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Rio de Janeiro, 15 de junho de 2024


Cultura

Dorothy Day e Etty Hillesum traduzem mística feminina

Eduardo de Holanda - Do Portal

23/09/2011

“A estética se revela como um elemento condutor, antessala da experiência mística”, comparou a teóloga e professora da PUC-Rio Maria Clara Bingemer, no encontro organizado pela Cátedra Carlo Maria Martini nesta terça-feira (20). O fio condutor da conversa foram a vida e a obra de duas mulheres influentes do século XX: a nova-iorquina Dorothy Day e a holandesa Etty Hillesum. Elas serviram de exemplo para Maria Clara levantar traços essenciais da mística feminina, objeto da pesquisa feita pela professora na Universidade DePaul, em Chicago (EUA).

– A mística feminina é quase sempre apaixonada, urgente. Enquanto homens escrevem obras vastíssimas sobre o assunto, as mulheres querem atuar, sentir na prática a experiência divina – constata Maria Clara.

Dorothy Day ilustra essa tese. Formada em jornalismo e simpatizante dos movimentos operários, ainda jovem começou a distribuir um jornal independente, The Catholic Worker (O Trabalhador Católico, em tradução livre). Com o sucesso da publicação, muitos se aproximaram dela, que resolveu, assim, fundar um abrigo para os necessitados. O movimento lentamente ganhou força, devido ao empenho de Dorothy, que vivia junto dos desabrigados, usava a mesma roupa que eles e comia da mesma comida. O ativista da contracultura Abbot Hoffman a descreveu como a primeira “hippie”, em referência ao seu estilo de vida simples. Hoje corre na Igreja Católica um processo para a canonização de Dorothy.

Com base no princípio de que o depoimento de quem "viveu a história" é fundamental ao estudo da teologia ("Reflexões teóricas são relevantes, mas não substituem o relato de quem viveu na pele o fato"), Maria Clara mergulhou também na vivência de Etty Hillesum para iluminar o contorno da mística feminina. Nos diários dessa judia holandesa nascida em 1914, observa-se a transformação que deixou para trás a vida boêmia:

– Etty era uma mulher de vida sexual ativa, teve muitos amantes. Mas um dia seu espírito muda e ela converte todo o seu Eros (energia sexual) em Ágape (amor ao próximo), e aplica isso imediatamente em sua vida – sintetiza a professora.

Etty decide ir voluntariamente para o campo de concentração de Auschwitz, com a finalidade de prestar cuidados aos que lá estavam. Na viagem até o inferno, ela escreve uma carta e a joga pela janela do trem, sem esperanças de que chegasse até a destinatária, uma amiga. Por acaso, uma camponesa encontra a missiva e decide entregá-la à tal amiga. A carta acaba na mão de um editor, que se interessa pela história e encontra, na casa de Etty, os seus diários. Esses escritos já estão publicados em mais de 30 idiomas.

Etty morreu jovem, aos 29 anos, no campo de concentração. Graças aos esforços conjuntos dela, da camponesa, da amiga, do editor, conhecemos mais detalhes da ocupação nazista em Amsterdã.