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Rio de Janeiro, 28 de abril de 2017


Saúde

"Grandes doses de vaidade levam a distúrbios psicológicos"

Ingrid Forino - Do Portal

13/11/2013

Estampada nos 40 graus registrados pelos termômetros nesta semana, a proximidade da estação mais quente, e festiva, é indicada também na lotação das ergométricas e dos aparelhos de musculação. A corrida pela "forma perfeita" — o tal Projeto Verão", como ora é chamado também nas redes sociais — não raramente torna-se uma espécie de agora ou nunca nocivo à saúde, alertam os especialistas em prescrição de atividade física. "A meta não pode ser traçada no fim do ano, se o objetivo é ficar em forma no verão”, observa a coordenadora da Academia Tio Sam, Priscila Silveira. Pois não existem, lembra a profissional, dietas e treinos milagrosos para produzir, por exemplo, o desejado abdômen tanquinho em um ou dois meses.

Priscila esclarece que o caminho para conquistar o corpo dos sonhos aliado ao ganho de saúde e bem-estar passa, invariavelmente, pela conjugação entre uma dieta equilibrada — sinônimo, muitas vezes, de reeducação alimentar — e um programa de atividade física regular. Tais rotinas, acrescenta, devem ser indicadas e acompanhadas por especialistas. Mas, à medida que o calor anuncia a nova temporada, repete-se o clichê das dietas mirabolantes e dos treinamentos intensivos pressionados pela contagem regressiva para o verão. "Os esforços são preocupantes quando caminham para o excesso", adverte a psicóloga Gina Sordillo, especialista em terapia cognitiva comportamental. Segundo ela, os excessos aumentam a chance não só de problemas físicos, como lesões musculares, mas de distúbios psicológicos:

— Grandes dosagens de vaidade levam indivíduos a sucumbir a distúrbios psicológicos — afirma — Se a conquista do corpo "perfeito" torna-se um objetivo de vida e a imagem que a pessoa vê no espelho passa a ser incompatível com a imagem mental que tem de si própria, fazendo com que se veja com defeitos imaginários, pode estar se instalando um Transtorno Dismórfico Corporal, do grupo dos Transtornos Somatoformes — esclarece a profissional.

Ainda de acordo com a psicóloga, os excessos podem levar a constantes preocupações, sentimentos de intensa dor, falta de concentração decorrente de pensamentos obsessivos, entre outros sintomas. "Se algum tipo de obsessão transforma significativamente a vida do indivíduo na área física, pessoal ou social, pode ser considerado um transtorno psiquiátrico, com prejuízos psicológicos", explica. Para evitar esses transtornos, Gina lembra que é fundamental não substituir o cuidado regular com a saúde por uma rotina radical de “culto ao corpo perfeito”, que também pode prejudicar a vida social.  

 Ingrid Forino Há dois anos, nessa mesma época, o estudante de Desenho Industrial Guilherme Oliveira radicalizou, reconhece, para entrar em forma para o verão. Hoje, aos 22 anos, admite que sua rotina gira em torno da malhação. A conquista da forma desejada custa-lhe um dia a dia puxado. Acorda cedo para treinar e faz refeições de três em três horas, sete por dia.

— Carrego sempre a minha marmita comigo. Não posso ficar muito tempo sem comer. Portanto, se vou a algum lugar, tenho que programar o meu dia 24 horas antes. Se, por algum imprevisto, perco a hora do treino, passo o dia de mau humor  — conta.

Dietas radicais podem causar de fadiga muscular a sonolência

Comer de três em três horas também faz parte dos hábitos da estudante de Publicidade Viviane Soares, de 18 anos, cuja dieta combina proteína, carboidrato e saladas. Na fase mais rígida da rotina alimentar, chegou a consumir 30 claras de ovos por dia, 900 por mês. Nada de doces e frituras, como recomendam os especialistas. Além disso, o carboidrato está proibido no jantar. 

 Agência Brasil Dieta equilibrada exige não só a combinação entre alimentos saudáveis, em intervalos regulares, mas uma conduta parcimoniosa ao adotá-la. Disciplina jamais deve significar opções extremas. Disposta a emagrecer rapidamente, Viviane adotou, no ano passado, uma dieta intensa, sem orientação de nutricionista. Perdeu seis quilos em um mês, mas também perdeu saúde: com a mudança brusca, a estudante ficou dez meses sem menstruar. "Os hormônios ficam desregulados", explica a pós-graduada em nutrição clínica Luanda Crevelario. Ela aponta outros perigos de dietas rigorosas e do uso de substâncias inadequadas no auxílio à perda ou ao ganho de peso:

— Dietas radicais podem causar também fadiga muscular, fraqueza, sonolência, além de carência nutricional — esclarece — O uso indiscriminado de suplementos alimentares, remédios para emagrecimento e até mesmo anabolizantes tem riscos severos, podendo comprometer, por exemplo, a função renal e hepática.

