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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Campus

A rotina de superar o risco em busca da notícia

- Do Portal

20/05/2008

“Onde não é área de risco, hoje, no Rio de Janeiro?” A pergunta, que parece de todos nós cariocas, foi feita pela repórter Cristiane de Cássia, do jornal O Globo, no seminário “Jornalismo em Área de Conflito”, em 2007. Mesmo em tom espirituoso, como se caçoasse da violência, a pergunta ecoou pelas mentes de palestrantes, professores e alunos que lotavam o Auditório do RDC. Em vez de respostas, encontraram histórias. Relatos emocionantes e até bem-humorados de quem faz do risco uma rotina.

Além de Cristiane, o encontro promovido pela Lá & Cá Comunique-se teve a participação do jornalista palestino Khaled Abu Toameh, produtor da NBC (EUA) e correspondente do jornal The Jerusalem Post, de Israel. Khaled é considerado "peça rara" na profissão, por ter trânsito livre tanto nos territórios palestinos quanto nos israelenses.

O bom-humor de Cristiane compensava a gravidade do assunto. Acostumada a subir morro e acompanhar as operações policiais nas favelas, a jornalista testemunhou uma mudança no perfil do tráfico:

- Eles [os traficantes] faziam o papel do Estado, dominavam as comunidades por meio do assistencialismo. Com o aumento do consumo de cocaína e com armamentos mais pesados, a garotada que está tomando conta do tráfico age pelo medo mesmo.

Já convivência difícil entre moradores e traficantes se perpetua, observou Cristiane. Uma dificuldade retratada, por exemplo, nas barreiras improvisadas contra a polícia - que bloqueiam a entrada da ambulância, do caminhão de gás, do caminhão de eletrodoméstico. Bloqueiam também a tarefa de buscar a notícia além das estatísticas. 

Cobrir operações em favelas exige preparação. A Sociedade Interamericana de Imprensa promove cursos para jornalistas que trabalham em áreas de guerra ou missões de paz. O Brasil ganhou uma turmas específicas. A repórter do Globo, que participou de uma delas, explicou como é feito o treinamento:

- São feitas simulações de seqüestro, ataques. Os jornalistas também aprendem a pular de pára-quedas, usar máscara de gás e até a andar no meio de minas terrestres. Aqui no Rio já tem mina terrestre, sabe gente?

Minas, sequëstros, ataques. O que leva essa turma a abraçar num caminho profissional assim arriscado?

- Somos tachados de malucos, sem amor à vida. Algumas vezes, somos recebidos nas favelas por gritos como ‘vocês querem ser Tim Lopes também?’. Até por rádios comunitárias já fomos ameaçados. Mas nada disso tira a paixão pelo trabalho. No mundo todo há guerras, gente sofrendo, e nenhum jornalista deixa de cobrir esses conflitos. Senão, quem vai saber o que a comunidade está passando? - argumenta Cristiane. Ela, no entanto, ressalva:

- Temos que trabalhar sim com planejamento e inteligência.

Caso Tim Lopes

No dia dois de Junho de 2002, o jornalista Tim Lopes saiu para fazer sua última grande reportagem investigativa. Vestia uma velha camisa, bermuda e sandálias, carregando em sua pochete uma microcâmera escondida para filmar um baile funk na favela da Vila Cruzeiro, integrante do morro conhecido como Complexo do Alemão. A pauta foi feita após uma denúncia dos moradores de que nos bailes patrocinados por traficantes havia exploração sexual de menores e consumo de drogas. Na quarta vez que subiu à favela para fazer mais apurações, Tim não voltou mais.

Após uma semana de busca, foi confirmada a morte do jornalista. Havia sido barbaramente espancado e torturado pelos traficantes. A morte de Tim Lopes gerou muita polêmica, discussão entre autoridades, questionamentos, mas, sobretudo, uma reflexão urgente do papel atual do jornalista. Ricardo Noblat, em seu livro “A Arte de Fazer um Jornal Diário”, critica a autorização por parte dos chefes de Tim para fazer a reportagem, considerada de alto risco.

Cristiane de Cássia concorda que um maior planejamento poderia ter sido feito, mas diz que todos os jornalistas que fazem matérias de riscos são assim: sabem que é perigoso, mas a vontade de cobrir sempre fala mais alto. “Eu soube que o Tim já estava meio cansado e receoso disso tudo, mas quando pintava algo novo para fazer ele não pensava duas vezes.” Ela confirma que o recurso da câmera escondida, até então muito utilizado,passou a ter restrições depois do caso Tim Lopes. E o colete à prova de bala começou a ser mais usado.