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Rio de Janeiro, 20 de junho de 2024


Cultura

"A educação no Brasil precisa ser mais cuidada"

Thaís Bisinoto - Do Portal

30/09/2011

 Reprodução/TV

Inspiração para muitos, a professora Cleonice Berardinelli é a maior estudiosa de literatura portuguesa do Brasil e a mais recente integrante da Academia Brasileira de Letras, eleita em 2009. Aos 95 anos, esbanja generosidade em dividir tais méritos. Na sala de aula, nas palestras recorrentes, nas conversas com os colegas e com os jovens. Sua vivacidade e sapiência são igualmente admiradas pela legião de alunos cultivados décadas a fio. Dona de um indisfarçável amor pelas letras e pelo ensino, a grande dama pretende retornar à PUC-Rio no próximo semestre. A simpatia com que recebeu a equipe do Portal em sua casa – recheada com um acervo de mais de sete mil livros – contrasta, no entanto, com a tristeza ao apontar deficiências crônicas do sistema educacional. Nesta rápida porém deliciosa entrevista, Cleonice fala, por exemplo, sobre a educação brasileira, os problemas de divulgação da literatura em língua portuguesa e as implicações dos textos digitais para as próximas gerações.

Portal PUC-Rio Digital: Embora alguns indicadores sinalizem avanços, o nível da educação brasileira ainda se mostra inferior ao dos países desenvolvidos e emergentes. Na sua opinião, por que ainda se observa este atraso, inclusive em relação às ambições nacionais de crescimento?

Cleonice Berardinelli: Isso é uma das coisas que me causam uma profunda tristeza. Por exemplo, fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) há pouco tempo. O Brasil ficou atrás de países que estão emergindo agora, como a Coreia. Não estou comparando com outros, como França ou Inglaterra, tradicionais, de cultura antiga. Nós temos pesquisadores descobrindo coisas extraordinárias. Vimos que temos potencial em todas as áreas. Mas isto não tomou a amplitude necessária. A educação precisa ser mais cuidada, a começar pela remuneração dos professores do estado e do município, algo que muito me aflige.

Portal: O que a senhora acha da literatura na era digital?

Cleonice: Acho que, com a digitalização, se perde a presença do livro. Pegar o papel com um lápis na mão, e poder escrever do lado, é muito bom. Meus livros são todos escritos. O editor e sócio administrador da Lexikon Editora Digital, Carlos Augusto Lacerda, perguntou se eu tinha o interesse de publicar ou republicar alguma obra minha. Eu não sabia que era para um livro digital. Então, aceitei. Queria republicar a minha antologia do Gil Vicente. Porém, quando ele me disse que seria digitalizado, fiquei triste. Mas acho que é egoísmo, porque o digital, com ou sem dinheiro, as pessoas podem ler, apesar de eu não achar que seja a mesma coisa. Então, não sei se irei aceitar a proposta...

Portal: A senhora acredita que a digitalização possa atrapalhar a evolução da língua?

Cleonice: Bom, eu não gosto quando vejo mensagens eletrônicas, abreviadas da maneira mais idiota. Fico preocupada com que língua vamos ter daqui a pouco, que a próxima geração vai ter, meus bisnetos. Mas, acho que todas as inovações foram recebidas assim. E muitas valeram.

Portal: Como o ensino da literatura pode contribuir para melhorar a educação?

Cleonice: Ela (a literatura) ensina o aluno a ler melhor, prestar mais atenção ao texto que está lendo, a ver que o texto tem segredos, uma porção de revelações a fazer, se nós o lemos bem, profundamente. O ensino da literatura deve ser, sobretudo, focado para os textos, proveniente do texto. Informações iniciais sobre o autor, em que condições o texto foi gerado, também são importantes, para, depois, tirar do texto tudo que ele tem.

Portal: O que representam as mudanças na língua portuguesa?

Cleonice: A língua evolui, como tudo evolui. Senão, estaríamos falando latim ou, talvez, sânscrito.  A evolução pode ser um enriquecimento. Darei um exemplo. A palavra "curtir" surgiu com outro sentido. Ela sempre significou alguma coisa que se faz devagar, mas só se aplicava para o couro ou matérias que fossem semelhantes ao couro. Depois, começou a se dizer: “Você gosta disso?”. “Ah, eu curto”. Eu acho ótimo! Acredito ser um enriquecimento. Não é uma palavra deturpada, ela teve seu sentido alargado. É uma coisa que não vem de repente. Ela vem devagar, vai se apossando, aperfeiçoando, melhorando.

Portal: Neste ano, a Feira de Livro de Frankfurt, na Alemanha, terá só 61 títulos brasileiros. A que se deve, no seu ponto de vista, a incipiência da literatura em língua portuguesa?

Cleonice: Você está sendo injusta. As literaturas portuguesa e brasileira são adultas. Temos, lá e cá, escritores da maior categoria, da melhor forma de escrever. Porém, não são as literaturas que não são conhecidas e, sim, a nossa língua. Temos um número imenso de falantes, mas, em grande parte, são analfabetos. Eles não trazem nada para a língua. Ter falantes não significa ter leitores. 

Portal: Como foi entrar para a Academia Brasileira de Letras?

Cleonice: Nunca tinha pensado na Academia. Não há nisso desdouro nenhum. Simplesmente, não pensava. Assim como não pensava em entrar para a Academia de Medicina. Resisti, candidatei-me, descandidatei-me, pois estava muito sobrecarregada de trabalho. Não achei que era uma boa hora para entrar para a Academia e, por fim, decidi entrar, na vaga de Antonio Olinto. Agora, eu gosto de estar lá. Algo que me chamou a atenção foi o fato de haver muito poucas mulheres. De 40 membros, somos quatro, só.