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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2017


País

Sem holofotes do legado urbano, herança esportiva dos Jogos está longe do prometido

Paula Bastos Araripe* - Do Portal

24/02/2016

 Thayana Pelluso

A menos de seis meses dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, o Rio entra na reta final dos ajustes para receber meio milhão de visitantes e mais de 13 mil atletas. Quando setembro passar, a festa esportiva dará lugar ao inventário das heranças ao país e à cidade. Obras de urbanização e mobilidade, como a reforma do Porto e a ampliação do metrô formam o carro-chefe do legado. Consumirão, segundo o Plano de Políticas Públicas, quase R$ 25 bilhões, aproximadamente 60% do orçamento olímpico, a maior parte proveniente da iniciativa privada. Embora alguns compromissos tenham ficado pelo caminho, em especial a despoluição de 80% da Baía de Guanabara, analistas confiam num saldo positivo à estrutura urbana e ao esporte. Para concretizá-lo, ressalvam, é preciso converter a maré olímpica no amadurecimento também das políticas esportivas, sobretudos as relacionadas à inclusão social e à formação de talentos. 

Leia mais: Legado olímpico exige mais atenção social, alertam analistas

O pesquisador Leonardo Mataruna, integrante do grupo LonRio da universidade inglesa Conventry, encarregado de estudar a transferência do legado social dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres para o Rio, acredita no aproveitamento inteligente das instalações esportivas. Algumas virarão centros de treinamento. Ele torce para que, desta vez, as arenas sejam mais utilizadas pelos cariocas do as deixadas pelo Pan de 2007. "Isso depende da preservação dos espaços", alerta.

– Em Londres, transformaram o parque aquático numa piscina pública onde as pessoas contribuem com uma quantia irrisória para poder frequentar e fazer aula de natação. Exemplos assim podem ser seguidos no Brasil – compara o pesquisador da universidade inglesa.

Mataruna lembra que o lazer, a saúde e a educação são os pilares do esporte. Portanto, diz ele, devem ser contemplados pelas diferentes formas de legado, a começar pelo aperfeiçoamento de leis e incentivos para disseminar a prática de várias modalidades esportivas no ambiente escolar:

– As escolas brasileiras, infelizmente, ainda ficam restritas ao quarteto fantástico, os quatro esportes tradicionais de bola: vôlei, basquete, futebol e handebol. Enquanto isso, há outras modalidades que poderiam ser facilmente empregadas na educação escolar em função do baixo custo e até da facilidade pedagógica. Um exemplo é o badminton, que começou a ser explorado, com sucesso, em escolas do Rio e no Nordeste.

 Paula Bastos Araripe

Ainda de acordo com o especialista, outra contribuição importante dos Jogos incide sobre o estímulo da população para adotar práticas regulares de atividades esportivas, sob a orientação de profissionais de educação física. A Rio 2016 contagiaria os brasileiros em torno de rotinas mais ativas, benéficas à qualidade de vida. O avanço dependeria, entretanto, da ampliação na oferta de “atividades físicas prazerosas e diversificadas ao alcance de todos”, pondera o pesquisador. Eles arremata:

–  É preciso oferecer demandas de acordo com as expectativas de quem mora perto dos eventos e envolver o restante da cidade, de maneira a todos se sentirem parte dos Jogos. Um megaevento desse porte não pode ser visto só nos 15 dias de prova. É preciso que seus benefícios se estendam por 30 anos.

O professor emérito da Universidade do Colorado Jay Coakley, especialista em sociologia do esporte, se mostra cético quanto o potencial da herança olímpica. Ele argumenta que as instalações são criadas “mais para os espectadores que para o uso diário depois dos Jogos, principalmente porque não costumam ficar em locais acessíveis à população”.

 – A menos que haja uma estrutura eficiente já planejada para engajar os jovens nas práticas esportivas, os Jogos não legam oportunidades significativas para transformar essa motivação em efetiva participação no esporte. As mesmas barreiras que existiam antes dos Jogos vão continuar. Isso inclui, por exemplo, falta de transporte público até centros de treino e de mão de obra especializada para tornar acessíveis esportes incomuns na cultura local. Falta de uma relação melhor entre os projetos esportivos e o dia a dia dos praticantes em potencial – avalia.

O professor lembra que até hoje nenhuma Olimpíada resultou em ganho de participação em esportes no país-sede. Talvez porque, pondera Coakley, como os Jogos “consomem muitos recursos, sobrem pouca energia e pouco dinheiro” para transformá-los num vetor de avanço na qualidade de vida da população por meio do esporte:

– As pessoas podem festejar com os Jogos, mas raramente sentem a necessidade de se tornarem mais ativas. Os jovens podem se interessar pelo esporte ao ver as conquistas, mas os Jogos frequentemente passam a ideia equivocada de que o triunfo é obtido com relativa facilidade.

