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Rio de Janeiro, 20 de junho de 2024


Economia

"Brasil tende a suportar bem efeitos da crise externa"

Thaís Bisinoto - Do Portal

03/08/2011

 Arte: Eduardo de Holanda

O acordo selado nesta terça-feira entre parlamentares republicanos e democratas pôs um ponto final no impasse de três meses que aproximava os Estados Unidos de um calote histórico.  Mas está longe de representar o fim das preocupações com a economia e – principalmente, segundo alguns analistas – a administração americanas. Enquanto o presidente Barack Obama junta os cacos dos embates políticos cuja fatura ameaça a corrida eleitoral do próximo ano, o mundo se mantém no compasso da desconfiança. Para o economista Luiz Roberto Cunha, professor da PUC-Rio, a crise ainda terá outros capítulos, por conta das negociações previstas no pacto, mas acredita que o Brasil passará bem pelas interefências externas:

– O Brasil, como qualquer outro país, será afetado por uma crise prolongada no mundo, mas continuará atraindo investimentos.

Cunha considera que a ideia de uma catástrofe mundial, decorrente da manutenção do teto da dívida americana, tenha sido uma jogada política no xadrez entre democratas e corrente radical dos republicanos, a Tea Party. Na avaliação do professor, Obama "conduziu mal" a negociação envolvendo o aumento do teto e outras medidas anticalote, o que justifica, em parte, a reação negativa dos mercados ontem. Segundo Cunha, o calote jamais ocorreria:

– Se não houvesse o aumento do limite, o governo teria de cortar muita coisa, o que seria obrigado a  fazer de qualquer forma. Não houve, em nenhum momento, qualquer ideia de que iria ser feito o default da dívida.

O economista prevê, ainda, que o presidente Obama será o que se chama nos EUA de “leng duck”,  um “pato manco”. Assim, terá nos próximos 18 meses um governo "muito ruim".

Especialistas avaliam que a fragmentação política bos Estados Unidos reforça a fragilidade de Obama para a disputa das próximas eleições presidenciais, em novembro de 2012. O cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, tem um prognóstico menos determinista, mas confirma as expectativas negativas quanto à reeleição:

– Não digo que ele (Obama) seja um candidato derrotado. Longe disso. Mas os indicadores de popularidade são os mais baixos desde que assumiu a presidência.

Ismael acredita os ataques mútuos possam se intensificar: republicanos argumentarão que Obama "não conseguiu fazer a economia dar certo"; e Obama dirá que está seguindo na direção certa, mas "não teve tempo de fazer dar certo". O professor acrescenta:

– Se as eleições fossem hoje, essa resposta derrotaria Obama. Mas, como são daqui a um ano, muita coisa pode mudar.

A exemplo de Cunha, Ismael responsabiliza parcialmente o presidente americano pelas turbulências econômicas:

– Ele (Obama) usou os instrumentos mais variados possíveis, inclusive o apoio popular – o que é muito importante – e, mesmo assim, sua política econômica não conseguiu fazer a economia norte-americana se restabelecer.

Embora enxergue erros na conduta do presidente americano, o analista ressalva que, por outro lado, "a situação chegou a esse ponto devido à radicalização por parte do Congresso – composto majoritariamente por republicanos –, o que tornou as negociações muito mais difíceis".

Ainda de acordo com Ismael, os republicanos perceberam uma forma de derrotar os democratas: “congelar” o cenário atual, levando para 2012 exatamente o que está acontecendo hoje. O professor duvida de que, até lá, haja mudanças significativas na economia, e esse seria um fator decisivo para as ambições de Obama nas eleições. 

Comitê especial elaborará recomendações de medidas para redução da dívida americana

O acordo fechado ontem nos EUA autoriza o governo americano a fazer empréstimos para pagar suas dívidas, que ultrapassam o limite de US$ 14,3 trilhões, estourado em 16 de maio. De imediato, cerca de US$ 400 bilhões serão depositados nos cofres do Tesouro americano. Serão usados para quitar parte dos débitos. Em um segundo estágio, será organizado um comitê conjunto especial do Congresso, dividido igualmente entre republicanos e democratas, que recomendará os passos seguintes para a redução do déficit, totalizando cerca de US$ 1,5 trilhão. As recomendações serão votadas em novembro, sem a possibilidade de emendas.