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Rio de Janeiro, 27 de junho de 2017


Saúde

"Sistema de Saúde precisa se preparar melhor para zika"

Giovanna Santoro e Lucas Paes - aplicativo - Do Portal

11/02/2016

Arte de Thayana Pelluso

Identificado em 1947, na África, daí o nome alusivo a uma floresta de Uganda, o vírus zika é transmitido por mosquitos como o Aedes aegypti, vetor também da dengue, vem atingindo números alarmantes de infectados. As quase 8 mil notificações só até o fim do ano passado levaram o Ministério da Saúde a reconhecer a sombra de uma epidemia cujo efeito mais preocupante é a microcefalia. Cerca de 2,4 mil bebês nasceram assim, 800 deles em Pernambuco, devido à contaminação das mães. "Se picadas nos primeiros três ou quatro meses de gestação, os fetos têm problemas de desenvolvimento e nascem com um cérebro menor do que o esperado. No restante da população, os efeitos não serão tão graves", afirma o infectologista Rômulo Macambira, professor da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio, em entrevista ao Portal PUC-Rio

O avanço de 36% dos casos em uma semana – "problema de dimensão nacional", admitiu a presidente Dilma Rousseff – deflagrou inciativas como o Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia, para o qual foram escalados até soldados do Exército encarregados de combater focos de mosquito, e uma corrida aos repelentes. "Precisam ser aplicados mesmo por cima das roupas, pois o Aedes consegue nos picar através delas", orienta o especialista. "Telas de proteção nos quartos e roupas compridas também são em bons instrumentos preventivos, mas o principal mesmo é impedir a reprodução do vírus, que ocorre em água parada e no calor", lembra. Macambira avalia que o sistema público de Saúde está longe do ideal "para lidar com a propagação da microcefalia" e alerta sobre o risco da Síndrome de Guillain-Barrê (inflamação dos nervos, principalmente das pernas), também causada pelo zika e, por enquanto, ainda episódica.

Portal: Quais os sintomas do zika?

Rômulo Macambira: Identificado pela primeira vez na África, o zika é transmitido, principalmente, por mosquitos, como o Aedes aegypti, vetor também da dengue, chikungunya e da febre amarela. Os sintomas são manchas vermelhas, coceiras na pele, febre alta, dores nas articulações, dor muscular e dor de cabeça. Eles podem aparecer em um período de uma semana a dez dias depois da doença ser contraída e durar de trés a sete dias. Contudo, em 80% dos casos, a doença é assintomática.

Portal: Há muita especulação, inclusive nas redes sociais, sobre a extensão dos efeitos e os tratamentos do zika. Como tratar a doença corretamente?

Macambira: Ainda não existem vacinas contra o vírus. Portanto, não há um tratamento específico para a zika. Nos casos sintomáticos, os indivíduos tomam remédios de acordo com o que estão sentindo. Anti-inflamatórios, no entanto, não são alternativas. A inflamação é um mecanismo de defesa do nosso organismo, e combatê-la significa enfraquecer a luta contra o agente biológico. 

Portal: Até pela quantidade incipiente de pesquisas sobre o zika, acumulam-se dúvidas sobre as complicações causadas pelo vírus, inclusive relacionadas a probelmas neurológicos, o que foi descartado pela Fiocruz. Afinal, quais as complicações comprovadas?

Macambira: Descobriu-se, há pouco tempo, duas complicações do vírus zika: a microcefalia, já muito divulgada na mídia por conta dos mais de 1.700 casos registrados no Brasil, e a síndrome de Guillain-Barrê. Essa síndrome consiste em uma polineurite, ou seja, uma inflamação dos nervos, principalmente dos nervos das pernas. Ela é originada por uma produção excessiva de anticorpos no nosso organismo, que se acumulam e impedem a realização de movimentos.

Portal: Fora as gestantes, principal grupo de risco no caso de microcefalia, que outros grupos estão ameaçados?

