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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2017


País

Realidade política do país desafia papel do movimento estudantil

Ligia Lopes, Monique Rangel e Rodrigo Serpellone* - Do Portal

18/12/2012

 Arte: Eduardo Ribeiro

Sempre presente em momentos marcantes da história recente do país, a União Nacional dos Estudantes (UNE) chegou aos 75 anos em 2012. Berço da formação de gerações, a organização já teve em seus quadros nomes que ganhariam expressão política, como o ex-ministro e governador José Serra e o senador Lindbergh Farias; e cultural, como o poeta Ferreira Gullar e os cineastas Arnaldo Jabor e Cacá Diegues. Por um motivo ou por outro, todos os ex-militantes do movimento estudantil entrevistados pelo Portal concordam: “Os tempos são outros”.

Ao analisar o movimento estudantil de ontem e hoje, o jornalista Arthur Poerner, autor de O poder jovem – livro lançado em 1968 e proibido pelo AI-5 junto com títulos de Che Guevara e Mao Tsé Tung –, afirma: “A vontade de mudar o mundo é a mesma”. Já o cineasta e professor Silvio Tendler, diretor de dois documentários sobre a UNE, considera que a entidade se tornou “um bom negócio”.

As bodas de diamante chegam em um momento controverso. Além das acusações de adesão incondicional ao governo, desde a posse do petista Luiz Inácio Lula da Silva, a UNE e a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes) estão sendo investigadas por indícios de irregularidades em convênios do governo federal apontadas pelo Ministério Público. Entre 2006 e 2010, as instituições receberam verba de R$ 2 milhões, destinada à promoção de eventos culturais e esportivos. O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou o uso de notas fiscais frias para comprovar gastos da UNE.

 Vitor Vogel O atual presidente da UNE, Daniel Iliescu, nega as acusações e afirma que a instituição tem “total independência, seja política ou financeira, diante de qualquer governo ou partido”.

Em nota oficial, a entidade alega que o dinheiro utilizado para comprar bebidas alcoólicas não foi público. A partir deste mês, a UNE também passou a disponibilizar seu balanço financeiro no site, a cada dia 10.

– Está tudo em dia porque prestamos contas. A investigação também acusou outros movimentos sociais. Com a gente, até onde estou sabendo, não tem mais nada, já está tudo esclarecido e em ordem –acrescenta a vice-presidente da instituição, Clarissa da Cunha, aluna de Ciências Sociais da PUC-Rio.

Sobre as críticas de que a União dos Estudantes não desempenhou no julgamento do mensalão o mesmo papel do que em outras ocasiões, como o “Fora, Collor”, o presidente da entidade afirma que, desde a sua fundação, em 11 de agosto de 1937, “não houve um acontecimento importante no país em que a entidade não estivesse presente”. Daniel Iliescu acrescenta:

– É bom deixar claro que a UNE não tolera e nunca tolerará qualquer tipo de corrupção. Condenamos essa prática na política. Apoiamos sim todas as mobilizações pela apuração e, caso sejam comprovadas as irregularidades, pela punição.

 Luísa Nolasco Para Tendler, que dirigiu os documentários Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil e O afeto que se encerra em nosso peito juvenil – lançados nos 70 anos da UNE –, o movimento estudantil, que teoricamente tem raízes de esquerda, foi “paternalizado”:

– O problema foi a partidarização da UNE. Ela tem uma importância transcendental para o movimento estudantil. Todos os partidos querem controlá-la e, geralmente, sempre há a hegemonia de algum.

Presidente da entidade durante a campanha pelo impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, e agora senador pelo PT-RJ, Lindbergh Farias considera que “muitas das críticas à UNE são pertinentes porque ela não pode ser o braço de um partido, e sim a cara dos estudantes”. Mas pondera que se deve ter em mente o contexto atual: Eduardo Ribeiro

– A UNE sempre ocupou espaço quando o momento histórico propiciou. Quando foi preciso, os estudantes foram às ruas, nas grandes crises. Mas não estamos vivendo isso.

