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Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2017


País

O preço da popularidade: como população mostra insatisfação

Guilherme Simão - Do Portal

20/06/2013

 Arte: Maria Christina Corrêa

Nos últimos dez dias, duas pesquisas de opinião registraram que a queda na popularidade da presidente Dilma Rousseff vai além das vaias que recebeu no último dia 15, na abertura da Copa das Confederações, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Nesta quarta-feira, 19, o Ibope divulgou que a aprovação do governo passou de 63% em março (recorde na ocasião) para 55% em junho. No dia 10, levantamento do Datafolha indicou que a taxa de aprovação da presidente (somando os conceitos ótimo e bom) caiu pela primeira vez desde a posse, em 2011, recuando de 65% para 57%.

A falta de crédito dos governantes foi observada, ainda, nas ruas de dezenas de cidades do país. No dia 17, cerca de 200 mil pessoas manifestaram rejeição à condução das políticas públicas, nas três esferas de poder – municipal, estadual e federal. Houve protestos em 11 capitais contra o preço dos ônibus e metrô, a qualidade dos serviços públicos, o custo de vida, a violência e gastos em estádios da Copa do Mundo. As mobilizações partiram das redes sociais, sem vinculação político-partidária, e novos protestos estão programados.

Especialistas ouvidos pelo Portal PUC-Rio Digital afirmam que a economia é um dos fatores preponderantes na popularidade dos governantes. Para o cientista político e professor da PUC-Rio Antônio Carlos Alkmim, a imagem dos governos de todos os partidos tende a ser prejudicada pelos protestos. Na visão dele, os prefeitos que reduziram as tarifas dos ônibus vão ganhar popularidade. Ele acredita que a população vai avaliar a habilidade de negociação dos governantes com representantes das manifestações:

Agência Brasil  – Quando ocorrem protestos generalizados, a tendência é que haja um impacto negativo na popularidade dos governantes. O cidadão espera que o governo estabeleça um canal de comunicação com os manifestantes, e que exerça o comando da polícia envolvida na segurança dos protestos.

Brasileiros estão mais exigentes

Segundo o consultor de marketing político Francisco Santa Rita, para ser bem avaliado o governante precisa ser reconhecido como bom administrador e responsável pelos acertos na gestão. Além disso, deve saber comunicar à população a aceitação do governo:

– O eleitor brasileiro olha somente para si mesmo, para seu umbigo. Não tem uma visão macro (da administração pública). Ele só percebe o que afeta o seu dia a dia.

O diretor-geral do instituto de pesquisa Datafolha, Mauro Paulino, acredita que os brasileiros serão cada vez mais exigentes com a gestão do governo:

– Por causa da resistência geral do eleitor aos políticos, espera-se cada vez mais que eles tenham capacidade administrativa. Por isso, a tendência é que os governantes sejam mais técnicos, especialmente os prefeitos.

Na visão do cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, o desafio do governante é conciliar a tensão entre as questões políticas e as técnicas. Ao mesmo tempo em que precisa vencer as eleições, deve realizar projetos cujos efeitos serão percebidos apenas em longo prazo.

– A burocracia governamental deve apontar os caminhos mais adequados para as políticas públicas. O governante precisa arrumar a casa, e ganha legitimidade quando tem uma equipe competente para resolver as questões técnicas. Mas pode haver um efeito bumerangue nos projetos de governo: se eles não forem consistentes, a população se sente enganada.

Medidas impopulares

O cientista político Antônio Carlos Alkmim ressalva que o administrador não pode deixar de tomar medidas necessárias para promover reformas, por serem impopulares:

 – O governante tem o compromisso de pensar estrategicamente e de fazer mudanças. Em momentos de adversidade, o eleitor associa os problemas do lugar onde vive à incapacidade do governo de resolvê-los.

Pesquisas podem guiar estratégias de governo e ajudar a conhecer os anseios da população, observa Alkmim, que no entanto alerta: “Apesar de captarem demandas da sociedade, as pesquisas não substituem o contato direto da população com os governantes”. Ismael concorda, e defende a participação da sociedade por meio de audiências públicas e conselhos comunitários.

 Arquivo Portal Paulino lembra que os temas mais sensíveis para a popularidade dos governantes variam conforme a instância de poder. Em geral, problemas da economia como inflação, estagnação de renda e desemprego afetam mais a aprovação do governo federal. Do governador, a segurança é o setor mais cobrado pelos eleitores. Dos prefeitos, segundo ele, o que a população mais espera é a gestão eficiente de questões que afetam diretamente a rotina dos moradores, como o transporte público.

Mauro Paulino, do Datafolha, lembra que a imagem de Dilma ainda está associada à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que garantiu a ela o apoio das camadas mais pobres da população, que “definem as eleições no país”. Ele avalia que o governo atual é mais popular que o do antecessor que o elegeu, porque, eleita, a presidente conquistou o apoio da classe média.

Apesar de os índices de aprovação da presidente estarem em queda, continuam acima de 55%, taxa que analistas como Santa Rita consideram suficiente para uma possível reeleição. Segundo o consultor político, um candidato só consegue se reeleger caso o governo tenha aprovação superior a 50% às vésperas das eleições, ou seja, quando mais da metade da população avalia o governo como bom ou ótimo.

Leia também os artigos dos professores Arthur Ituassu (Terremoto político desmonta ideia de "Brasil paraíso" por trás de eventos esportivos) e Ricardo Ismael (Cobranças convergem para um sistema político mais eficientes).