruzilhada, vou escolher arquitetura mesmo. É muito difícil sobreviver como atleta, ainda mais num esporte caro como o iatismo. Ou você se dedica 100% e vai sobrevivendo ou você desiste, o que acaba acontecendo com a maioria. Se eu tiver que optar, vou de arquitetura para garantir o meu futuro. Sempre gostei de desenhar.

Mesmo que precise abandonar o esporte, Patrícia já terá deixado a sua marca com a participação na Olimpíada de Pequim. Ela vai competir na categoria RS:X, cujas favoritas são a espanhola Marina Alabau, a italiana Alessandra Sensini e a francesa Charline Picon. As competições de iatismo estão marcadas para o período de 9 a 21 de agosto, no complexo marítimo de Qingdao.