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Rio de Janeiro, 24 de abril de 2024


Cultura

"Melancolia": A dor permanente de existir

Joseane Freitas* - Da sala de aula

12/09/2011

Para Freud, em sua obra Luto e melancolia, a melancolia é um estado psíquico que se caracteriza pelo desânimo profundamente penoso, pouco ou nenhum interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de atividades, além de uma diminuição dos sentimentos de autoestima, a ponto de encontrar expressão numa autorecriminação, que pode levar a uma expectativa delirante de punição. Tais traços estão também presentes no luto. Porém, se por um lado o luto se representa pela perda, a melancolia não tem outra fonte senão os próprios pontos obscuros da psiquê humana.

E é nessa psiquê que Lars Von Trier monta e remonta sua alegoria. Com seus dez minutos iniciais de imagens em uma câmera lenta, quase quadro a quadro, e com a retumbante obra de Wagner, Tristão e Isolda, o autor repete um recurso já utilizado por ele em Anticristo. Porém, se em Anticristo a introdução funciona como um prólogo, em Melancolia ela é um resumo de toda a narrativa. Do princípio ao fim. Literalmente, o fim.

Após esse resumo, que “entregaria” a história (não fossem as suas inúmeras camadas de interpretação ao longo da película), o filme se divide em dois capítulos: Justine e Claire; ou Melancolia e Luto. No primeiro capítulo, Justine vê, uma após outra, todas as significações dos pilares de felicidade de nossa sociedade ruírem. O primeiro é o do consumismo. A ostentação da limusine não causa outra sensação senão o ridículo. Os noivos, apesar de usarem a maior das limusines, chegam à onerosa festa de casamento a pé e com duas horas de atraso. É quando surge o segundo pilar: as convenções sociais. Com todo um protocolo arruinando, os noivos, principalmente a noiva, se vêem enfadados com todos os rituais e repetições. O que se demonstra com o terceiro pilar: a família. A mãe grosseira, o pai inconveniente, a irmã controladora, o cunhado presunçoso e soberbo. Ainda na fase protocolo de casamento, surge o quarto pilar: a carreira, pois ao invés de fazer um tradicional discurso de desejo de felicidade aos noivos, o padrinho de casamento, também patrão de Justine, não só a promove como lhe imputa uma tarefa em plena festa de casamento. E por fim, o último pilar se apresenta: o amor romântico, com o noivo, desdobrando-se em gestos grandiloquentes para fazê-la feliz, a esperá-la em vão no quarto de núpcias.

E é então que podemos por fim compreender o apelido dado por seu sobrinho à Justine: “Tia, quebra aço”. Pois cabe à Justine quebrar um por um todos os pilares de aço que sustentariam a felicidade de nossa sociedade. O desdém para com o protocolo do próprio casamento enlouquece o organizador. A fuga para urinar no maior símbolo de orgulho do cunhado, o campo de golfe, é pura provocação. Cansa-se tanto de sua própria festa que decide ora dormir, ora tomar um longo banho de banheira, enquanto todos aguardam sua volta para seguir com o protocolo. O pilar do amor romântico é quebrado, no campo de golfe, onde passa a noite de núpcias com o estagiário. A carreira também não resiste ao cataclismo, Justine humilha o chefe perdendo assim seu emprego. O último pilar a cair é a própria Justine. A opção do diretor de captar essas imagens com uma câmera na mão transmite toda a instabilidade da própria personagem. A opção por uma cor sépia e sufocante transporta o espectador para dentro da angústia e melancolia de Justine. No primeiro capítulo, Justine é o próprio planeta Melancolia. É a primeira a notar que algo se move de forma diferente. Nela e no universo.

O capítulo dois, Claire, poderia, segundo a teoria psicanalítica de Freud, muito bem ser chamado de Luto. Claire, ao saber do possível fim iminente, teme a perda. A perda do presente, do futuro. Mas não parece ser a intenção do autor falar sobre o luto, logo a presença desse capítulo serve para sublinhar novamente a melancolia do primeiro capítulo pelo contraste. Se a fotografia da parte um era saturada num tom sépia sufocante, o capitulo dois enevoa a tela. A câmera pára de tremer, tudo já está definido. Para a humanidade e para Justine. Claire representa o desespero, a tentativa de manter certos pilares, como a família, a sociedade (numa tentativa de fuga para o povoado) ou até dos protocolos, propondo uma espécie de “festa do fim do mundo” com taças de vinho, ao que Justine ironiza perguntando-lhe se não lhe cabe também a Nona sinfonia de Beethoven. Ao afirmar que tudo está definido, tenta trazer à irmã a serenidade do inevitável. Justine a essa altura já se enamora de Melancolia e como uma noiva em seu leito nupcial se despe à espera de seu amado. Se entrega como Ofélia, do quadro de John Everett Millais, imagem apresentada na introdução. É na introdução que vê-se também os grossos fios de lã cinza, com os quais ela diz se sentir presa. Saber do fim desprende Justine da dor permanente, da dor de existir. Assim como o suicídio libertou Ofélia, a de Shakespeare, da dor.

Contudo, o filme de Von Trier torna-se o próprio planeta Melancolia. A chocar-se contra o público na cadeira e a consumir em fogo todo resquício de esperança que existia. Para o espectador só existem três reações possíveis: a aceitação/conformismo de Justine, o desespero de Claire ou a fé-ignorância do sobrinho Leo.

*Joseane Freitas é aluna da disciplina Teoria e Crítica do 7º período de Cinema, ministrada pela professora Denise Lopes.