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Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2017


Saúde

Leo Arturius e seu pai, Dilcio – “As pessoas não se informam sobre essas doenças, acabam descobrindo só quando acontece com elas"

Marina Ferreira e Maria Clara Parente - aplicativo - Do Portal

12/06/2015

 Arquivo pessoal

Quando meu pai começou a apresentar sintomas da doença, eu e minha mãe levamos um tempo para entender o que estava acontecendo. Ele ia à rua para comprar alguma coisa e voltava para casa sem lembrar o que era. Não distinguia os times de futebol nas partidas que passavam na televisão. Marcamos médicos, mas ele sumia, ainda era independente.

O processo da doença foi lento, durou oito anos, e sempre ficamos na dúvida sobre o que se passava com ele, principalmente por ele dizer sempre que “o mundo estava acabando, mas que ele estava bem”.

Durante a doença, senti dois grandes baques. O primeiro foi tirá-lo de casa e colocá-lo em um asilo. O sentimento era de que eu o estava abandonando – apesar de minha mãe ficar muito mais tempo com ele do que eu, já que eu não morava mais com eles. Era a minha mãe que ficava o dia inteiro com ele, eu estava vendo tudo de fora. Ela é que saía e quando voltava encontrava o saco de arroz aberto no chão, meu pai fazendo xixi pela casa. Mesmo não concordando, naquele momento tive que apoiá-la.

O segundo baque foi vê-lo no asilo. Vi muitas pessoas em estado pior que ele, e o clima era péssimo. Vê-lo ali me fez aceitar de vez que ele estava doente, que era real, estava realmente acontecendo.

O pior dia para mim foi quando dei banho nele pela primeira vez. Chorei o tempo inteiro, porque senti que a situação tinha se invertido. No passado, ele era quem me dava banho, e agora estava numa posição em que não conseguia nem dar banho em si mesmo.

Aquilo mexeu comigo. Passei a visitá-lo mais no asilo, levá-lo para passear, visitar minha casa. Foram dois anos e meio em que eu não saía, ficava os fins de semana inteiros com ele. Era estranho porque a cada semana ele estava diferente, piorava. O que me entristecia muito era ver os filhos do primeiro casamento dele o abandonando, sua irmã parando de visitá-lo: “Se ele não me reconhece mais, não tem por quê”. 

 Reprodução O nome da minha mãe foi o último que ele esqueceu, mas até o final achei que ele me reconhecia pelo sorriso que dava quando eu chegava para visitá-lo, que era diferente do que ele dava para outras pessoas. Nas visitas que fiz ao asilo, levei álbuns de foto e, ao ver minhas fotos de bebê, ele dizia que aquele garoto era o filho dele. Eu dizia “Pai, esse bebê sou eu”, e ele retrucava: “Não, não é você”.

A doença fez com que eu percebesse o quanto devo aproveitar a vida com a minha mãe, sem ficar trabalhando tanto. Nunca perguntei a meu pai sobre sua infância, sua história de vida, e, quando percebi, não tinha mais tempo para fazê-lo. Eu conversei tão pouco com ele durante a vida, foi horrível ver que ele não conseguia mais desenvolver nenhum tipo de conversa. O tempo passou e perdi a oportunidade. Não quero deixar que isso se repita com minha mãe.

Depois da morte dele, tive muito sentimento de culpa, como se pudesse ter me dedicado mais, ter ficado mais tempo com ele. Talvez eu pudesse ter lidado com mais maturidade com a doença do meu pai.

Fiz o curta Impossível esquecer, sobre Alzheimer, para a disciplina Projeto I de Cinema na PUC-Rio. Pensei que seria mais honesto falar sobre um tema com o qual tive contato por oito anos. Não foi sofrido reviver a doença com o filme; foi minha forma de lidar e aprender mais sobre Alzheimer. Tive acesso a várias informações que teriam sido muito importantes quando o meu pai estava doente. Eu percebo que as pessoas não se informam muito sobre essas grandes doenças, então acabam descobrindo só quando acontece com elas.

O pai de Léo morreu em 2014.

Leia mais relatos:

Acordo toda manhã e penso: “Mãe, hoje é mais um dia nosso”

A nutricionista carioca Patrícia Della Noce, 55 anos, cuida da mãe, Rina Latini, ex-cabeleireira, portadora de Alzheimer há 10 anos. 

Ela é uma estrela que se apaga lentamente, mas ainda consigo ver sua luz

Augusto Alves, 78 anos, contador, cuida da esposa, Thereza, 76, há pelo menos 10 anos com Alzheimer. 

“Para minha mãe, foi mais fácil esquecer-se da própria vida.”

Eliana Faria, 58 anos, presidente da Abraz-RJ, cuidou da mãe, Zélia, que morreu em 2014, após quase 20 anos com Alzheimer. 

“Minha mãe nunca soube lidar com o sofrimento"

Márcia Martorelli, 59 anos, professora aposentada, cuida da mãe, Maria Cecília, 88, com Alzheimer há 11 anos. 

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