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Rio de Janeiro, 19 de junho de 2024


Cultura

DJ deixa a meia-noite no Rio para curtir os dias em Paris

Mariana Alvim - Do Portal

31/08/2011

 André Arruda

O crítico de cinema e DJ Marcelo Janot embarca nesta quarta-feira para a França. Desta vez, não é para assistir a nenhum festival, nem para discotecar em algum evento. Janot interrompe sua intensa rotina no Rio, que envolve colunas diárias sobre cinema na rádio SulAmérica Paradiso, críticas escritas para o jornal O Globo e gravações para o canal de TV por assinatura Telecine Cult, para um período de três meses em Paris, para estudar francês e relaxar, ou "tomar uns bons drink (sic)", como diz, parodiando a travesti Luisa Marilac.

A maior mudança de rotina, porém, será na carreira na música: por 11 anos o DJ comandou a Brazooka, na Casa da Matriz, em Botafogo, de onde nunca se ausentou por mais de uma sexta-feira. Foi com a festa que Janot criou um estilo próprio, reinserindo na noite carioca a música brasileira em um tempo em que os hits gringos dominavam. A partir daí, o DJ passou a ser requisitado para festas particulares e grandes eventos, como a abertura do show dos Rolling Stones, em 2006, o Live Earth, em 2007, e no réveillon da Praia de Copacabana, em 2010.

Formado em Jornalismo na PUC-Rio em 1992, Janot passou por veículos de comunicação importantes como Tribuna de Imprensa, Jornal do Brasil, Multishow e TVE. Além de colaborador do O Globo, do Telecine e da SulAmérica Paradiso, é editor do site Criticos.com, do qual é um dos fundadores, e participa de júris de editais públicos de cinema.

O Portal conversou com o DJ e crítico sobre cinema, música, sua carreira, os tempos de PUC, a viagem e planos futuros. Confira:

Cine-perfil de Janot

O Portal sugeriu ao crítico e DJ Marcelo Janot um jogo-rápido inspirado em títulos de filmes em cartaz. Confira o resultado:

A balada do amor e do ódio: qualquer música do Los Hermanos!

Quero matar meu chefe: os noivos que me pediram que tocasse meia hora de musica sertaneja numa festa de casamento.

Melancolia: pensar que se o fim do mundo chegar não teremos mais filmes de Lars von Trier e Terrence Malick, e jogos do Fluzão.

Não se preocupe, nada vai dar certo: a burocracia que emperra nossa vida.

O homem ao lado: meu vizinho solitário que passa o dia cantando aos berros.

 A falta que nos move: de bom senso, educação e gentileza, que está nos movendo de volta rumo à era da barbárie.

A partida: chega mais rápido do que se imagina.

Meia-noite em Paris: a razão pela qual eu terei as manhãs livres para dormir.

Onde está a felicidade: nas festas que faço.

Vejo você no próximo verão: descansado, com fôlego renovado, e cheio de novas ideias. Assim espero!

Qual é o motivo para a viagem para a França?

Em primeiro lugar, quero descansar um pouco. Estou em um ritmo intenso há quase 11 anos, principalmente por causa da Brazooka, em que não podia faltar mais de 12 dias para não perder mais de uma sexta-feira. Vou tirar um período sabático. Gosto muito de aprender línguas e há muito tempo quero aprender francês. Talvez eu seja o único Janot que não saiba falar francês. Eu já tenho casamentos marcados como DJ para dezembro de 2012, e isso me ajudou a decidir sobre a viagem. Nunca tive a vida tão planejada, isso me deu uma certa angústia. “Caramba, já estou preso a uma rotina até dezembro de 2012”...

A Brazooka vai voltar?

Quando eu voltar em dezembro, a gente vai conversar. Está havendo um rodízio de festas na Matriz que parece estar dando certo. Eu nunca tive ilusão de que a Brazooka fosse durar para sempre. Na última festa, na despedida, foram 500 pessoas, o que mostra que ainda há gente que curte. Mas talvez as pessoas que gostavam da festa não saiam mais todas as sextas. Pode ser que se não volte semanal, pode voltar mensal, com esse rodízio.

Você quer que a Brazooka volte?

Quero, claro, é a marca que está identificada com o meu nome. É a marca que eu fiz surgir e que virou uma referência na noite. E, principalmente, que me dá um prazer enorme. Então vamos torcer para que ela volte com força total em 2012.

Há alguma preferência entre a carreira de crítico ou de DJ?

Uma coisa legal é que eu consegui equilibrar as duas coisas. Um grande risco que corre um profissional com várias atividades como eu é ir muito bem em uma das partes, e  deixar de lado a outra. Então, sempre tive muito cuidado com isso. Quando estava no auge como DJ, abrindo show dos Rolling Stones, eu era ao mesmo tempo presidente da Associação de Críticos. É equilibrando as suas atividades que você se mantém no mercado. Seu nome deve estar sempre em evidência, principalmente como DJ.

De que artistas brasileiros da nova geração você gosta?

