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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Campus

O que o comportamento humano tem de elementar para Watson

Mariana Alvim - Do Portal

19/09/2011

 Arte de Monalisa Marques sobre foto de divulgação

O que há em comum entre os padrões adotados por pedestres ao caminhar por calçadas, o comportamento de acusados de assassinato ou ligações para o serviço de auxílio a suicidas em potencial? São três situações em que o sociólogo inglês Rod Watson foi contratado para entender fenômenos ou resolver problemas à luz da etnometodologia, corrente da sociologia que ganha destaque em uma série de encontros até sexta-feira na PUC-Rio.

O curso de Etnometodologia e Análise da Conversa começou no dia 13 de setembro. Nesta terça, 20, o pesquisador fará uma palestra voltada para os alunos da graduação em Comunicação Social, às 11h, na sala 102-K. Os encontros tem como objetivo divulgar as ideias desta corrente sociológica ainda pouco conhecida no Brasil. A etnometodologia é conhecida por se diferenciar da sociologia tradicional principalmente pela falta de um método determinado e pela valorização da pesquisa de campo e do conhecimento sobre grupos menores de pessoas.

Watson exemplifica o uso prático da etnometodologia com um trabalho que realizou para a Guarda Florestal dos Estados Unidos. A instituição estava preocupada com o índice de acidentes envolvendo seus empregados em estradas. O dado intrigante é que a maioria dos incidentes ocorria em lugares próximos às áreas castigadas pelo fogo, e não no lugar incendiado. Para compreender o problema, Watson usou câmeras do lado de fora dos carros e nos pedais. Ele pedia que os motoristas descrevessem sua interpretação da estrada, conforme dirigiam. Entre as razões para tantos acidentes estava a falta de preparo dos motoristas.

Para Watson, não há limites para a aplicação prática da Etnometodologia. E cita a metáfora da roda gigante: quando se está no alto do brinquedo, tem-se uma visão de cima para baixo e geral das pessoas que estão no chão; nesta ciência, o foco é observar as pessoas a partir do mesmo nível, do mesmo ponto de vista.

– A etnometodologia pode ser usada em qualquer área de estudo. A comunicação está em todos os lugares, assim como a interação. Em tudo há o que observar, pois as pessoas estão sempre se relacionando – conta o pesquisador.

As formas de conhecer a realidade na etnometodologia se baseiam, de forma geral, na interação. Isso envolve tanto a importância da conversa na pesquisa quanto a comunicação entre os membros de um grupo. A linguagem é um tema muito relevante na Etnometodologia, sobretudo na corrente inglesa, que vê nela um baú de tesouros para o conhecimento das dinâmicas sociais. Neste sentido, o indivíduo é mais uma vez valorizado, pois é visto como ator influente na produção de novos preceitos sociais na medida em que se relaciona com os outros.

O campo de estudo tem seu marco de nascimento em 1967, quando o sociólogo Harold Garfinkel escreveu o livro Estudos sobre etnometodologia. Segundo Watson, Garfinkel era um estudioso brilhante que, insatisfeito com a sociologia praticada na década de 60, propôs reformulações e criou a perspectiva, corrente que busca perceber mais as ações dos indivíduos em detrimento das ações coletivas, como costumam fazer os sociólogos tradicionais. 

A perspectiva é bastante aplicada em situações práticas. Empresas como Microsoft e Intel já usaram os conhecimentos da corrente de pensamento para entender o comportamento de pessoas envolvidas em suas áreas de atuação. Já a presença de etnometodólogos é mais significativa na área da tecnologia e nas relações de trabalho. Watson diz que a demanda por profissionais dessa área em empresas de telefonia e computação, por exemplo, se explica porque o uso da tecnologia é sempre diferente do que os engenheiros planejam.

 Lucas Terra Watson conta que o início da história da corrente foi marcada por preconceito por parte dos sociólogos tradicionais. A etnometodologia era vista como uma tentativa inútil de buscar uma nova perspectiva nos estudos humanos. Para o pesquisador, até hoje isso ocorre. De acordo com o estudioso, ele aconselha aos seus alunos que digam que são sociólogos, e não etnometodólogos, nas entrevistas para empregos.

Para a socióloga Ângela Paiva, professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, o fato de a etnometodologia ser rejeitada por alguns colegas se deve ao fato de buscar entender as relações sociais em um âmbito muito menor e mais específico do que a maioria deles. Já para o professor de Antropologia Valter Sinder, a etnometodologia não é renegada, mas pouco explorada, sobretudo no Brasil.

Professores de universidades cariocas, mineiras e paulistas acompanham o curso de Watson na PUC-Rio. O curso é promovido pelos programas de Pós-Graduação de Comunicação Social e Letras da PUC-Rio e pelo Departamento de Letras da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

A professora Adriana Braga, coordenadora-adjunta da Graduação do Departamento de Comunicação, conheceu Watson durante seu doutorado, cursado parcialmente na Inglaterra. Watson foi seu supervisor de pesquisa, e os dois se tornaram amigos. Adriana teve a ideia de trazer Watson para ministrar o curso, e mediou o contato do pesquisador com o Departamento de Letras, que há mais de 20 anos realiza trabalhos de sociolinguística interacional, área que se aproxima da análise da conversa, um método da etnometodologia.

O Portal PUC-Rio Digital promove a transmissão do evento, ao vivo. Confira aqui as palestras anteriores.