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Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2017


Saúde

Infectologista esclarece dúvidas sobre dengue e zika

Luisa Oliveira - aplicativo - Do Portal

29/02/2016

Arte: Thayana Pelluso

Preocupação constante nos verões brasileiros, o mosquito Aedes aegypti traz em 2016 um desafio ainda maior ao seu combate. Famoso por ser o transmissor da dengue e febre amarela, é também a causa principal da proliferação do vírus zika e da chikungunya, pela capacidade de conservar diferentes tipos de vírus dentro do seu organismo. A batalha contra o Aedes foi intensificada com o aumento considerável de casos de microcefalia no país: 4,1 mil casos suspeitos estão sob investigação no país, de acordo com boletim divulgado na última terça-feira (23) pelo Ministério da Saúde. Destes, 3.253 são na Região Nordeste, e 458 no Sudeste. Atualmente, 33 países no mundo enfrentam a epidemia, sendo a América Latina a região mais afetada. Tal quadro levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar o surto de zika e microcefalia uma emergência sanitária mundial.

Com sintomas semelhantes, zika, chikungunya e dengue causam dúvidas na população. De acordo com o infectologista Ricardo Hayden, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), 80% dos pacientes que fazem o exame de sangue, ou sorológicos, não sabem se contraíram zika porque o vírus cai na forma assintomática do exame:

– É algo complicado, porque o paciente já pode ter apresentado zika e não saber porque não mostrou sintomas da doença. Os exames sorológicos são feitos com anticorpos específicos, mas esses anticorpos podem cruzar. Como são vírus com características biológicas específicas, o paciente pode ter dengue e o resultado ser positivo para chikungunya, por exemplo.

Com o número crescente de casos suspeitos, informações e boatos sobre o zika e chikungunya circulam com rapidez pelas redes sociais. Um dos assuntos mais relevantes é a discussão sobre a suposta ligação entre microcefalia e vacinas contra rubéola aplicadas em mulheres grávidas. Hayden garante: “É um mito, não há uma assertiva sobre isso. Mas a medicina é a ciência de verdades transitórias, aquilo que a gente fala agora ou o que se inventa, se cria, pode se confirmar ou não adiante”.

O infectologista também assegura que o risco de crianças terem microcefalia após a fase embrionária não existe:

– Passados os três para quatro meses de gestação, a possibilidade de a microcefalia atingir o embrião fica excluída. O que não impede da criança contrair a doença e ter problemas neurológicos por conta da patologia; mas nunca desenvolver microcefalia.

Casos de zika surgiram na Inglaterra e nos Estados Unidos ampliaram as dúvidas a respeito das formas de transmissão, já que estes pacientes apresentaram o quadro em cidades sem a incidência do Aedes aegypti:

– Esses casos são importantes do ponto de vista da relação sexual, porque os pacientes que desenvolveram a doença não tinham saído nem de Londres e nem da cidade texana, lugares esses que não há indícios do mosquito transmissor. Mas nenhuma transmissão por saliva foi confirmada.

Além dos sintomas, o vírus também pode continuar dentro do corpo do paciente:

– No esperma, o vírus pode ficar um tempo maior do que na saliva e no sangue. Na corrente sanguínea, em média de sete a oito dias e sêmen até 15 dias ou mais. Os estudos prosseguem, mas essa informação é bem caracterizada.

 Divulgação

Como diferenciar zika, chikungunya e dengue?

Mesmo com indícios parecidos, as três doenças têm suas peculiaridades. Segundo o infectologista, do ponto de vista clínico, há algumas características específicas:

Em geral, as manifestações clínicas se apresentam mais intensamente na dengue. Febre ocorre nas três, mas na dengue é mais intensa. Na Chikungunya aparece por um período intermediário, menor que na dengue.

A dor de cabeça na dengue é mais forte; na Chikungunya e Zika, é menor. Já a dor no corpo, na dengue, é muscular ou, como chamamos, mialgia. Na Chikungunya essas dores são específicas, imitam doenças reumáticas. O paciente parece apresentar um quadro de reumatismo infeccioso, ou seja, reumatismo acompanhado de febre.

Zika também causa dores no corpo, porém não na mesma intensidade que dengue e chikungunya. Zika é a menos sintomática das três.

