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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Livro digital já dissemina novas práticas de leitura

Thaís Bisinoto - Do Portal

26/08/2011

 Eduardo de Holanda

O admirável mundo digital será insuficiente para aposentar o livro de papel, mas já dissemina um novo hábito de leitura, observa o professor Emmanuel Fraisse, titular do Departamento de Didática da Língua Francesa da Universidade Sorbonne, na França. Ele conversou com o Portal PUC-Rio em um intervalo do minicurso que deu na Cátedra de Leitura Unesco da PUC-Rio, sobre Práticas e Conteúdos de Leitura. (O tema será abordado pela Bienal do Livro , de 1º a 11 de setembro, em exposições e debates, como o café literário Apresentando o Livro Digital, no dia 9 de setembro, às 18h.) Fraisse animou-se ao explicar como as novas tecnologias ampliam as opções do leitor, previu que "o digital não vai parar de crescer" e até recorreu ao clássico entre Internacional e Flamengo para ilustrar a crença de que globalização e identidades culturais caminham juntas.

Portal PUC-Rio Digital: Embora esteja ainda nos primeiros passos, o livro digital desperta expectativas audaciosas. O que muda nas práticas de leitura?

Emmanuel Fraisse: Ele (o livro digital) provoca uma transformação da noção de texto. Além de portar caracteres do livro – as letras, no sentido tradicional –, ele também porta imagens, fixas ou móveis, e som. Antes, nos encontrávamos divididos: um dia, íamos ao cinema e, em outro, líamos um romance. Essa experiência tem o risco de ser transformada e unificada, de uma maneira que ainda não conhecemos. O interessante é que, quando você está na internet, você consegue ver, ouvir e ler de uma só vez.

Portal: Com o avanço da era digital, que rumo tomará o livro em papel?

 Eduardo de Holanda 

Fraisse: Nós não conhecemos o fim da história; ela está em curso. O que sabemos é que o digital não vai parar de crescer. Acredito que o livro tradicional não vai desaparecer, mas vai recuar e um equilíbrio novo vai se estabelecer entre o livro como o conhecemos hoje e o digital.

Portal: O processo de digitalização enfrenta resistências, ainda. Por quê?

Fraisse: Há três tipos de fraturas nesse processo: de geração, sociais e econômicas. Há gerações que entram no mundo digital mais facilmente que outras, classes sociais que são mais abertas do que outras. As redes de acesso ao digital não são as mesmas entre as cidades e no campo, pois, neste, os espaços não são cobertos. O mesmo ocorre na Europa.

Portal: Na opinião do senhor, quais são os principais entraves à expansão da leitura digital? Nivel socieconômico é um fator preponderante para a receptividade às novas tecnologias?

Fraisse: É sempre uma questão de idade. Se você cruzar a idade de uma parte da geração de pertencimento com as categorias sociais, é evidente que os jovens urbanos são mais fáceis de entrar na era digital. Isso está em todos os trabalhos de sociologia. Uma pessoa velha, pobre e que viva no campo tem menos chances de se servir da internet do que os jovens, ricos, que vivem em cidades grandes.

Portal: Um dos temas do minicurso foi a relação entre a globalização, impulsionada pela tecnologia digital, e a identidade cultural. O senhor acredita que sejam conflitantes?

Fraisse: Essa é uma questão fundamental, que tem duas dimensões. De um lado, vivemos cada vez mais no mesmo mundo. De outro, somos muito sensíveis às identidades e às noções de pertencimento. Hoje, a situação natural é viver dentro de várias línguas. Porém, quando você pensa, por exemplo, no Brasil, as pessoas falam português e, na China, mandarim. Elas não falam inglês, ou outro idioma. O fato de estarmos com as mesmas informações, o mesmo mundo e com as convergências culturais, não proíbe as afirmações de identidade. Ao contrário.

Portal: O senhor pode explicar melhor?

Fraisse: Sim. Darei um exemplo que vivi aqui no Brasil, no fim de semana passado. Fui a um jogo de futebol em Porto Alegre. De um lado, jogava o Internacional, time local. De outro, o Flamengo, carioca. Antes de iniciar a partida, foi tocado o hino nacional e, em seguida, o hino do Rio Grande do Sul. Você tem aí uma demonstração de que a pequena pátria não entra em conflito com a grande pátria. Ao mesmo tempo, o pertencimento a uma nação não apaga o pertencimento à humanidade.