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Rio de Janeiro, 17 de junho de 2024


Cultura

Cineastas defendem liberdade criativa em adaptações

Gabriel Picanço - Do Portal

29/07/2011

 Arte: Eduardo de Holanda

Com a proposta de experimentação e liberdade criativa na adaptação de obras literárias para o cinema, começa nesta segunda-feira a Oficina de Adaptação e Produção de Curtas-Metragens, evento que é parte do Festival Adaptação 2011. Durante duas semanas, 20 estudantes de cinema pré-selecionados na PUC-Rio e em outras faculdades participarão de debates sobre o processo de transformação da história de um livro em filme. Serão formados quatro grupos, que produzirão um curta-metragem cada, a partir do conto O tatuador, do escritor João Paulo Cuenca, criado especialmente para a oficina. Segundo os realizadores, será uma oportunidade para que os jovens cineastas compreendam que não existe um modelo a ser seguido ou limites criativos na hora de levar uma obra literária para o cinema. Para a roteirista Rita Toledo, uma das curadoras do festival, o principal objetivo da oficina é o debate sobre as diferentes possibilidades de adaptação.

– Não existe um modelo pronto, uma receita para adaptar uma obra literária. O interessante é a gente poder debater e conversar sobre as possibilidades que existem. A proposta é uma experimentação. Por isso, os quatro grupos vão adaptar o mesmo conto. A ideia é pensar que não existe uma versão certa ou uma versão melhor na adaptação de um filme. O que existe são visões sobre uma mesma obra – diz Rita.

Para o cineasta Christian Casseli, um dos três professores a dar aulas na oficina, não existe uma adaptação ideal, perfeita, de um conto ou romance. Assim, o roteirista tem liberdade para interferir na história, imprimindo no filme a sua interpretação, imaginando e modificando elementos presentes ou não na obra original.

– Vamos incentivar os alunos a terem visões diferentes do conto, expandindo seus limites, já que a cabeça de cada um funciona diferente para cada coisa. Iremos instigar as pessoas a criarem suas versões, a partir de suas maneiras de ver. Isso é muito fascinante – afirma Caselli.

Além de Caselli, participarão da oficina os cineastas Lucas Paraizo e André Lavaquial. Para Paraizo, que é professor do curso de cinema da PUC-Rio, um dos grandes problemas na relação entre literatura e cinema é a comparação entre as obras originais e os filmes adaptados desses livros. Sejam os blockbusters sobre best sellers ou filmes independentes derivados de livros menos conhecidos, quase sempre se ouvirá de alguém que “o livro é melhor que o filme”. Paraizo acha que a comparação é errônea e reforça a importância da experimentação e da liberdade nas adaptações.

 Divulgação – É um erro comparar um filme com um livro. É a pior coisa que se pode fazer numa adaptação. Eu sei que é inevitável, mas não deveria ser feita, porque o filme é outra obra. A graça da adaptação é você olhar para aquilo como um filme único, uma obra fechada em si, que deriva de outra, mas não é uma reprodução. Ele deve modificar. Mais do que ter liberdade, é preciso ter certo grau de desrespeito na adaptação, com a obra original – diz Paraizo

Para Caselli, os espectadores “se decepcionam” ao assistir a um filme adaptado de uma obra que já tenham lido. Isso acontece porque, muitas vezes, o que é mostrado não corresponde ao que o leitor imaginou ao ler a obra original. Como cada idealização visual da obra é única, uma outra que seja diferente, como o filme, causa certo estranhamento.

– Todo mundo adapta um pouquinho um livro quando lê. Mas, quando se parte para a concretude de se escolherem os atores, a câmera, os ângulos, a edição, esbarramos com questões que não foram pensadas anteriormente. Essa oficina, junto com a própria mostra, é uma grande provocação, no sentido de sermos mais atentos à questão das linguagens literárias e cinematográficas, das diferenças entre elas, e da não valorização de uma em detrimento da outra – afirma Caselli.

Rita Toledo ressalta que nem sempre é a literatura que serve como fonte de inspiração para a produção cinematográfica; o caminho contrário também acontece.

– O cinema, com certeza, influencia a literatura. Muitos autores contemporâneos têm uma linguagem ágil, rápida, e às vezes trabalham com montagens de imagens. Eu acho que é uma tendência da literatura beber não só no cinema, mas no audiovisual de uma forma geral. Um autor, qualquer que seja a sua área, não pode ignorar o que acontece à sua volta – diz Rita.

A oficina, que se realiza entre 1º e 13 de agosto, é o primeiro momento do Festival Adaptação, que ainda terá uma mostra de filmes e debates sobre a produção literária e cinematográfica latino-americana, de 23 de agosto a 4 de setembro, na Caixa Cultural, no Centro. A programação completa está no site oficial do festival: http://www.literaturanocinema.com.br/