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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Mundo caminha para nova configuração, dizem analistas

Thaís Bisinoto - Do Portal

20/09/2011

 Arte: Jefferson Barcellos

Enquanto os ditadores de países islâmicos têm seus governos abalados e, em alguns casos – como na Tunísia e no Egito –, derrubados por rebeldes organizados com a ajuda de redes sociais, outras populações vivenciam a ascensão de um conservadorismo radical, interpretado por certos especialistas como fascismo. Vozes extremistas crescem, por exemplo, na Rússia, cuja onda fascista rendeu capa em edição recente da revista americana Newsweek; na França, com o partido de extrema direita de Marine Le Pen disputando as eleições; e, mais "discretamente", nos Estados Unidos, onde o fortalecimento do movimento conservador Tea Party inflama o caldeirão político a menos de um ano das eleições. Por um lado o espírito revolucionário da "primavera árabe" deflagrada em dezembro do ano passado contagiou a luta por direitos constitucionais em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, onde protestos contra a corrupção crônica – a maioria organizada pela internet – ressuscitam o pendor democrático das ruas. (Hoje será a vez de os cariocas manifestarem-se contra os desmandos e a impunidade, às 17h, na Cinelândia.) Por outro lado, turbulências econômicas, étnicas e políticas alimentam a aproximação com o autoritarismo em países de tradição democrática.

Em busca de explicações e projeções para esse cenário marcado por agudos conflitos de forças e ideologias, o Portal PUC-Rio conversou com os professores da PUC-Rio Maurício Parada, do Departamento de História, e Márcio Scalércio, do Instituto de Relações Internacionais (IRI), e com o analista político e professor da universidade de Uppsala, na Suécia, Stefano Guzzini.

Especialista em história cultural, Parada avalia que, diferentemente do que se possa perceber, não há uma polarização de ideologias. Ele acredita que os protestos no mundo árabe, na Europa e, em menor escala, nos Estados Unidos – com o fortalecimento da direita conservadora – não têm o mesmo modelo ideológico, nem a mesma consistência interna, argumentativa ou discursiva, nem sequer a mesma estruturação. De acordo com o professor, o globo está tomando uma nova configuração, “mas devemos esperar um pouco para descobrir qual é”:

– Há vários processos diferentes, em lugares diferentes, que estão eclodindo ao mesmo tempo e criando cenários internacionais muito interessantes para serem estudados. Entretanto, classificar democracia e fascismo como os polos, ainda não se pode fazer. Seria imprudente, pois não sabemos se serão democracias, nem se serão fascismos.

Para o especialista, os protestos no mundo árabe estão se disseminando devido ao esgotamento dos projetos políticos dos governos autoritários, que vigoram desde os anos 1950. Parada lembre que  metade da população dos países islâmicos nasceu dentro desses regimes – cerca de 50% tem menos de 25 anos – e, portanto, não participou do projeto ideológico original. Tais projetos, observa ele, se desvirtuaram e produziram "certa leniência política no caso de corrupção e de regimes de censura".

Ainda segundo Parada, o cenário europeu revela-se bem distinto. Na avaliação dele, um dos epicentros dos confrontos é o conflito entre a população mais velha e, por conta da crise econômica, menos propensa a ceder espaços e os grupos, internos e migratórios, em busca de perspectiva profissional:

– Para o funcionamento da sociedade, é necessário ter outras populações entrando. Isso gera pressão, porque aquilo que era o nacional passa a ser outra coisa. A tensão entre grupos externos e internos, originários ou não, é grande.

Já no caso dos Estados Unidos, o professor acredita que a ausência de um adversário claro é uma razão para a política interna ter se tornado “muito mais conflitiva”. Ele aponta também a tragédia do 11 de Setembro como outro motivo para a modificação política no país, pois favoreceu o avanço de discursos de natureza "radical e intolerante".

A ascendência do fascismo na Rússia gera controvérsia entre especialistas. Para o analista político Stefano Guzzini, “eram esperados” movimentos de extrema direita no país. Já para Maurício Parada, a nova onda radical era “difícil de imaginar”. Para o professor da Universidade de Uppsala, o retorno de movimentos fascistas na Europa tem algo a ver com a dificuldade de vários países, “velhos ou novos”, redefinirem a si mesmos depois da Guerra Fria. A Rússia é um deles, na visão dele. Guzzini observa que este é um país novo – "não é o mesmo que a União Soviética" – e está tendo que reencontrar a sua identidade nacional:

– A Rússia era uma superpotência, uma das duas do mundo. Simplesmente, ela era considerada ótima e, de um dia para o outro, não era mais. Então, era de se esperar uma reação para redefinir sua identidade. Nesse contexto, é natural que algumas pessoas não só tentem definir a nação, mas se tornem fortes nacionalistas e, portanto, fascistas.

Parada, diferentemente de Guzzini, não esperava o fascismo na Rússia. Ele nem mesmo acredita que esse movimento esteja ganhando espaço na ex-União Soviética:

 – Não sei se o caso da Rússia é aquilo que se chama fascismo. Pode ser mais um conservadorismo, com posições que não estão dentro do registro daquilo que o Ocidente ou o mundo europeu consideraria democrático, mas com outro formato que não o fascismo dos anos 1920, 1930. Talvez isso não aconteça.

De acordo com o professor, a mesma lógica aplica-se ao panorama americano: “Dizer que o Tea Party é um movimento fascista é um problema.” Segundo ele, mesmo que o país tivesse um “mínimo partido fascista, não significa dizer que existiu um fascismo nos Estados Unidos”.

Em relação à Líbia, cujos protestos levaram à queda da ditadura de Muamar Kadafi, no poder havia 42 anos, os analistas apresentam opiniões semelhantes. Concordam que é prematuro prever o caminho democrático no país. Pelo menos o da democracia nos parâmetros ocidentais. Especialista em guerras e em Oriente Médio, Márcio Scalércio avalia que o governo de transição terá de encontrar maneiras de estabelecer arranjos entre as forças de Kadafi e as tradicionais, laços de solidariedade tribais, típicos do norte da África. Deverá ser feito, segundo ele, um arranjo entre os rebeldes de Benghazi (cidade mais importante da região da Serenaika, onde fica a maior parte dos recursos de petróleo e gás natural da Líbia) e os habitantes da Tripolitânea (região mais privilegiada dentro do país durante o regime de Kadafi). Essas questões, de acordo com o professor, “não têm respostas triviais”.

Scalércio acrescenta que "tudo vai depender de como a vitória dos rebeldes será administrada". Ele lembra que já existem registros de violações de direitos humanos dos dois lados. Sobre isso, Parada faz referência ao problema da população negra no país, que gera conflitos internos, e do desarmamento – a população líbia foi armada e se organizou a partir de um conjunto disperso de milícias, ressalta o professor de história.

Os analistas reforçam que é cedo para afirmar se os protestos em países islâmicos irão culminar em democracia. Guzzini pondera que é difícil mudar de regime “de uma hora para outra”, e chama a atenção para a palavra “democratização”. Segundo o analista, ela assume uma "carga do que é a democracia para o mundo ocidental", mas acredita que adquira contornos diferentes, naqueles cenários. “E será ruim se não for (igual à nossa democracia)?”, lança ele a reflexão. Parada concorda: “É muito difícil imaginar que o que aconteceu e ainda está acontecendo [no mundo árabe] caminhe para a democracia”.