Para a ex-presidente Lúcia Stumpf (de 2007 a 2009), o que vem acontecendo nos governos de Lula e Dilma é uma maior convergência de pautas com as demandas da UNE:

– Dizer que a UNE se tornou chapa-branca é uma crítica infundada. A UNE é constituída por representantes das mais variadas opiniões políticas, e não existe uma postura de subserviência a qualquer governo que justifique o rótulo.

O jornalista Arthur Poerner acredita que não há mais espaço para utopias como as da década de 60, “porque o capitalismo tornou as pessoas mais individualistas e pragmáticas”. Segundo ele, com a redemocratização, a UNE deixou de ser hegemônica porque passou a dividir a cena política com outras entidades, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST):

– A repressão da ditadura estimulava a manifestação. Havia um inimigo. Hoje a UNE tem um diálogo direto com o Executivo nacional. É diferente, não precisa protestar em muitas ocasiões, porque há o contato direto. Em governos anteriores não era assim.

A mudança no perfil dos estudantes não foi apenas comportamental. Se em 1965 o Brasil tinha 325 mil universitários, atualmente há mais de 6,7 milhões, segundo o Censo da Educação Superior. Os programas de bolsa, o aumento do número de universidades privadas, a expansão dos cursos noturnos e a interiorização das universidades públicas tornaram mais acessível o ensino superior. Segundo a atual vice-presidente da UNE, esta pluralidade aumentou o desafio da entidade, que segundo ela se esforça para acompanhar a realidade do novo estudante:

– Quando o estudante diz: “Não tenho condição de pagar alimentação e transporte”, a UNE trabalha junto para pressionar, às vezes em escalas superiores – afirma Clarissa.

Conquista de verbas para educação

A UNE termina o ano celebrando a conquista de uma de suas principais bandeiras: verbas para o ensino público. Em novembro foi aprovada Medida Provisória que repassará à educação 100% dos royalties do petróleo e 50% do fundo social do pré-sal, a partir de 2013.

– Com esse aporte de recursos no orçamento da educação, poderemos conquistar mais assistência estudantil, mais moradia e restaurantes universitários, ampliar a oferta de pesquisa e extensão, melhorar as estruturas das universidades e conquistar o acesso pleno dos jovens ao ensino superior. Além da valorização e qualificação maior dos nossos professores – planeja o presidente, Daniel Iliescu.

“Isso foi uma grande vitória desta gestão, para os nossos filhos, nosso país e o desenvolvimento”, afirma Clarissa.

A UNE seguirá com a luta para que 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do país seja destinado à educação além de debater a necessidade de uma “melhora nas instituições privadas e na estrutura acadêmica”.

– Querer dinheiro para a educação é importante, mas pensar no conteúdo acadêmico que está sendo produzido também é. Queremos que ele seja voltado para um olhar social, para a sociedade, contra o racismo, a homofobia e o machismo – defende Clarissa.

Mobilização 2.0

Presidente da UNE entre 1961 e 1962, Aldo Arantes acredita que as redes sociais são a melhor forma de a juventude se unir: Arquivo pessoal de Aldo Arantes 

– A internet é o progresso na mobilização. Se na época usávamos o Centro Popular de Cultura, que tinha como objetivo a arte para promover a revolução social; e a UNE Volante, caravana que percorreu o país para promover debates de cunho político e cultural, hoje devemos encontrar as formas modernas.

Já o cineasta Cacá Diegues, contemporâneo de Arantes na militância, acredita que falta à UNE encontrar novas formas de atuação.

– Acho que a UNE tem dificuldade de encontrar seu caminho de participação no Brasil de hoje. Mas a culpa não é bem dela, é mais relacionado com o sentido atual da universidade – diz Cacá, lembrando que a militância nos anos 1960 era mais concreta, “um corpo a corpo com a realidade nas ruas diante dos nossos olhos”.

Os 75 anos de ação política

Para Cacá, a UNE era um centro de atração, onde "uma grande convergência política fez reunir de católicos a comunistas num projeto nacional".

