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Rio de Janeiro, 28 de abril de 2017


Variedades

Fenômeno nas costas cariocas, ela, enfim, está de volta

Amanda Reis - Do Portal

08/03/2013

 Maria Christina Corrêa

Cerca de 400 mulheres cariocas passaram cinco meses à espera de um telefonema. Eram clientes que puseram seus nomes na lista de espera pela mochila de nylon da grife carioca de acessórios Uncle K, que sumiu em outubro e só agora retorna às vitrines. Lançada em 2006, a mochila pegou nos ombros de norte a sul da cidade. Desde então, foram vendidas cerca de 30 mil unidades, marca incomum no mercado.

Durante este período, além das que entraram na lista de espera, incontáveis interessadas saíram frustradas, ansiosas e intrigadas com a demora nas dez filiais da loja no Rio. A expectativa inicial era de que a mochila chegasse em novembro; depois, no Natal; depois, em janeiro; por fim, no carnaval...

A analista de sistemas Raphaela Briggs, 28 anos, calcula que tentou por oito meses, sem sucesso, comprar a mochila igual à de colegas de trabalho.

– Sempre que ia a uma loja, a vendedora dizia que houvera um atraso na entrega e que a mochila já estava chegando – conta.

 Maria Christina Corrêa Ao custo de R$ 239, a peça se tornou uma febre à altura da que provocaram, nos anos 80, as mochilas esportivas da Company e da Redley.

Segundo a especialista em Marketing de Moda e professora do curso de Design em Moda da PUC-Rio Aline Monçores, um fenômeno de vendas pode ser causado por três fatores: uma demanda natural, quando o produto tem uma finalidade que já era esperada há muito tempo; uma disseminação por “pessoas chaves”, como celebridades; e a exposição do produto na mídia, que desperta o desejo do consumidor. No caso da mochila, que conhece, Aline ressalta a singularidade de ter se viralizado no boca a boca:

– Na parte de acessórios, são poucos os casos com vendas tão elevadas, superando sucessos como as mochilas esportivas da Company e da Redley, que atendiam um público segmentado, jovem e masculino. Neste caso, o produto atinge tanto jovens como mulheres mais velhas – compara Aline, que atribui o fenômeno a uma combinação bem-sucedida de fatores: o tamanho, o design ergonômico, a distribuição dos compartimentos, a qualidade do material, as cores neutras.

A receita que pegou

O responsável pelo modelo é o designer Tande Camara, 50 anos, um dos sócios da grife.

O designer atribui o fenômeno ao material impermeável (nylon revestido de PVC), à leveza e ao design contra roubos e furtos. Ele conta que, ao criar o acessório, priorizou a segurança:

– Queríamos uma mochila que não fosse fácil de abrir, para proteger as consumidoras de possíveis assaltos. Então, mudamos o zíper para as costas. Criamos também um lugar para o iPod, que estava nascendo na época. Pensamos em um modo de disfarçar o que está dentro da bolsa. Ao longo dos anos, fazemos apenas um redesign, para não fugir da linha do produto.

Seis anos depois, Tande se sente realizado ao ver tantas crias suas na rua. A mochila é um dos maiores sucessos, mas não o único: por alguns anos, o líder de audiência da grife foi um sapato estilo boneca, com pequeno salto e bico arredondado.

– Paramos de fabricá-lo porque foi muito copiado. Mas os sapatos não são tão percebidos como as bolsas, que evidenciam a marca – explica Tande.

As fãs

A analista de sistemas Lorena Lima, 45 anos, aderiu e aprova o compartimento acolchoado onde guarda o notebook: “É discreto e seguro. Ninguém imagina que tem um aparelho desses dentro da bolsa”. Comprou a sua preta há três anos, e usa para tudo. E conta que todas as amigas do trabalho têm. Arquivo pessoal

– Por trabalharmos na área de informática, sempre carregamos aparelhos eletrônicos, e ela é ideal para transportá-los. Além disso, é uma mochila chique, diferente das tradicionais, que são brutas – afirma.

O compartimento para o notebook foi o que atraiu também a gerente de contas Vivian Soares, 27 anos. Há seis meses, a mochila que usava arrebentou no meio da rua. Como estava perto de um shopping, decidiu comprar a mochila de nylon: “É do tamanho perfeito e cabe tudo”.

A vendedora Tamara Ataíde, da loja do Shopping Leblon, atesta que muitas mulheres procuram o produto para trabalhar e viajar, por ser leve e compacto. Ela conta que uma cliente comprou a mochila antes de uma viagem de aventura. De volta, apareceu querendo consertá-la.

– Ela tinha ido escalar, e a bolsa se desgastou, rasgou. Como estava na garantia, expliquei que o procedimento padrão seria trocar por uma nova, mas a cliente não queria de jeito nenhum; dizia que tinha uma história vivida com a antiga. Depois de muito custo, acabou aceitando a troca, mas entregou a “velha” com tristeza – ri.

A fotógrafa Leda Lopes, 55 anos, também comprou uma mochila para viajar.

– Ela é bem útil nas viagens, por ser leve. Só não uso no dia a dia porque o zíper traseiro, embora mais seguro, não é acessível com ela pendurada nas costas.

Há dez anos, quando seu filho nasceu, a arquiteta Patricia Maya, 47 anos, decidiu trocar as bolsas por uma mochila, por ser mais prática e distribuir melhor o peso. Usava um modelo de couro, mas não encontrou outra quando precisou trocar. Quando viu o modelo da Uncle K, achou ideal:

– Por conta da minha profissão, preciso carregar muitos objetos, e com ela levo tudo o que quero. A leveza, o tamanho e o design clean são os grandes diferenciais. Gosto de cores neutras, porque não fico trocando. Tenho uma sugestão: poderia ter maior variedade de cores.

 Maria Christina Corrêa Patricia gosta tanto da mochila que tem duas na cor roxa. A primeira, submetida a muito uso e peso, arrebentou. Pegou emprestada então a da mãe, do mesmo modelo. Comprou uma nova para devolver a da mãe e, ao mesmo tempo, consertou a primeira. Hoje, tem duas iguais.

Por que sumiu, sumiu por quê?

A empresa não confirma o motivo da demora na reposição da peça, mas vendedores contam que a carga, importada, ficou meses retida no Porto do Rio, como reflexo das greves de agentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Receita Federal, que paralisaram as atividades por um mês, em julho, causando atrasos na liberação de mercadorias até o fim do ano.

– Muitas cargas ficaram presas no porto pois não havia auditores fiscais para fazer o desembaraço, o que deixou o serviço paralisado. Além disso, por falta de pessoal, o número de navios atracados caiu à metade, de dez para cinco – conta o chefe do Serviço de Despacho Aduaneiro, Paulo Sérgio Lima.

Ele lembra que, por serem mais fáceis de serem falsificados, acessórios como mochilas, relógios e roupas são necessariamente vistoriados, independentemente do tipo de despacho de importação (DI) – classificado nas cores verde (livre de conferência), amarelo (vistoria de documentos) e vermelho (vistoria de documentos e mercadoria). Só nos meses de dezembro e janeiro, a Receita apreendeu no Rio 43 toneladas de mercadoria falsificada, imitando produtos de grifes conhecidas.