Com relação às manchas vermelhas, o vírus zika provoca marcas pontuais ou puntiformes praticamente desde o início. Na dengue, essas marcas aparecem mais na segunda fase evolutiva da doença, e na chikungunya, nem tanto no começo como zika, e nem tão no fim como na dengue.

Sintomas podem permanecer por mais tempo

Mesmo recebendo alta, o paciente pode permanecer com estes efeitos no corpo por um período maior. Das três doenças, é na Chikungunya que as dores no corpo podem durar mais, de acordo com Hayden:

– Na dengue, entre dez a 12 dias, o indivíduo já se sente melhor, os sintomas já diminuem bastante. Das três, a Chikungunya talvez seja a que mais se prolongue, já que ela pode existir numa fase crônica deixando o paciente como se tivesse com reumatismo e fibromialgia meses e meses a fio. Na Zika, pelo que se tem observado entre os pacientes do quadro, fica no estado intermediário, é em torno de duas a três semanas para a pessoa estar recuperada do quadro geral, exceto em casos graves, como o neurológico associado.

Leia mais: “Sistema público de Saúde precisa se preparar melhor para o zika”, alerta infectologista

 

MITOS E VERDADES SOBRE O VÍRUS ZIKA 

Água limpa ou suja acumulam larvas?

Mesmo que poças mais cristalinas aumentem o risco de infestação, qualquer água parada é criadouro para o mosquito. De acordo com o infectologista, o mosquito não costuma voar para lugares tão distantes e se aproveita de certos pontos, como poços de elevador, para pôr seus ovos:

– Se você estiver em localidades onde haja água parada, de preferência mais limpa, como uma poça de chuva que caiu, isso aumenta o risco de aglomeração. O mosquito deposita o ovo, sai a larva, cresce e, quando fica maior, voa. Mas não é um ser que voa longe; ele paira cerca de 300 metros do criadouro e de dois a três metros de altura. Às vezes, “pega carona” em elevadores e entra em apartamentos. Onde há criadouros, existe um risco maior de proliferação do mosquito e uma ameaça maior de sermos picados. Já foi demonstrado que mesmo água salobra pode transmitir e facilitar a multiplicação dos ovos da fêmea Aedes aegypti.

Zika e chikungunya também podem levar à morte

Em sua fase hemorrágica, a dengue é a que mais causa mortes entre as três doenças. No entanto, se levadas a níveis extremos, tanto zika como chikungunya podem matar:  

– São poucos os casos. Continuo muito mais preocupado com dengue que com as outras duas, embora alguns aspectos de Zika sejam muito preocupantes, como nos primeiros três, quatro meses de gestação da mulher; e a questão da doença neurológica associada, chamada Guillain Barré, que não é exclusiva desse vírus, já que muitos podem provocar a doença. São quadros às vezes bastante sérios, e alguns casos podem levar à morte.

Há a possibilidade de o paciente contrair mais de um vírus na mesma picada, pois já foram encontrados mosquitos com os três vírus juntos. Há relatos de pacientes com dois. Num caso registrado, foi até fatal: “Era um senhor que havia contraído zika e chikungunya e, por ser idoso, a imunidade não deu conta dos dois vírus de uma vez”, conta.

– A reação no corpo acontece em níveis diferentes. O vírus invade e provoca o que chamamos de síndrome inflamatória sistêmica, que é um quadro inflamatório genético no organismo todo e pode levar ao falecimento. São pacientes que merecem uma atenção redobrada.

Divulgação: Ministério da Saúde

Repelentes e roupas claras: aliados no combate ao Aedes

Os aspectos biológicos do Aedes aegypti são bem específicos. Além de atração por água parada para depositar os ovos, o pernilongo tem a “preferência” por cores mais escuras do que claras. Tal aspecto está entre as recomendações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) para evitar a transmissão:

– Recomendamos para as pessoas é que, mesmo no Sudeste e Nordeste onde as temperaturas estão altíssimas, elas usem roupas claras, tecidos mais grossos, e, se possível, manga comprida porque o mosquito consegue picar o indivíduo se ele estiver vestindo algo com textura mais fina. Outra dica é ficar em salas fechadas se tiver ar condicionado. Se não, colocar um ventilador basculante. Se a família tiver um poder aquisitivo menor, aquele ‘velho e bom’ mosqueteiro que cubra a cama da criança e dos adultos.

