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Rio de Janeiro, 28 de abril de 2017


Saúde

Avanço da Aids entre os jovens brasileiros indica falhas no acesso à informação, alerta pesquisador

Andressa Pessanha - aplicativo - Do Portal

12/12/2014

 Divulgação

Na contramão da queda do volume de contaminações por HIV – 32% a menos, em dez anos anos –, os casos de transmissão do vírus entre os jovens brasileiros aumentaram 53% na última década. Para o infectologista Romulo Macambira, professor da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio, a preocupante constatação do Ministério da Saúde expõe a quantidade ainda alta de relações sexuais "desprotegidas", decorrente da falta de esclarecimento de parte da população: "Nas periferias e comunidades mais pobres, o acesso às informações básicas sobre a Aids ainda são precárias". Macambira rassalta que as campanhas devem não só alertar sobre a proteção contra o vírus, como esclaracer a importância do teste de HIV para o controle de uma doença que matou 30 milhões em 30 anos e cuja cura ainda desafia a ciência.

O casamento deste teste com o exame de Carga Viral (CV), que a quantidade de cópias do HIV no sangue do paciente contaminado (soropositivo), serve de termômetro para uma das maiores esperanças na guerra contra a Aids: a chance quase nula de transmissão do vírus no caso de pessoas com CV indetectável em tratamento antirretroviral eficaz, como sustenta estudo publicado em 2008 no Bulletin des médecins suisses (Boletim Médico Suíço). Apesar do avanço, Macambira ressalva: mesmo nestas circunstâncias, não se deve abrir mão dos preservativos, pois a possibilidade de transmissão não foi zerada. “Tenho três pacientes HIV positivos que estão com a carga viral não detectada, mas isso não significa que o uso de preservativos possa ser descartado. Eles ainda têm a doença e podem transmiti-la”, explica o infectologista.  Segundo a UNAIDS, programa das Nações Unidas para o combate à Aids, cerca de 14 milhões de pessoas no mundo já se tratam e mantêm a infecção sob controle.

Portal: Pesquisa recente do Ministério da Saúde revela que, no Brasil, a quantidade de casos de Aids em homens entre 15 e 24 anos cresceu 68% em dez anos, enquanto, entre as mulheres, reduziu em 12%. Por que houve este aumento e esta diferença entre os gêneros?

Macambira: Isto deve-se porque a prática do homossexualismo é muito maior entre os homens do que entre as mulheres. Apesar de também ter pacientes heterossexuais, tenho atendido gays e travestis, pois a população gay masculina é maior: 64% são de homens e só 4% de mulheres, de acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB). Já no caso da queda do HIV entre as mulheres, tenho a impressão de que elas usam mais a camisinha e se cuidam mais do que os homens. Eles reagem mais ao calor do momento e não dão atenção apropriada à proteção.

Portal: Observa-se, também nesse estudo, um aumento de 53% no volume de contaminação entre jovens brasileiros na última década, enquanto os casos no mundo recuaram 32%. Como o Brasil pode acompanhar os avanços no controle da doença?

Macambira: Vivemos num país de comunidades sem acesso à informação, o que facilita a infecção por HIV. Em outros países, os meios (de conscientização) funcionam bem melhor. Precisamos melhorar o acesso no país às  informações sobre a doença, o seu grau de perigo e as formas de preveni-la.

Portal: Em que medida as campanhas relacionais às DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), em especial a Aids, contribuem para reduzir a propagação do HIV?

Macambira: Elas ajudam muito, em escala crescente. Mesmo sem fazer parte de campanha oficial, sempre recomendo aos meus pacientes que usem os preservativos e levem a sério os anúncios do gênero, ainda mais quando não se sabe se o parceiro ou parceira é HIV positivo ou não. No carnaval, as campanhas são tradicionalmente intensificadas, como indica uma das primeiras, lançada em 1998: “Sem Camisinha não Tem Carnaval”. Acho importantíssimo lembrar da Aids nessa época, pois ninguém é de ninguém entre os jovens que pulam carnaval.

Portal: Quais são os casos mais comuns de transmissão?

Macambira: Há várias formas de transmissão, mas as mais comuns estão associadas ao sexo. O contato com sangue e secreções de doentes também podem levar à conbtaminação. Uma moça que atendo, de 25 anos, que se contaminou com o namorado. O curioso, segundo ela, é que o namorado sabia que estava infectado, mas escondia isso por medo ou vergonha. E assim ela acabou sendo mais uma vítima, como a maioria, por causa da relação sexual sem proteção. Nenhum tipo de sexo é isento de riscos.

