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Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2017


País

Rio 2016: Brasil está pronto para conter terrorismo, diz secretário

Gustavo Côrtes - Do Portal

27/11/2015

 Divulgação/IsaacAmorim

Integração é a palavra de ordem entre os representantes das cerca de 20 organizações federais, estaduais e municipais envolvidas na proteção aos Jogos Olímpicos do próximo ano. Do ministro José Eduardo Cardoso e da secretária Nacional de Segurança Pública, Regina Miki, ao CEO da Rio 2016, Sidney Levy, os discursos alinham-se quanto à importância decisiva do alinhamento dessas insituições, acima de vaidades e tinturas políticas, ao compromisso de imunizar a primeira Olimpíada na América do Sul de ameaças como a violência estampada nos 4.610 homicídios cometidos no estado do Rio em 2014 e ataques terroristas. Risco para o qual acordam autoridades nacionais e internacionais, desde a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) até a Interpol, depois da chacina imposta pelo Estado Islâmico a Paris. "O Brasil não é alvo preferencial de terroristas, mas vai receber representantes desses alvos preferenciais", lembra o professor de Relações Internacionais da PUC-Rio, Luís Manoel Fernandes.

Embora a integração policial esteja acertada nos discursos e nas estratégias recentemente apresentadas em reuniões oficiais, o ministro do Tribunal de Contas da União alertou, no seminário Briefing internacional de segurança para os Jogos de 2016, quarta-feira passada, no Rio, que a prevenção a atentados como o que matou 130 e feriu 350 na capital francesa exige uma melhor cooordenação de esforços no patrulhamento das fronteiras. Já o secretário extraordinário de Segurança para Grandes Eventos, do Ministério da Justiça, Andrei Rodrigues, assegura que o Brasil, mesmo sem tradição na área, já está preparado para "dar a melhor resposta possível ao que hoje é a nossa prioridade número um: o terrorismo". Em entrevista ao Portal PUC-Rio Digital, ele afirma que estamos "no mesmo nível dos principais países" graças a cooperações internas e externas: "Depois do atentado na França, houve o recolhimento de dados que alimentam o nosso planejamento. O Brasil, também por intermédio da Polícia Fderal, participa da Interpol, na qual estão integrados 190 países, os quais compartilham informações. Fizemos reuniões bilaterais com os Estados Unidos, por exemplo". Tais cooperações vão convergir, no próximo ano, para o Centro Integrado de Enfrentamento ao Terrorismo (CIET). Rodrigues confia que, somadas aos 85 mil agentes destacados para os Jogos, sejam suficientes para dirimir a sombra do terror sobre uma competição em torno da qual orbitam 10 mil atletas, de mais de 200 países, 70 mil voluntários, 30 mil jornalistas e meio milhão de visitantes.

Portal: Que lições da Copa do Mundo se aplicam à segurança dos Jogos Olímpicos, em especial à prevenção contra o terrorismo?

Andrei Rodrigues: O principal aprendizado, não só da Copa, mas da Copa das Confederações, da Jornada Mundial da Juventude e da Rio+20, é o processo de integração dos órgãos de segurança inerente à organização de qualquer grande evento. Para mim, este é o principal legado, que vai muito além do legado material de investimentos feitos na cidade. O processo surgiu como uma necessidade, e hoje é uma obrigação.

Portal: Como esse legado de integração se aplica no plano de segurança dos Jogos?

Rodrigues: Temos mais de 20 organismos trabalhando juntos, com iniciativas que não restringem apenas a situações excepcionais. Mas há diferenças gritantes entre a Copa e os Jogos Olímpicos, que têm dimensões distintas. O Mundial reuniu 32 países e cerca de 800 atletas. Apesar de complexas, as partidas eram únicas e envolviam apenas duas delegações e um estádio. As Olimpíadas equivalem a duas Copas: uma masculina e uma feminina, mais 40 outros campeonatos mundiais. Por isso, haverá 205 países, mais de 10 mil atletas, mais de 70 mil voluntários, mais de 30 mil jornalistas e quase 50 mil servidores de segurança pública. Além disso, teremos mais de 50 locais de treino, hospedagem e competição. Tudo concentrado no Rio, fora alguns jogos de futebol, disputados em outras cidades. Portanto, os Jogos Olímpicos são maiores, mais intensos.

Portal: Fora as 20 organizações federais, estaduais e municipais envolvidas no plano de segurança integrada para os Jogos, vocês se articulam com especialistas associados à segurança de outras Olimpíadas? Que referências internacionais servem de modelo?

Rodrigues: Em nossas visitas a diversos países, procuramos, mais do que o contato com especialistas, observar os eventos como um todo e estabelecer parcerias. Fomos, por exemplo, à Copa do Mundo da África do Sul (2010), às Olimpíadas de Londres (2012), ao Pan-Americano de Toronto (2015) e à Assembleia Geral da ONU. Lá conhecemos as práticas e os modelos de segurança aplicados, para adequá-los à nossa realidade. Além disso, verificamos que a estrutura brasileira não deixa a desejar em relação às de outros lugares.