Um dos momentos mais marcantes da história da entidade foi quando atearam fogo na sede, em 1964, avalia Bruno Lourenço, tesoureiro do DCE e estudante de direito da PUC-Rio, que nasceu em abril de 1991, 27 anos depois. Na madrugada de 31 de março para 1° de abril, militares que tomaram o poder destituindo João Goulart invadem o prédio, sob protestos dos estudantes.

Em depoimento ao documentário de Tendler, o então presidente da UNE, José Serra, lembra o comício a favor das reformas de Base e da liberdade democrática, realizado dias antes, em 13 de março, na Central do Brasil, reunindo 200 mil pessoas. “O tom do discurso era de mobilização contra o golpe, mas deu uma dimensão de poder que a UNE não tinha”, avalia Serra, que participou do comício da Central ao lado de João Goulart e Leonel Brizola.

– Com o regime militar, os sindicatos foram fechados e as únicas forças que restaram organizadas para lutar contra a ditadura foram os intelectuais, artistas, escritores, jornalistas e estudantes. E, mesmo com a União Nacional dos Estudantes fechada, a resistência continuou – lembra Tendler, que tinha 14 anos na época.

 Arquivo Pessoal de Arthur Poerner Em 1968, houve o primeiro assassinato de um estudante pela ditadura. O paraense Edson Luís de Lima Souto, de 17 anos, que cursava o supletivo no Rio, foi morto pela polícia quando protestava contra o alto preço da comida no Restaurante Central dos Estudantes, no Centro. Conhecido como Calabouço, o bandejão era foco de agitação estudantil. O corpo de Edson Luís foi levado por estudantes até a Assembleia Legislativa, onde ocorreu o velório e, de lá, em passeata, para o Cemitério João Batista por mais de 50 mil pessoas, na primeira mobilização popular contra o governo militar.

– Estive presente na morte e no enterro do Edson Luís. E até hoje sempre vou a passeatas lutar por um direito que é nosso. Sou do movimento estudantil de 64 e 68. Se for comparar com agora, a militância da juventude precisa melhorar – compara o assistente social Olímpio Pinheiro, de 64 anos, que participou da passeata “Veta, Dilma” em novembro.

Presente à mesma passeata, Gabriel Lopes, de 19 anos, diretor da União da Juventude Socialista (UJS), diverge da opinião do veterano e disse acreditar que os estudantes atuam fortemente por uma melhora na vida política do país:

– Estou com 150 alunos de várias escolas do Ensino Médio. Os jovens têm a capacidade de se organizar hoje em dia. Infelizmente, é a mídia que dá a impressão contrária, ao não divulgar nossos projetos.

Antes da ditadura, o movimento estudantil já demonstrava capacidade de mobilização e influência no cenário político nacional. Em 1937, a UNE organizou uma passeata que contou com carros, galinhas pintadas de verde e estudantes fantasiados para ridicularizar o nazifacismo. A pressão funcionou e o presidente Getúlio Vargas, apesar da simpatia por regimes totalitários, se posicionou contra o Eixo.

– Até os anos 80, vivemos uma vida muito politizada. Lutamos contra a ditadura, pela Anistia e pelas Diretas Já – recorda Silvio Tendler, 62 anos, que votou para presidente pela primeira vez aos 39.

Vinte anos após liderar os “caras pintadas” pelo impeachment de Collor, as lembranças da participação política na juventude também enchem de orgulho o senador Lindbergh Farias:

– As primeiras eleições diretas no país aconteceram em 1989. Aí houve a vitória do Collor, seguida de uma decepção no governo. 

 Arquivo pessoal Para Lúcia Stumpf, “a rebeldia da juventude é o motor da luta estudantil”:

– Não foram poucos os protestos, passeatas e lutas que a UNE protagonizou desde 1992, ano do “Fora, Collor”, até hoje. As greves no governo de Fernando Henrique Cardoso impediram a privatização do ensino público, e as lutas a favor das cotas sociais resultaram na atual lei federal.

