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Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 2018


Cultura

Escritores explicam resistência do impresso no mundo digital

Gabriela Caesar e Thaís Bisinoto - Do Portal

06/09/2011

 Lucas Terra

Marcada pelo avanço do livro digital, como mostra reportagem do Portal, a 15ª edição da Bienal do Livro se despede no próximo domingo (11) ainda sem o novo modelo de leitura consolidado. Escritores e editores reunidos na feira de livro reconhecem o espaço crescente de obras dotadas da tecnologia digital, porém observam que grande parte dos consumidores mantém-se fiel às edições impressas.  De acordo com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE/USP), o número de exemplares de livros vendidos no país aumentou 13% no ano passado, impulsionando em 8% o faturamento do setor editorial: R$ 4,5 bilhões. “Existe a praticidade em fazer o download, mas, no meio digital, as pessoas ainda têm a cultura de que tudo online é de graça", afirma a presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Sonia Machado Jardim, sobre o mercado que reúne 7,5 mil títulos.

Fã de literatura, a socióloga Agnes Frimbois recheia de livros o seu pequeno apartamento no centro de Paris. Para ela, as relações estabelecidas pela internet são "pouco profundas" e o conteúdo ali disponível "não é sempre seguro". Agnes acredita que, embora permita uma pesquisa mais rápida e vasta, a rede virtual não deve ser o único meio de busca:

– Continuo cética com relação às publicações de internet. Elas têm mais erros e não são suficientemente atualizadas – opina – Por isso, nunca utilizo a internet como o único meio. Procuro aliar os dois (o livro tradicional e a internet).

A revisão e o custo de conversão do arquivo, avalia Sonia, aumentam o custo do livro digital. Apesar de "entusiasta do livro digital", o escritor Mauro Rosso, autor de Machado de Assis Crônicas: A+B/ Gazeta de Holanda (Editoras PUC-Rio e Loyola), lembra outro obstáculo à expansão (inexorável) desse tipo de opção: o custo ainda relativamente alto dos aparelhos compatíveis com a obra digital. "Você vai ali e compra um livro. Mas para ter um livro digital, ainda não", compara.

Agnes confessa que foi resistente ao processo de digitalização. Porém, sentiu a necessidade de mudar o modo de pensar:

– Se eu continuasse com o mesmo discurso, estaria completamente “por fora”. Não se pode mais ignorar a internet. É impossível. Um intelectual do século XXI deve acompanhar as evoluções para existir.

Com relação ao livro digital, a socióloga defende sua disseminação como forma de atrair crianças e  jovens. Ela teme um cenário “catastrófico” construído por uma geração que, segundo ela, "não lê nada":

– Não vejo os jovens se interessarem por leitura. É uma catástrofe. Eles estão criando um mundo próprio, em todos os níveis, inclusive de alfabeto. Por um lado, não devemos esquecer que esta é uma forma de criação, o que é bom, mas aí, eles estão levando muito a sério. É preocupante. E isso acontece mesmo nos países mais desenvolvidos.

Agnes duvida de que o livro digital “pegue” na geração dela:

– Para aqueles que são acostumados a ler o livro de papel, acho que o livro digital não vai pegar muito. Eles leem artigos, textos acadêmicos.

Domício Proença Filho, da Academia Brasileira de Letras (ABL), discorda. Não vê resistência ao e-book, mas "preguiça" por parte da população em se atualizar digitalmente. Ele ressalta que as pessoas terão de aprender a manusear o “aparelho”.

Enquanto o mundo digital avança, há quem siga contra o fluxo, cultivando os livros tradicionais com afeição. Divulgadora cultural da Barsa, Denise da Silva garante que o cliente em busca de coleções não está em extinção. Segundo ela, alguns casos são movidos por "realização pessoal"; outros, pelo desejo de renovar tradições. O redator publicitário Marcos Bassini reconhece ser um colecionador de livros desde adolescente:

– Comecei (minha coleção) com quadrinhos. Eu ia a sebos, no centro da cidade do Rio, toda semana, para procurar revista antiga. Aos 20 anos, desenvolvi paixão pelos livros e decidi colecioná-los.

Bassini passou a procurar por edições originais, para, se possível, tê-las autografadas. O último autógrafo conquistado foi do escritor português Gonçalo Tavares, que participou do Café Literário de domingo (4): O autor: entre a busca da expressão justa e a aventura da metáfora. Bassini procura enriquecer sua coleção indo a sebos, hábito que compara ao jogo de videogame:

– Parece um game, para mim: ir a sebo e procurar uma edição rara, uma primeira edição, um livro esgotado, um autor que não se publica há muito tempo. O barato é tentar ver descobrir alguma raridade.

O colecionador diz que seu acervo está "apenas começando". Para aumentar a coleção de 50 "primeiras edições", ele passará à próxima etapa: ir a leilões.