"A combinação perfeita para uma vida mais saudável inclui pratos balanceados", orienta a nutricionista Adriana Bassoul, consultora do Sítio do Moinho, especializado em orgânicos. Segundo ela, deve-se também comer moderadamente e dividir as refeições ao longo do dia. 

— Dê preferência a alimentos orgânicos, saladas, carnes magras ou com boas gorduras, como os peixes. Além disso, coma cinco porções de frutas ao dia, e cuidado com os carboidratos: eles devem fazer parte do dia a dia, mas não misturados em uma mesma refeição — ensina.

Exercícios: "Muitos se sentem preparados e exageram na dose", observa professor  

No combo do Projeto Verão, é relativamente comum os exercícios adquirirem também uma feição radical, movida pela urgência em ficar em forma. Sem a orientação e o acompanhamento de profissional da Educação Física, revela-se ainda maior a chance de se pecar pelo excesso ou de se exercitar da maneira imprópria. Segundo o professor Leonardo Gáspar, "muita gente se acha preparada e tende a exagerar na dose", o que aumenta o risco de lesões:

— É importante fazer uma avaliação física antes de iniciar as atividades e, em seguida, receber as orientações sobbre a maneira correta de se exercitar. Na musculação, por exemplo, prescrevemos uma série diferente para cada indivídio e cada objetivo, seja emagrecer ou ganhar massa muscular, por exemplo. Assim, é indispensável o acompanhamento profissional.

 Ingrid Forino Outro perigo, alerta Gáspar, é "forçar a barra quando o corpo pede descanso". Sinais como fadiga, princípio de gripe ou resfriado e sensação de dor exigem repouso. Tais indicações frequentemente sucumbe ao apelo da meta perseguida: estar em dia com a silhueta desejada até o verão. Assim, prejudica-se a saúde e aumenta-se a possibilidade de lesões. Guilherme admite que, mesmo quando se sente fatigado, dificilmente abdica de um dia de treino:

— Se não for o caso de intervenção médica, me recuso a deixar de fazer musculação. Mesmo quando estou gripado ou com uma dor no ombro, a minha disciplina de treinar de segunda a sábado é sagrada.

Gáspar esclarece que se exercitar com uma articulação dolorida não só atrasa a recuperação física, como agrava a lesão latente e diminiu o rendimento do treino. O excesso, que se confunde com teimosia, também tende a preocupar familiares e amigos e a atrapalhar a vida social. Em nome da dieta intensa, Viviane já brigou com o pais e os colegas. Em circunstâncias semelhantes, Guilherme se diz julgado (e condenado) pelos amigos, mas argumenta:

— Sou chamado de maluco o tempo todo. Maluquice é se matar todos os dias bebendo cerveja e comendo salgadinho.

Para Gina, a palavra-chave é equilíbrio: 

 Ingrid Forino — Todo exagero é negativo. A vida boêmia é prejudicial especialmente para quem pratica esportes e atividades físicas. Mas não vejo problema em sair da rotina de vez em quando. A vida social precisa existir, evitando-se os excessos.

Prazer é uma das chaves para a atividade física regular

Com a proximidade do verão, multiplicam-se nas redes sociais sugestões de dietas e treinos. A maioria publicada de forma despretensiosa,  como estímulo ao ingresso no mundo do fitness. Priscila alerta que, apesar das boas intenções, as táticas expostas não devem ser aplicadas como receitas de bolo, sob o risco de incompatibilidade com as particularidades e os propósitos individuais — o que levaria, na melhor das hipóteses, a resultados decepcionantes; na pior, a perda de saúde. A professora diz que, além da prescrição e do acompanhamento especializados, o segredo é ir com calma e fazer das práticas saudáveis um hábito:

— Não se obrigue a praticar uma atividade física da qual você não gosta, mas “tem que fazer”. Há milhares de formas de mover o corpo e conquistar os seus objetivos. É importante encontrar uma modalidade que nos dê prazer em praticar.

A paisagem carioca também ajuda, completa Priscila. O cenário de cartão-postal induz a práticas ao ar livre, desde danças até caminhadas ecológicas e o SUP (Stand Up Paddle), que, no entanto, também devem receber orientação especializada. Ele reforça a importância da pausa numa rotina de exercios. “Descanso também é treino”, sintetiza. 

— Ficar cinco horas todos os dias dentro da academia não vai garantir que as gordurinhas desapareçam. Só aumenta a possibilidade de ter que interromper o seu “projeto verão” no meio, devido a uma lesão. A recuperação é essencial para que o treino seja feito da forma correta — justifica.