 Divulgação Transforma

Pelo menos uma iniciativa desafia o diagnóstico, ou prognóstico, de Coakley. Desde 2013 o Transforma, programa educacional dos Jogos Olímpicos, oferece material didático sobre os esportes e capacitação para o ensino de modalidades olímpicos e paralímpicas. O gerente de Educação do Comitê Rio 2016, Vanderson Berbat, esclarece que o objetivo principal é estimular a atividade física entre os estudantes brasileiros. Não busca a formação atletas de alto rendimento, mas o desenvolvimento de hábitos saudáveis.

– Quando uma criança faz algo obrigado, a tendência é deixar de lado. Por isso, espera-se que, ao introduzir novos esportes, o programa seja sinônimo de uma experiência positiva, de maneira que levem essas práticas para o resto da vida. O esporte, na invenção dos Jogos Olímpicos Modernos pelo Barão Pierre de Coubertin, não era tido como a finalidade, mas como um meio para o desenvolvimento de uma vida ativa e saudável – compara Berbat.

Embora não seja o objetivo principal do Transforma, o garimpo de novos talentos torna-se “uma consequência natural”. Habilitados diretamente pelas confederações das modalidades esportivas, os professores podem identificar jovens propensos à carreira esportiva e encaminhá-los para centros profissionais. A maioria, no entanto, não se tornará atleta de ponta. “Daí a importância do foco na saúde e na inclusão”, completa o executivo.

 Divulgação Transforma

– A gente tem recebido depoimentos importantes no processo de monitoramento. Os professores das escolas integrantes do programa dizem que mais crianças passaram a participar das aulas de educação física. Ao se introduzir um esporte novo, há uma igualdade de condição, sem ninguém ter vantagem de conhecer o jogo. Isso incentiva uma maior participação dos alunos – constata.

Berbat garante que o programa seguirá depois dos Jogos, por meio de parcerias com universidades para capacitar alunos de educação física. Além disso, todo o material didático online do programa irá para o site do Ministério da Educação no fim do evento.

Assim como as obras de urbanização e mobilidade correm para cumprir o prazo olímpico – o governo municipal nega que a ampliação do metrô não ficará pronta até os Jogos, conforme especulado – o Transforma também precisa acelerar para chegar às metas projetadas. Está longe ainda de atender as 20 mil escolas e os 7 milhões de alunos no país previstos até agosto. No fim do ano passado, contemplava 3 mil escolas e 3 milhões de estudantes.

Outra inciativa voltada a potencializar a oferta de esporte nas escolas públicas é a expansão do Programa Segundo Tempo prometida em 2009, pelo Ministério do Esporte, no Dossiê de Candidatura do Rio de Janeiro. O legado esportivo para os jovens foi um dos principais pontos do texto, segundo o qual o programa atenderia mais de 3 milhões de crianças até 2016. Segundo estimativa oficial, hoje o volume de estudantes contemplados beira 4 milhões.

 Paula Bastos Araripe

Esporte para abrir portas

Decidido a amplificar os benefícios do esporte, o professor de psicologia da PUC-Rio Raphael Zaremba, fundou, em 2000, a VemSer – Esporte & Psicologia. Com o propósito de reduzir a evasão escolar, a ONG oferece aulas de basquete gratuitas para meninas de escolas públicas. Em contrapartida, exige que elas frequentem a escola e mantenham bom desempenho acadêmico. A ideia nasceu quando Zaremba trabalhava como psicólogo numa equipe esportiva. Ele conta que se inspirou na “importância do esporte em sua vida, quando jogava basquete”, e na esperança de “fazer por outras pessoas o que fizeram” por ele:

– Quando comecei a pensar o projeto, por mais que seja um projeto esportivo, a proposta sempre foi educacional. Como as meninas querem continuar praticando, elas acabam se empenhando mais na escola. Além do mais, o esporte desenvolve habilidades como raciocínio lógico e tomada de decisão, e isso contribui para o desempenho em aula. A gente percebe que o rendimento escolar delas melhora.