Portal: Especialistas afirmam que, de todos os métodos preventivos, o preservativo (camisinha) ainda é o mais eficaz. Que outros métodos e tecnoligias mostram-se igualmente importantes à proteção contra o vírus?

Macambira: Evitar contato com secreções de pessoas infectadas. Mas nem sempre sabe-se tão facilmente se a pessoa é portadora do vírus. Eu aconselharia moças e rapazes a não praticarem relações sexuais sem saber se o parceiro está infectado ou não. Senão, pode acontecer como no caso dessa moça que foi infectada pelo namorado. O uso de camisinha é sempre importante. Esta é a recomendação do Ministério da Saúde e de todos os médicos. Ainda assim, apenas 1/3 dos jovens usa preservativo, o que é péssimo.

 Portal: Qual é o papel do teste do vírus HIV para os métodos preventivos?

Macambira: O teste é fundamental. O Ministério da Saúde divulgou que 150 mil habitantes no país estão infectados mas não sabiam, porque provavelmente não haviam feito o teste. Além de saber se a pessoa é ou não soropositivo, ou seja, se porta o vírus, é importante medir a carga viral. Eu tenho três pacientes HIV positivos que estão com a carga viral não detectada. Isso não quer dizer que o uso de preservativos pode ser descartado. Eles ainda têm a doença e podem transmiti-la. As chances (de transmiti-la) são menores, mas existem.

Portal: Que novas tecnologias e procedimentos ajudam a controlar a transmissão e a propagação do HIV?

Macambira: Há pelo mundo testes de vacinas para cura e prevenção. E eu li, há uns meses, um artigo de duas infectologistas americanas chamado “Está se aproximando o fim de Aids?”. O título remete ao aumento, mesmo vagaroso, do número de casos curados. Esses casos indicam carga viral baixa, não a eliminação do vírus. Como aqueles dois pacientes meus de carga viral indetectada. O problema é que, embora o vírus não o afete com tanta violência, ainda está dentro dele e pode ser transmitido para outras pessoas.

Portal: Ainda em relação aos avanços no tratamento da doença, pesquisas indicam que o uso do PREP (Profilaxia Pré-Exposição), medicamento adotado por portadores do HIV, protege em até 92% as pessoas ainda não infectadas. Por enquanto, o remédio está disponível só nos Estados Unidos. Há algo equivalente no Brasil? 

 Macambira: Foi feito um teste, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em que pessoas de grupos considerados de alto risco (de contaminação), como homossexuais e usuários de drogas, ingeriram o remédio Truvada, já liberado nos EUA, onde mais de 1.700 de pessoas tomam diariamente este comprimido. Os resultados mostraram que 95% deles ficaram protegidos do HIV. Mas o medicamento ainda não é liberado no Brasil.

Portal: Um estudo recente feito por cientistas britânicos em países da África aponta que o vírus da Aids está demorando mais tempo para afetar o organismo do infectado, ou seja, indica que os pacientes estão mais resistentes. Por quê?

Macambira: O ar que respiramos é cheio de micróbios e bactérias, assim como os líquidos que bebemos, a terra em que pisamos e a nossa própria pele. De maneira que parece um milagre continuarmos vivos cercados por tantos micróbios. Este milagre chama-se sistema imunológico. Assim como resistimos a esses vírus com os quais estamos mais habituados, habitantes do continente africano, que convivem há tanto tempo com o HIV, tendem a resistir mais. Mas não podemos esquecer que a Aids, nesses casos ataca o sistema, em um intervalo maior, mas ataca.

Portal: Em casos de grávidas infectadas pelo HIV, sabe-se que o vírus pode ser transmitido para o feto. Há avanços para combater este tipo de transmissão, conhecida como vertical (da mãe para o filho)?

Macambira: Se a grávida se descobre HIV positiva, a gente deve iniciar o tratamento imediatamente. A palavra "vírus" equivale a veneno. O vírus da Aids tem duas enzimas: Transcriptase Reversa e Protease. Para cada uma delas, existem drogas antirretrovirais. Porém, em casos de gravidez, a dosagem precisa ser cuidadosa, dependendo de cada situação. Além disto, há remédios que causam alguns problemas, ou seja, são nefrotóxicos.  É importante lembrar que o alvo do vírus da Aids são os linfócitos (glóbulos brancos), os maestros do nosso sistema de defesa. Logo, a grávida, que precisa defender a si e ao feto, deve ser cuidada com mais atenção.

Portal: A transmissão vertical diminuiu de 8,6%, em 2000, para 6,8%, em 2004, da quantidade total de casos de transmissão do vírus. É possível erradicá-la?

Macambira: A tendência é acreditar nessa redução, pois as pessoas estão mais bem informadas. Zerar, no entanto, é difícil.