Arte pela utopia

Teatro, cinema, música e poesia como meios para levar a conscientização política a todos, em especial aos mais pobres. Este foi objetivo do Centro Popular de Cultura (CPC), criado em 1961, do qual já participaram Ferreira Gullar, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, dentre outros personagens da cultura brasileira.

– O cinema novo foi formado simultaneamente ao CPC, que reunia a juventude universitária em torno de todas as formas de arte, inclusive o cinema – lembra Cacá.

Para o cineasta que, na década de 1960, cursava direito na PUC-Rio e era presidente do Centro Acadêmico Eduardo Lustosa (Cael), “a UNE era um centro de atração, onde uma grande convergência política reuniu de católicos a comunistas em um projeto nacional”. Foi na PUC que o atual diretor-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas e Defesa do Meio Ambiente (INMA), Aldo Arantes, conheceu Cacá e outros militantes. Ele se tornou presidente do DCE e depois da UNE, devido à grande importância que o diretório da universidade tinha no movimento estudantil. Em sua gestão surgiu a UNE Volante e o CPC: Arquivo pessoal de Aldo Arantes 

– Na UNE Volante, 25 pessoas – 20 do CPC e cinco da UNE – percorriam todas as capitais. Eram realizados eventos culturais, música e teatro em um processo de mobilização muito grande.

Com raízes fincadas na tradição do CPC, a entidade está às vésperas da realização da 8ª Bienal, em Recife e Olinda entre os dias 22 e 26 de janeiro. Dentre as ações, a UNE promove o Circuito Universitário de Cultura e Arte (Cuca) e, nas bienais, as Culturatas, mistura de passeatas e manifestações culturais. “Na Bienal de Cultura, os estudantes inscrevem suas produções, de bandas, de shows, produções artísticas e artes plásticas”, explica Clarissa da Cunha.

Cinquenta anos depois da criação do Centro Popular de Cultura, Silvio Tendler critica a postura da entidade que, para ele, “infelizmente, virou um bom negocio”. Para o futuro da arte engajada, Tendler aposta na juventude da periferia, diferentemente do período pré-64, em que a cultura era encabeçada pela classe média: “Quem vai fazer o novo cinema novo é o garoto pobre com um telefone celular ou uma câmera”.

O papel dos diretórios e centros acadêmicos

Para se manter informada das necessidades estudantis, a UNE conta com centros acadêmicos, diretórios e organizações em vários níveis – como a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes) e a União Estadual dos Estudantes (UEE) –, além de conselhos e fóruns. Dois exemplos são o Congresso da UNE (Conune), que é realizado a cada dois anos e elege a diretoria da entidade; e o Conselho Nacional de Atividades Gerais (Coneg), do qual participam os Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs). “É o núcleo onde se determina o que a UNE vai dizer à sociedade”, explica Clarissa.

* Colaborou Patrícia Côrtes.

Reconstrução da sede

A UNE recebeu, em dezembro de 2010, R$ 30 milhões – de um total de R$ 44 milhões – do governo federal para construir sua sede em terreno na praia do Flamengo, zona sul do Rio. O marco do início das obras para subir o edifício de 13 andares desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer – falecido recentemente – foi à comemoração dos 75 anos, no dia 11 de agosto. “A festa não se tratou apenas de um gesto para levantar paredes, mas sim de levantar os gritos de vitória daqueles que ali sonharam. Mais do que um prédio, a obra representa um símbolo da luta pela democracia. A obra está no tempo certo de execução e deve ficar pronta em dois anos”, contou Daniel Iliescu.

O endereço que fica na Praia do Flamengo, 132, foi ocupado pelos estudantes em 1937. Ali ficava o Clube Germânia, frequentado por simpatizantes do nazifascismo e que comemorava cada vitória do Eixo. A invasão foi apenas uma das manifestações da entidade contra o regime fascista. Depois do fechamento do local, o clube se tornou a sede da UNE.

O novo prédio vai substituir o que foi incendiado pelos militares em 1964.