Algumas estudantes conseguiram, por meio do esporte, bolsas em escolas particulares. Três delas ganharam bolsas de estudo do exterior, como no College of Central Florida e Northwest College, nos Estados Unidos, e na Royal Holloway, na Inglaterra. Zaremba acredita que os Jogos Olímpicos impulsionem mais jovens a buscar o esporte como passaporte a uma melhor vida social e educacional:

– Torço para que as Olimpíadas sirvam como fonte de motivação para as pessoas buscarem mais o esporte. A gente vai ter os melhores atletas do mundo aqui, na nossa cidade. Só que hoje, a seis meses dos Jogos, infelizmente não vemos um aumento significativo nem dos investimentos na iniciação esportiva nem da procura por práticas esportivas.

Francisca Aline Rodrigues, de 27 anos, participou da VemSer dos 13 aos 17 anos. Formada em psicologia pela PUC-Rio, ela afirma que o “ambiente competitivo é bastante pedagógico”: a experiência a ensinou a “tomar decisões, planejar bem e ter disciplina”. Aline considera que, apesar do êxito de ações do gênero e de projetos sociais centrados no esporte, o país ainda carece de uma cultura esportiva.

– A alimentação equilibrada, o alongamento, a respiração, a concentração e o controle da ansiedade são cuidados que adquiri e sigo até hoje. Sempre me mantive uma regularidade em atividades como caminhadas, trilhas, malhação, pilates e até zumba. Formei uma cultura esportiva, que se tornou obrigatória na minha vida – destaca.

Leia mais: Jovens atletas sofrem em busca de profissionalização

 Arquivo Pessoal

Ao lado da socialização, da inclusão social e da contribuição ao desempenho acadêmico, um dos maiores benefícios da prática esportiva regular, reforçam os profissionais da área, dirigem-se à saúde. Depois de que começou a jogar rúgbi, em 2012, “para perder peso”, a estudante de jornalismo da PUC-Rio Letícia Olivares conta que o esporte tornou-se uma parte representativa, e agradável, da rotina:

– Fiquei mais disciplinada, por conta do compromisso com o time (de rúgbi). Eu era aquela adolescente que curtia a noitada, até duas vezes num fim de semana. Com o rúgbi, tive que maneirar. Hoje o esporte domina 60% ou mais do meu dia a dia. O restante do tempo passo ou na faculdade ou dormindo.

Atleta do Niterói Rugby Football Clube, Letícia jogava futebol, mas largou depois de conhecer a nova modalidade. Ela treina com jogadoras da seleção brasileira, o que é “muito estimulante”. Mas, por ora, descarta uma carreira no rúgbi:

– Viver de esporte no Brasil ainda é difícil. Penso várias vezes no momento em que terei que parar de jogar para seguir a carreira profissional. Não tenho como me sustentar só jogando, e treinar em alto nível requer muita dedicação e tempo.

A dificuldade para arcar com os custos do esporte mantém-se um obstáculo comum entre os jovens atletas no país. A também estudante de Comunicação e nadadora Natalia Almeida, de 18 anos, não é exceção. Atleta do Flamengo, ela procura patrocínio para amenizar o “alto custo dos materiais de treino e competição”, fora o gasto com os dois ônibus que pega para chegar ao clube.  

– Essas dificuldades criam uma pressão psicológica que ameaçam o rendimento. Já pensei em desistir. Mas, ao mesmo tempo, tento me superar. O incentivo da minha família também favorece, até porque estamos todos no meio. A minha mãe fazia remo quando tinha a minha idade. Meu pai trabalha com futebol e meus irmãos também praticam esportes.

 Arquivo Pessoal

Nadador: “Cultura do resultado antes do apoio”

Ainda na natação, a falta de apoio financeiro aos clubes de Brasília fez com que Ícaro Ludgero, de 19 anos, passasse a representar, desde 2013, o Fluminense. O clube carioca arca com os custos do nadador, inclusive os de viagens, mesmo que a mais de mil quilômetros do Rio. Ele também recebe uma bolsa-atleta, que inclui orçamento para nutricionista e preparador físico.

– Hoje, com o auxílio, está mais fácil viver de esporte. Mas no começo é bem difícil. Aqui no Brasil temos uma cultura do resultado antes do apoio. Antes de conseguir algum tipo de incentivo, o atleta é obrigado a mostrar resultados. Só depois disso vem o apoio dos clubes e do governo – avalia.

Graças à bolsa, Ícaro concilia a maratona de treinos com o curso de educação física na Universidade de Brasília. Garante que, apesar do convívio com o alto de desempenho, ainda vê o esporte como diversão, não como obrigação. Por isso, diz o nadador, nunca pensou em desistir. Também torce para que os Jogos Olímpicos abram novas portas, novos incentivos (público e privados) ao esporte.

* Colaborou Thayana Pelluso