Portal: Mas os recentes atentados terroristas, sobretudo o de Paris, deflagraram uma mobilização, até de organizações internacionais, como a Interpol, em torno do reforço à prevenção contra ataques do gênero durante os Jogos. Ainda assim, vocês reiteraram que o esquema de segurança, para o qual já estava previsto o Centro Integrado de Enfrentamento ao Terrorismo (CIET), será mantido. Este plano é suficiente para compensar a falta de experiência do Brasil na prevenção a ataques terroristas?

Rodrigues: O que nos dá segurança é o fato de o Brasil estar adotando todas as melhores práticas globais de enfrentamento ao terrorismo e estar instituindo um centro específico antiterrorismo, no qual congregaremos policiais de diversos países, que estão aqui no Brasil cooperando conosco na área de inteligência policial voltada ao combate ao terror. Isso se soma ao já existente Centro de Cooperação Policial Internacional, que constitui um ambiente de apoio para todos os temas de segurança. Temos também diversas ações de capacitação de policiais e de intercâmbio internacional.

Portal: Como funciona este intercâmbio?

Rodrigues: A Polícia Federal tem parcerias com mais de 20 países, acompanhando e trazendo informações permanentemente para os seus sistemas de inteligência, que pautam a nossa preparação. Um exemplo foi o curso de qualificação dado por policiais franceses.

Portal: O que mudou ou vai mudar, nesta preparacação, com o recente atentado em Paris?

Rodrigues: Depois do atentado na França, já houve o recolhimento de dados que alimentam o nosso planejamento. O Brasil, também por intermédio da Polícia Federal, participa da Interpol, na qual estão integrados 190 países, os quais compartilham informações. Fizemos reuniões bilaterais com os Estados Unidos; estivemos, a convite do Departamento de Estado Americano, no Serviço Secreto e no FBI, onde participamos de uma palestra, que contou inclusive com a presença do Secretário de Estado John Carry. Considerando tudo isso, não há motivos para mudança de estratégia.

Portal: Outra preocupação, esta crônica, refere-se à violência no Rio. O estado somou, no ano passado, 4.610 homícios, 28 por 100 mil habitantes, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) do Ministério da Justiça. Como o plano para as Olimpíadas contempla a prevenção aos riscos evidenciados por este levantamento? 

Rodrigues: O fato de o Rio sediar grandes competições e ganhar tradição em eventos desta magnitude nos deu certo conforto. Todos os anos o Rio atrai milhões de turistas no Ano Novo e no carnaval, a maior festa cultural do mundo. Além do mais, a cidade foi bem-sucedida nas recentes recepções, como a Jornada Mundial da Juventude e a Copa. Nossa preocupação é em relação a tudo que um evento como esse atrai. Obviamente, estaremos atentos a todos os pontos que representam riscos à segurança.

Portal: Mas que medidas estão associadas à violência cotidiana da cidade, como as provocadas pelo tráfico de drogas e os assaltos?

Rodrigues: Temos, para grandes eventos, e eu posso falar com segurança, toda uma dinâmica estruturada para isso. Temos pessoas trabalhando em setores específicos, como segurança dos atletas, segurança viária, policiamento ostensivo, segurança cibernética, entre outros, sempre trabalhando com as instituições de competência legal. Temos mapeados todos os principais riscos. A partir desse mapeamento, estruturamos os planos de segurança. Portanto, todas as medidas adicionais que poderiam ser tomadas são inerentes à realização de um evento como esse. 

Portal: Secretário, caso haja necessidade, o Brasil será capaz de desarticular um atentado como o que deixou 130 mortos e mais de 300 feridos em Paris?

Rodrigues: O Brasil já é capaz de dar a melhor resposta possível ao que hoje é a nossa prioridade número um: o terrorismo. A preparação está se intensificando conforme a proximidade das competições, mas somo capazes de dar as repostas no mesmo nível dos principais países. Obviamente, a melhor medida é a prevenção. Porém, caso não se consiga evitar uma ocorrência, estamos preparados, em qualquer eixo de ação, para reagir imediatamente no melhor nível existente no mundo. Então, o Brasil, eu posso afirmar, está preparado para atuar em segurança de grandes eventos, e já mostrou isso.

Portal: Haverá participação do setor privado no conjunto de 85 mil agentes escalados para a segurança durante os Jogos?

Rodrigues: Não. No período entre um mês antes do início dos Jogos até o seu término, não haverá emprego de segurança privadanos nos locais de competição, treinamento e hospedagem. A segurança será 100% pública. Para isso, serão contratados 47 mil funcionários, os quais se responsabilizarão pela segurança.