Gosto muito do Marcelo Jeneci, o disco que ele lançou no último ano, Feito para acabar, foi o melhor que eu ouvi nos últimos tempos. Gosto muito do Fino Coletivo, que faz uma mistura boa; do Emicida, que tem um som bacana, letras inteligentes. Móveis Coloniais de Acaju também. Tem muita gente bacana, você não precisa ficar órfão dos Los Hermanos para sempre. Uma prova disso é que todas essas bandas que eu citei, quando toquei na Brazooka, fizeram o maior sucesso.

Como crítico de cinema, você não estará na cidade para o Festival do Rio. Mas faz alguma aposta?

Este ano eu vou estar completamente fora, uma pena, pois gosto muito de me atualizar com filmes novos. O filme que eu não sei se vai passar, mas que já vi em concursos de finalização, é o Febre do rato, do Cláudio Assis. É muito bom, um dos melhores que vi ultimamente. Junto com a Mostra Internacional de São Paulo, é o maior festival do Brasil. O Rio tem um glamour, os artistas gostam de vir para cá. Mas os dois são muito importantes, até porque são festivais internacionais. O do Rio tem o júri da Federação Internacional de Críticos de Cinema, que é o mesmo prêmio da crítica de Veneza, Cannes, Berlim... É bacana porque é um festival que está crescendo e hoje é respeitado. E não é só uma mostra; é um festival com prêmios.

Quantos filmes você vê por semana?

Praticamente vejo um filme por dia. Eu gosto de ver um filme sempre depois do jantar. Pelo menos é uma vez por dia, e ainda tem as cabines de exibição. Mas evito ver mais do que dois, acho exagero, a vista cansa, você não consegue refletir direito sobre os filmes.

Você se formou em Jornalismo na PUC. Quais as suas recordações da universidade?

Marcelo Janot: Eu tinha passado para o 2º semestre da UFRJ, e pensei: “Vou começar na PUC e, se não gostar, vou para a UFRJ”. Mas gostei tanto que acabei ficando. A matéria de que eu mais gostava era "Pilotis", ainda não tinha maturidade para estudar filosofia, psicologia, sociologia. Se fosse mais velho, teria aproveitado mais. Mas não deixou de semear uma base. Eu gostei muito da atmosfera da universidade e das amizades que eu fiz, amizades que continuam até hoje. Muitos dos meus colegas de trabalho eram de lá. O fato de ter estudado na PUC, pelos contatos que eu fiz com amigos, me abriu muitas portas. A minha geração está muito bem no mercado de trabalho.

Em relação ao mercado de trabalho, como foi a preparação da universidade?

Janot: Fiquei um ano no Jornal da PUC, foi uma experiência muito boa. A parte prática foi super importante para que eu não chegasse cru ao mercado de trabalho. Mas sempre tive uma opinião muito consolidada em relação ao ensino do jornalismo: jornalismo é um dom, você tem que ter certa facilidade para escrever. Mas, para você escrever bem, o que mais importa é a sua formação educacional em toda a vida. A faculdade de Jornalismo serve para lapidar o seu talento. Quem não tem vocação para escrever pode fazer a faculdade que vai continuar sem escrever bem.

Você trabalhou em veículos importantes como repórter; tem vontade de voltar ao jornalismo?

Janot: Desde que saí do Jornal do Brasil, em 2001, não faço mais reportagens. Não sei se vou voltar. Nunca fui um grande repórter, nunca tive o faro para apurar. Preferia lidar com o texto. Hoje é muito comum ver jornalistas mais experientes fazendo livros, que na verdade são grandes entrevistas transformadas em livros. Não descarto um dia enveredar por esse caminho.

A função de “bonequinho” do Globo é uma posição almejada por muitos. Que dicas você daria a quem quer ser crítico?

Comecei na Tribuna de Imprensa no caderno cultural, o que foi me abrindo portas para a área de cultura. Lá, fui crítico de TV e depois de cinema. Construí uma longa carreira como crítico, incluindo cinco anos como crítico no JB, depois presidente duas vezes da Associação de Críticos de Cinema do Rio, e só depois fui chamado para ser “bonequinho”. Claro que, se você for repórter de um jornal em que há críticas de cinema, fica mais fácil. Sonhar é sempre válido, mas não adianta meter os pés pelas mãos; é um longo caminho a ser trilhado. Também não acho que é o ápice da carreira ser o “bonequinho”. É o que tem mais visibilidade e glamour, mas você pode exercer a crítica de outras formas, em sites, por exemplo. Desde que você faça uma crítica séria, é legal.

Você está satisfeito com a sua vida profissional?

Sim, bastante, sou um cara realizado profissionalmente. Faço o que gosto e sou bem remunerado por isso, o que me permite parar por três meses para descansar. Quando digo descansar, não é porque eu estou insatisfeito com meu trabalho; é porque estou cansado mesmo. E até para dar uma reciclada, respirar novos ares. Então, no linguajar técnico, acho que fiz um gerenciamento de carreira espontâneo mas saudável.