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Rio de Janeiro, 23 de junho de 2018


Mundo

Coleção sobre cultura africana acerta contas com a História

Gabriela Caesar e Monalisa Marques - Do Portal

12/08/2011

 Divulgação

Mais e melhores informações sobre a história africana. Considerada por especialistas o melhor caminho para dirimir preconceitos e valorizar a cultura afrodescendente, esse mergulho mais profundo desdobrou-se no encontro Tesouro Africano, esta quinta-feira (11), parceria entre a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), o Ministério da Educação (MEC) e a Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio. Em oito mesas-redondas, professores, pesquisadores, ativistas e representantes do poder público passaram a limpo a historiografia, as tradições e os desafios africanos. Lembraram, por exemplo, a importância do movimento negro.

Organizada pela professora Denise Pini da Fonseca e pela aluna de doutorado Laura Olivieri, ambas do Departamento de Serviço Social, a iniciativa também marcou o lançamento da coletânea História geral da África, publicada pela Unesco como parte das ações do Ano Internacional do Afrodescendente. Os oito volumes traduzidos para o português estão disponíveis para download e são distribuídos a bibliotecas públicas. “Os fascículos para o Ensino Fundamental 1 e 2, assim como as duas sínteses da coleção visando ao ensino superior, estão previstos para o Dia da Consciência Negra (20/11) deste ano”, adiantou Antônio Mário Ferreira, coordenador-geral de Educação para as Relações Étnico-Raciais da Secadi/MEC.

 Eduardo de Holanda

Pela manhã, o belga Vincent Defourny (foto), representante da Unesco no Brasil, contou aos cerca de cem espectadores reunidos no auditório do RDC que a coleção nasceu de um pedido de chefes de Estado a intelectuais africanos, em 1964, para que escrevessem “a História da África a partir da própria África”.

– Houve alguns problemas com fontes (de informação), mas tudo foi superado. Agora, as obras podem ser ampliadas, criticadas, discutidas, debatidas e aprofundadas, porque o diálogo é muito importante – ponderou.

“Enquanto o leão não aprender a escrever, a história estará sempre a favor do caçador”. A frase, que busca explicar um dos problemas da educação no Brasil, foi citada pelo escritor Nei Lopes durante a mesa-redonda Arte e afrocentrismo: novas narrativas, dentro do encontro que teve como destaque a coletânea que promete contar a história da África por um ponto de vista inédito: o africano.

– A coleção cobre uma enorme lacuna e faz jus ao que a África representa para o Brasil – afirmou a coordenadora da mesa e membro do Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (Nirema), Sônia Giacomini.

Além de Nei Lopes, participaram da mesa, à tarde, as escritoras Conceição Evaristo e Elisa Lucinda. A coincidência dos discursos evidenciou a carência de uma narrativa sob o ponto de vista africano.

– Há uma tendência a mostrar que tudo de bom que aconteceu à África foi resultado de influências externas – disse Nei, cujo contato com a história teria sido traumático, não fosse pela sua ligação com o samba. Também compositor, ele contou que só “aprendeu” a gostar de história depois de um enredo de samba que falava sobre Xica da Silva.

– O aluno negro sempre fica desconfortável na escola quando aprende que seus descendentes foram pessoas ‘desqualificadas’, e isto reforça o preconceito – afirmou.

O trauma de Nei não é um episódio isolado. Elisa Lucinda, atriz e poetisa, se pergunta como os negros viveram até hoje sem um registro histórico oficial contado pela perspectiva africana, como a coletânea lançada durante o evento. O espaço normalmente dedicado à África nos livros escolares de História, por ser curto demais, acaba tendo conteúdo simplório e servindo para reforçar preconceitos.

– Antes de estrear na televisão, ninguém falava comigo onde eu morava. Depois disso, todo mudou. Uma vizinha me disse: “Bem que meu marido dizia: ‘Aquela neguinha deve ser alguma coisa, anda muito arrumadinha’. E ele estava certo, você é da televisão!” – contou Elisa, com bom humor.

Arte se antecipa à história

A importância da arte no registro da História, principalmente no caso da África, foi destacada pela professora Eliana Yunes, da Cátedra Unesco de Leitura. Além de ser produzida com o olhar local, a arte é motivada pela emoção – seja de afeto ou raiva –, aspecto considerado perturbador no campo acadêmico. Por isso, de acordo com Eliana, a arte tem o privilégio de se antecipar à história, por não estar submetida à rigidez acadêmica.

Para preencher, em média, 30 capítulos por volume, num total de 10 mil páginas, 350 pesquisadores – dois terços eram africanos – se engajaram no projeto que levou 30 anos para a conclusão. Feliz com o resultado, o ex-ministro da Igualdade Racial Edson Santos (PT-RJ) ressaltou a relevância desse trabalho mais detalhado e, supostamente, mais fiel à história africana:

– Muitos livros romantizam, por exemplo, a chegada dos escravos em terras brasileiras – argumentou.

Já editada em inglês, francês e árabe, a versão completa “reencontra a verdadeira África e lhe dá uma nova ‘cara’”, destacou Valter Roberto Silveiro, representante do reitor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Da mesma forma que o número de embaixadas brasileiras na África cresceu, estreitando as relações entre os países, como ressaltou Santos, Ferreira identifica o atual momento como "oportuno" para o lançamento da coleção:

– Quando a abolição dos escravos completou cem anos, houve um boom de estudos sobre aquele momento. Essa coleção dará um impulso para que possamos construir melhor uma identidade e ter orgulho de ser afrodescendentes.

Para a consolidação de uma sociedade igualitária, o reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, SJ, afirmou:

– Faz-se necessária a aceitação de uma sociedade de diferenças para existir uma sociedade de paz, que é o que queremos.