Principal arma no combate ao Aedes, os repelentes tiveram aumento de 50% em vendas de acordo com a consultoria da Nielsen, empresa americana de pesquisa de mercado. Mesmo com grande variedade dos produtos no comércio, não são todos que tem eficiência no resultado:

– Há repelente a base de DEET e ICARIDINA, que têm uma duração média de 3 a 4 horas, dependendo do ambiente que o indivíduo esteja (quente ou frio) e como está transpirando. É bastante eficiente, mas deve ser renovado.

Volta da gripe A não tem relação com o Aedes aegypti

Recentemente a gripe H1N1 ganhou os destaques dos noticiários após ter feito a sua quarta vítima em São Paulo. Mesmo ressurgindo, o infectologista não associa a gripe suína à infestação de Aedes Aegypti:

– Não há nenhuma relação. A gripe não é uma doença transmissível por artrópodes (mosquitos), pode até ser transmitida por pernilongos, mas não tem relação com o vírus que o Aedes aegypti transmite.

Abaixo, mitos e verdades sobre zika, chikungunya, dengue e o Aedes Aegypti:

MITOS E VERDADES SOBRE O AEDES AEGYPTI

Somente água limpa acumula as larvas do mosquito? MITO.
Água limpa aumenta o risco de infestação, mas mesmo água salobra pode ser ambiente para os ovos da fêmea Aedes Aegypti.

Vacinas vencidas podem causar microcefalia? MITO.
Não há relação. Há uma série de causas para a microcefalia, nenhuma delas ligada a vacinas.

Crianças já nascidas podem adquirir microcefalia pelo zika? MITO.
Passada a fase embrionária, de três a quatro meses de gestação, não há possibilidade de o embrião desenvolver microcefalia. O que pode acontecer é a criança contrair o zika e ter problemas neurológicos, mas não microcefalia.

O Aedes Aegypti pode transmitir o vírus da gripe H1N1? MITO.
A gripe pode até ser transmitida por mosquitos, mas não pelo Aedes Egypti.

Bromélias são criadouros de larvas do Aedes Aegypti? MITO.
Estudo desenvolvido pelo Instituto Oswaldo Cruz analisou 156 bromélias do Jardim Botânico e constatou que apenas 0,07% e 0,18% de um total de 2.816 formas imaturas de mosquitos coletadas nas bromélias durante o período de um ano correspondiam ao Aedes Aegypti e Aedes Albopictus, sugerindo que as bromélias não constituem um problema epidemiológico como foco de propagação ou persistência desses vetores.*

Repelentes são eficazes? VERDADE.
Repelentes à base de Deet e Icaridina, que têm duração média de 3 a 4 horas, dependendo do ambiente (quente ou frio) e de o quanto o indivíduo transpira. É bastante eficiente, desde que reaplicado.

Roupas escuras atraem o mosquito? VERDADE.
É uma característica biológica do Aedes: ele é atraído por tons mais escuros do que claros. A recomendação é optar por roupas claras e de mangas compridas, evitando tecidos muito finos, porque o mosquito consegue perfurá-los.

Pode-se morrer por zika ou chikugunya? VERDADE.
São poucos os casos. Ela é infinitamente maior em dengue, mas são quadros, às vezes, bastante sérios, e alguns deles podem levar a óbito.

É possível adquirir zika, chikugunya e dengue numa mesma picada? VERDADE.
Há pacientes que pegaram dois vírus de uma vez e já foram encontrados mosquitos com os três vírus.

O zika pode ser transmitido por relações sexuais? VERDADE.
Há três ou quatro casos publicados. No sêmen, o vírus pode ficar um tempo maior do que na saliva e no sangue, cerca de 15 dias ou mais.

O Zika pode ser transmitido por saliva? EM ESTUDO.
Não há nada confirmado. O Zika foi encontrado na saliva de forma ativa, só que não se tem nenhum caso, nenhuma outra maneira de transmissão por saliva confirmada.

Fonte: Dr. Ricardo Hayden, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia