Projeto Comunicar
PUC-Rio

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram

Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2017


Variedades

Sim, nós temos Obama

Suzane Lima - Da sala de aula

27/07/2011

Suzane Lima

O sorriso largo e a impressão de que aquele rosto é familiar. Essas são as primeiras coisas que se percebem no motorista Rinaldo Gaudêncio, de 38 anos. Quando um ilustre senador de Illinois, nos Estados Unidos, começou a aparecer na mídia, em 2008, em plena corrida presidencial, as comparações começaram. Com a eleição de Barack Obama, o motorista passou a ter um segundo cargo: sósia do homem mais poderoso do mundo. Mesmo sem ganhar pelas participações em reportagens e programas de entrevista, como o de Jô Soares, Rinaldo jura que a semelhança com o democrata vai abrir muitas portas para ele. Pelo menos, ele pode se gabar de ter um elemento que o original vem perdendo durante o seu mandato: a popularidade.

Além de ter sido um dos ilustres convidados que assistiu ao discurso de Obama no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em março deste ano, Rinaldo já foi parar no Canadá por causa da sua aparência. E isso tudo sem falar uma palavra em inglês. Segundo ele, o convite surgiu depois que o viram vestido de Obama no melhor estilo verão carioca no carnaval de 2010. Só de sunga de praia e gravata, o motorista chamou atenção e foi pular o carnaval fora de época em Toronto cercado de “celebridades”. “Eu fiquei ao lado da ex-BBB Fani, da Luiza Brunet e até do Rodrigão”, diz, elevando a entonação ao falar o nome dos “artistas”.

Entrevistas, fotos e autógrafos na rua já se tornaram rotina para o Obama carioca, mas não é só disso que ele vive. Motorista “desde que se entende por gente”, Rinaldo admite que tem dias difíceis no volante. Ele não só tem a responsabilidade pela vida das pessoas que estão no carro, como precisa acertar o caminho no menor tempo. O importante, para ele, é fazer com que o repórter consiga chegar antes de todo mundo. O colega de trabalho Carlos Batista diz que não consegue entender o bom humor de Rinaldo. Batista conta que, com a “promoção” para sósia de Obama, Rinaldo reforçou o lado companheiro e calmo no trânsito.

– Ele vem de Santíssimo todos os dias. Pega engarrafamento e ainda enfrenta esse trânsito doido o dia inteiro. Como pode ficar com esse sorriso e de bem com todo mundo? Ele não se estressa nem quando o fecham no trânsito – afirma o colega da Rádio Globo, onde os dois trabalham juntos há quase dez anos.

Pai do casal Nathália Vigilato, de 18 anos, e Gustavo Vigilato, de 12 anos, Rinaldo diz que se empenha para dar a melhor educação para os filhos. O sustento da família é feito com uma renda de cerca de R$ 1.500 e cada gasto tem que ser bem planejado. O próximo investimento será um curso de petróleo e gás para a mais velha. “É uma área que dá retorno, não é?”, diz esperando ouvir uma resposta positiva. Ele não teve a mesma chance dos filhos. Depois que começou a trabalhar aos 10 anos ajudando o vizinho a capinar terrenos, Rinaldo deixou a escola de lado e só concluiu o ensino fundamental. O ensino médio só veio bem mais tarde, em 1995, quando trabalhava para o jornal O Globo.

– Era um projeto em que a gente estudava alguns livros, fazia umas provas e completava o Segundo Grau em dois anos. Mas eu tenho certeza de que, se fosse para fazer um concurso sério, não passaria – lamenta, fazendo desaparecer por alguns segundos o sorriso igual ao de Obama.

Suzane Lima  Bem distante da realidade brasileira, a sintonia do casal Obama é destaque na mídia. Já a “harmonia” de Rinaldo e Andréia Vigilato, de 39 anos, talvez não seja novidade em Santíssimo, na Zona Oeste do Rio, onde eles moram desde que se casaram há 20 anos. A Michelle do motorista, diferentemente da primeira-dama, é uma “baixinha brava”, que morre de ciúmes do sucesso que o marido faz com a mulherada. Ela faz bico para a exposição de Rinaldo em tantos jornais, revistas e TVs. Motivos não faltam. Rinaldo conta que, quando sai vestido de Obama – ele tem um uniforme bem parecido com o habitual terno escuro do presidente americano -, a mulherada dá em cima. E ele ainda capricha na produção fazendo a sobrancelha e cortando o cabelo no mesmo modelo do presidente. “O que eu posso fazer se ele se sente feliz colocando essa fantasia? Eu confio no meu marido. O problema é que essas mulheres devem achar que ele está bem de vida por estar aparecendo o tempo todo na TV”, diz Andréia, irritada.

Ela ainda vai ter que controlar o ciúme por algum tempo. Com o início da campanha para a reeleição do Obama americano em 2012, o Obama carioca pretende entrar com tudo no personagem. Com ar de mistério, Rinaldo conta que uma pessoa vai pagar um curso de inglês e uma viagem para os Estados Unidos para testar a sua popularidade. E ele ainda diz que vai tentar ajudar na reeleição do democrata mesmo aqui no Brasil.

– Vou montar um quiosque na Praia de Copacabana recolhendo votos das pessoas. Quero falar com o pessoal do consulado para enviar esses votos para o Obama. Ele tem que ver que a maioria dos brasileiros o apóia – afirma, abrindo mais uma vez o sorriso típico dos entusiastas da campanha “Yes, we can!”.