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Rio de Janeiro, 25 de março de 2017


Saúde

Do baú de Rina, lembranças de uma vida intensa

Marina Ferreira e Maria Clara Parente - aplicativo - Do Portal

12/06/2015

 Marina Ferreira

Nascida na Itália, Guerrina Latini embarcou para o Rio nos anos 60, com o primeiro filho, Manfredo, ao encontro do marido, que viera antes. Com o bebê nos braços e sem falar português, recebeu a notícia de que ele havia ido embora com outra mulher. Sem documentos, para poder voltar para a Itália, Rina morou por oito meses em um hotel, com a ajuda da mãe, que lhe mandava algum dinheiro.

Para sobreviver, começou a trabalhar como cabeleireira em um salão de beleza. Logo foi apresentada ao cabeleireiro Angelo Della Noce, também italiano, pioneiro do ramo de beleza no Rio. Anos antes, Angelo abrira o primeiro salão de beleza da cidade, no Hotel Copacabana Palace. Encantado pela bela jovem – que costumava ser comparada à atriz francesa Catherine Deneuve –, ele a convidou para ser tinturista no salão. Os dois se apaixonaram, e Rina engravidou de Patrícia, sua segunda filha, em meio à separação de Angelo de sua primeira mulher.

Juntos ganharam muito dinheiro, fazendo cabelo de atrizes como Tônia Carrero e ganhando concursos. Mas o relacionamento era conturbado: Angelo era ciumento e Rina, agressiva. Depois de seis anos de brigas constantes, Rina pediu separação – incomum para mulheres da época. A gota d’água foi um telefonema do pai de Manfredo, 14 anos após abandoná-los. Angelo atendeu o telefone numa extensão e quando percebeu quem era teve uma crise de ciúmes – achou que Rina estava tendo um caso. O divórcio acabou no litigioso e, para afastar mãe e filha, Angelo trocou Patrícia de internato várias vezes – Rina nunca sabia onde encontrá-la. Até que, aos 12 anos, Patrícia decidiu morar com a mãe. Angelo morreu em 2007, aos 94 anos.

Veja a fotogaleria Lembranças de Rina

Rina sempre teve uma saúde muito frágil, fumava, trabalhava demais e sofria de peritonite aguda desde os 14 anos. Passou por 20 cirurgias, perdeu quase todo o intestino e vivia à base de remédios – que a filha nutricionista, progressivamente, conseguiu reduzir, com uma alimentação adequada  Marina Ferreira

Hoje, aos 89 anos, sentada em frente à janela do apartamento na Praia de Botafogo, com bela vista do Pão de Açúcar, a senhora de expressão perdida não reconhece mais os recortes de jornal em que aparece em destaque, como cabeleireira das estrelas, e se comunica com a filha Patrícia em italiano, nas raras vezes em que fala. Serena, uma de suas distrações é pentear cabelos – de bonecas e apliques –, seu maior prazer, como na juventude.

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Augusto Alves, 78 anos, contador, cuida da esposa, Thereza, 76, há pelo menos dez anos com Alzheimer.  

“Minha mãe nunca soube lidar com o sofrimento”
Márcia Martorelli, 59 anos, professora aposentada, cuida da mãe, Maria Cecília, 88, com Alzheimer há 11 anos.

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Eliana Faria, 58 anos, presidente da Abraz-RJ, cuidou da mãe, Zélia, que morreu em 2014, após quase 20 anos com Alzheimer.

As pessoas não se informam sobre essas doenças, acabam descobrindo só quando acontece com elas
Leo Arturius, cineasta de 32 anos, fez o filme "Impossível esquecer" a partir da doença do pai, Dílcio de Souza, morto em 2013, aos 74 anos, diagnosticado oito anos antes.

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