Macambira: No que diz respeito à microcefalia, especificamente as gestantes são o principal grupo de risco. Caso sejam picadas nos primeiros três ou quatro meses de gestação, os fetos têm problemas de desenvolvimento e nascem com um cérebro menor do que o esperado. No restante da população, os efeitos do vírus não serão tão graves, a menos que se desenvolva a síndrome de Guillain-Barrê. Qualquer pessoa pode desenvolvê-la.

Portal: Vivemos um surto de microcefalia ou já estamos diante de uma epidemia no Brasil?

Macambira: Dá-se o nome de epidemia ao aparecimento de uma doença em um número bem grande de indivíduos. Normalmente, as epidemias surgem a partir de surtos. A microcefalia, devido ao aumento expressivo no número de casos, caminha para alcançar o status de epidemia. Para efeito de comparação, a Guillain-Barrê, que se manifesta de maneira episódica, não pode ser classificada sequer como surto. 

Portal: Como a  microcefalia se manifesta nos portadores?

Macambira: As crianças que nascem com microcefalia podem ter uma vida normal ou não. A medicina, diferentemente da matemática, não é uma ciência exata. Em alguns casos, as pessoas apresentam problemas na fala ou na capacidade motora, em decorrência do atraso no desenvolvimento neurológico. 

Portal: Quais os sintomas da Síndrome de Guillain-Barrê, que, embora menos alardeada do que a microcefalia, também representa um risco? 

Macambira: Os doentes, depois de contaminados, sentem dores e fraqueza no local da picada, situação que pode levar a uma paralisia. Em casos sérios, o sistema respiratório é atingido, e o indivíduo precisa da ajuda de aparelhos para sobreviver. Apesar do alerta, a maioria dos casos de Guillain-Barrê é reversível.

 Giovanna Santoro Portal: O governo federal e administrações locais, sobretudo em Pernambuco e no Rio, reforçaram programas de combate ao Aedes aegypti e lançaram cartilhas sobre o uso do repelente. Quais as principais prevenções para evitar a contaminação pelo zika vírus?

Macambira: Há outras espécies do mosquito Aedes que transmitem o vírus zika, como o albopictus. Por isso, a prevenção consiste em impedir que os vetores tenham contato com a pele. Telas de proteção nos quartos e roupas compridas são em bons instrumentos preventivos. Há ainda os repelentes, que criam uma nuvem em volta do corpo e se ligam a uma proteína da antena do mosquito, impedindo que o vetor (mosquito) se aproxime do indivíduo. Os repelentes precisam ser aplicados mesmo por cima das roupas, pois o Aedes consegue nos picar através delas. Porém, o principal mesmo é impedir a reprodução do vírus, que ocorre em água parada e no calor. O verão é considerado época de risco. Assim, não deixar caixa d'água destampada, pneus com água, vasos de planta com água...

Portal: Até pouco tempo atrás, o zika vírus era desconhecido dos brasileiros. Virou uma preocupação nacional. Como esse agente biológico conseguiu se espalhar de maneira tão veloz?

Macambira:O crescimento da população mundial e o contato crescente entre pessoas de diferentes regiões do planeta possibilitaram a disseminação do vírus. Cogita-se a possibilidade dele ter chegado ao Brasil na época da Copa do Mundo. No entanto, qualquer avião que entre em território nacional pode trazer um indivíduo contaminado, suficiente para iniciar o avanço do problema. Conforme aumenta o número de infectados, tornam-se maiores as chances de o vírus continuar em propagação.

Portal: Na sua avaliação, a estrutura pública de Saúde brasileira é suficiente para combater o avanço do zika vírus? 

Macambira: A estrutura, por mais que tenha melhorado, ainda é precária. São desenvolvidas no país diversas pesquisas, que conseguiram, inclusive, estabelecer a relação entre a microcefalia e o zika vírus. Todavia, quando se pensa na possibilidade de lidar com uma epidemia, é notável a dificuldade de combatê-la.