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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2024


Mundo

Temas políticos conquistam mais espaço nas cúpulas dos Brics

Caio Lima - Do Portal

08/08/2011

Lucas Terra

O Brics, grupo de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, está deixando de ser uma aliança que apenas discute questões econômicas e passa a ter maior preocupação também com temas voltados à governança política mundial. Essa é a opinião do diretor do Departamento de Mecanismos Interregionais do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Gilberto Fonseca Guimarães de Moura, que na última quinta-feira (4) esteve no Brics Policy Center (BPC) – centro de estudos dos Brics derivado de uma parceria entre a PUC-Rio e a Prefeitura –, para esclarecer alguns avanços importantes decorrentes do resultado da III cúpula da aliança, ocorrida em abril passado na cidade chinesa de Sanya. O embaixador destacou quatro pontos a serem comemorados: a recuperação de um formato de grupo (que, segundo ele, esteve perdido); uma nova vertente de consulta e coordenação; consolidação e aprofundamento de uma agenda própria; e, por último, melhora de relacionamento com outros países.

Guimarães de Moura baseia-se nos resultados demonstrados pelos países do Brics na última década, que tiveram crescimento econômico acima do previsto, para evidenciar a visão que hoje eles têm no mundo. O embaixador acredita que o impacto das crises na Europa (Grécia, Portugal e agora Espanha) e da dívida americana só fortalece os Brics, não só financeiramente, como também politicamente.

– É evidente que algo está errado na governança global. O status atual não é o adequado, não só em nível de política como na própria corrida econômica financeira, e quem ganha com isso são os Brics – afirmou Guimarães de Moura.

No entanto, ele considera que, no âmbito econômico, é preciso ter cautela para garantir um novo progresso como nos últimos anos, devido às próprias crises.

Para evitar que novas recessões possam abalar o grupo, Guimarães de Moura defende um trabalho conjunto em questões como FMI, volatilidade dos preços de commodities, meio ambiente e segurança, nas quais ele garante que já houve avanços. No campo agrícola, o embaixador afirma que os Brics já estão “falando a mesma língua” em questões como estoques, cooperação de posses de terras e pesquisas. No entanto, ele lembra que no Brasil há outro ponto a ser considerado:

– Além da agricultura em si (dos alimentos), no Brasil temos a questão do desenvolvimento agrícola a ser debatido.

Lucas Terra Supervisor geral do Brics Policy Center e diretor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC-Rio, João Pontes Nogueira ponderou que, embora os avanços da atuação dos Brics sejam claros, “não há ainda uma coordenação efetiva, clara o suficiente, para o grupo agir de maneira constante nos fóruns de ONU, OMC e FMI”. Pontes Nogueira defende que a aliança crie mecanismos de consulta que sejam mais regulares, de maneira a formar posições nesses fóruns multilaterais com mais antecedência.

– Principalmente com temas ligados, por exemplo, à Líbia e também a negociações comerciais do futuro – destacou Pontes Nogueira.

Já para o coordenador do núcleo de pesquisa sobre desenvolvimento urbano e sustentabilidade do BPC, Pedro Cláudio Cunca Bocayuva, culturalmente existe um conjunto de dúvidas e inseguranças. Segundo ele, também professor do IRI, é preciso um trabalho mais esforçado do Brasil no ponto de vista do conhecimento dos aspectos das diferentes culturas dos Brics, no relacionamento entre as sociedades. Lucas Terra

Sobre a questão da matriz energética, Cunca acredita que o Brasil deve passar a compatibilizar as plataformas que nos interessam pensando numa ótica voltada aos países da América Latina e África, ou seja, no âmbito Sul-Sul.

Para o embaixador Guimarães de Moura, os fóruns de discussão promovidos pelo grupo não podem ter uma temática “anti-alguma coisa”.

– Se for assim, nosso discurso se tornará vazio e sem fundamento, e a nossa metáfora política vai contra isso – enfatizou Guimarães de Moura, que também revelou ser contra o ingresso de novos países no Brics:

– Quanto mais países, mais divergências surgirão, pois cada país possui seus interesses próprios. Porém, o mínimo de abertura para rever conceitos e manter boas relações diplomáticas é fundamental.

A questão da China

Maior economia do grupo e segunda maior do mundo, a China é sempre assunto de polêmica quando se fala da nova ordem mundial. Segundo Guimarães de Moura, para se tornar, de fato, uma liderança mundial, o governo chinês deve repensar em como deseja ser visto:

– Não adianta ser uma liderança mundial e não atender às expectativas dessa posição.

No Brasil, especificamente, a crescente presença do mercado chinês causa receio para alguns estudiosos da área. Cunca refuta essa ideia e afirma que o problema, na verdade, é interno.

– Embora haja uma parceria, estão sendo feitas estratégias defensivas, mas na realidade o malefício da China está dentro do próprio Brasil. O que faz a Vale? O que faz a Aracruz Celulose? O que faz o agronegócio? – critica o professor do IRI.

PUC-Rio pode ter papel de interlocução, diz embaixador

Pontes Nogueira disse acreditar que, com o Brics Policy Center, a PUC-Rio pode ter um papel importante dentro do Brasil em termos de avanços de uma agenda concreta do grupo, “inclusive na interlocução não só dentro da academia como dentro dos governos municipais, estaduais e federais”. O diretor do IRI lembrou que, no semestre que se inicia, temas como o meio ambiente, a Rio + 20 (Conferência das Nações Unidas em Desenvolvimento Sustentável, que será realizado em 2012 no Rio), o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento de mecanismos multilaterais de consulta e segurança serão abordados no BPC. Pontes Nogueira destacou que este semestre que se inicia será de muitas atividades no BPC, principalmente "em torno de temas fundamentais em que os Brics estejam engajados”.