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Rio de Janeiro, 29 de julho de 2017


País

Nos anos de chumbo, literatura infantil nada teve de ingênua

Mariana Totino, Ana Paula Bissoli e Clara Freitas - aplicativo - Do Portal

16/04/2014

 Arte: Lucas Sereda

Uma menina que sonha com um mundo em que se possa fazer o que deseja, um grupo de vira-latas que luta para salvar dois amigos presos e um reizinho mandão que faz leis absurdas. Na segunda metade dos anos 1960, em pleno acirramento da repressão no período ditatorial, autores brasileiros ousaram retratar a realidade do país na literatura infanto-juvenil. Por meio de fábulas, autores como Lygia Bojunga, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e Sonia Robatto escreveram histórias sobre liberdade, respeito e esperança.

Da mesma forma que a produção artística destinada ao público adulto, o mercado editorial infantil não passou indiferente aos anos de chumbo. Valendo-se da construção de um mundo fantasioso, escritores e escritoras denunciavam abusos da época em narrativas leves e educativas. 

Para a escritora Ana Maria Machado, uma das mais produtivas e premiadas autoras do país, não se tratava, no entanto, de uma lição a ser aprendida, palavra de ordem ou panfletagem. Os temas tratados eram questões vividas, trabalhadas ludicamente pela linguagem. Tendo participado de movimentos de resistência ao período e chegado a ser presa, em 1969, e se exilado, a autora vincula a vivência pessoal à produção artística:

 Reprodução – Nós tínhamos uma ação consciente de resistência política, mas não especificamente voltada para a literatura. No meu caso, posso dizer que faz parte intrínseca de minha vida e, por isso, transparece no que eu escrevo. Um livro como De olho nas penas, por exemplo, que fala da ditadura, da clandestinidade e do exílio, tem a ver com situações vividas por mim, por meus familiares, por amigos, por gente que eu conheço e amo. Em Era uma vez um tirano (1982), eu nem ao menos disfarço, e chamo o governante de rei. Mas nada disso era tratado como lição, palavra de ordem ou panfletagem. Na verdade, os temas eram questões vividas, trabalhadas ludicamente pela linguagem, e refletiam minha necessidade de expressão.

Ana Maria iniciou sua produção para crianças na revista Recreio, em 1969. Criada após um ano de AI-5, a revista inaugurou um novo segmento destinado ao público infanto-juvenil, uma inovação no meio editorial. No livro Ruptura e subversão na literatura para crianças (Global, 2009), a pesquisadora Maria Lucia Machens registra como a revista mostrava o cotidiano infantil e se preocupava em captar o mesmo olhar questionador e descobridor desse público, o que causava uma identificação imediata. 

– A revista Recreio surgiu logo após o AI-5, quando a população brasileira estava se sentido tolhida, amordaçada. Os autores tiveram uma oportunidade maravilhosa, e utilizaram este canal muito bem. Como eles não eram pedagogos, não tinham as distorções didáticas comuns daquela época, escreveram textos lúdicos, mágicos, inteligentes, críticos, instigantes e principalmente, que despertavam a curiosidade e a imaginação da criança, respeitando a inteligência delas e incentivando o desejo da leitura e da reflexão.

Divulgação/Bruno Veiga A autora acrescenta que a geração que leu suas primeiras histórias na revista Recreio desenvolveu o hábito e o prazer da leitura, e que a revista pode ter também desenvolvido uma geração mais crítica, no sentido que habituou o leitor a refletir sobre o cotidiano, sobre as emoções, sobre as discriminações, os preconceitos e injustiças que ocorrem na sociedade brasileira.

Até então, o que vinha sendo produzido para crianças eram conteúdos ligados à pedagogia, de pouco valor literário. Ana Maria, primeira e única escritora significativamente dedicada à literatura infanto-juvenil a integrar a Academia Brasileira de Letras, da qual foi presidente na última gestão (2011-2013), observa que houve um hiato na produção após a morte de Monteiro Lobato, em 1948: “Nenhum escritor ousava tentar substituir um homem tão influente. Foi como se os livros para crianças no Brasil entrassem então num longo sono, um período de hibernação que durou 20 anos”.

A revista Recreio 

A Recreio foi a primeira revista impressa infantil que trazia literatura brasileira, ligada à realidade. Antes dela, só havia revistas em quadrinhos. Ao fomentar o mercado editorial com publicações de textos infanto-juvenis inéditos, a Recreio marcou o início de um boom literário desse setor vivido nos anos de 1970. Criada em 1969, pela Editora Abril, começou quinzenal e imediatamente passou a ser publicada semanalmente. Eram 250 mil exemplares por semana, chegando a um milhão por mês. 

– Mudou o critério de produção infantil. Tinha uma força, porque era da nossa terra, falava de um mundo que estava perto. Os meninos deixaram de ser tratados como criancinhas. Falávamos da vida, de tudo o que víamos. Não existia limite em relação aos temas. Vários problemas que a gente vivia, não só a ditadura, que eram comuns aos brasileiros, eram sempre tratados – acrescenta Sonia Robatto.

Entre os autores que surgiram a partir da revista Recreio estão Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Sylvia Orthof, Joel Rufino dos Santos, Marina Colasanti.

 Reprodução – É incontestável a importância desses autores, cujos temas ainda continuam atuais, mesmo após algumas décadas, tornando a leitura desses livros um deleite, despertando no leitor o prazer e o hábito da leitura – afirma Maria Lucia.

Após apresentar o livro A sapa Cristina à editora Abril, a escritora Sonia Robatto foi convidada a editar a revista que nascia voltada para o público infantil. Daí em diante, continuou ligada à produção para o público infanto-juvenil e já contabiliza mais de 400 histórias publicadas. 

Sonia destaca o papel da publicação na criação de um novo segmento de mercado editorial, trazendo o cotidiano para o universo infanto-juvenil e extrapolando a abordagem educativa:

– As crianças começavam desde pequenas a entender o que era viver em paz. É a possibilidade deles sonharem o que quiserem. Uma criança precisa disso. Precisa acreditar no sonho, ter a possibilidade de mergulhar naquele mundo onde as coisas eram resolvidas, a violência parava. Para a família toda. 

Sonia ressalta que a revista Recreio nunca teve um texto censurado:

– A censura não se dedicava às histórias infantis, nem percebia que havia coisas subentendidas ali. Como as histórias eram lidas muitas vezes com os pais ao lado dos filhos, adultos percebiam o que nós estávamos querendo dizer. Mostrávamos que não era um caráter político, mas algo fundamental: o abuso que acontecia em grupos, humanos ou não. Muitas vezes animais eram os personagens. Ao mesmo tempo em que era forte, era delicado, porque era uma coisa para crianças. 

Para a especialista em literatura infantil Eliana Yunes, professora associada da PUC-Rio, apesar de as crianças não perceberem muitas vezes o conteúdo crítico dos textos, as publicações incentivaram o gosto pela leitura, em si uma bandeira política:

– Acreditava-se que esse tipo de literatura era ingênua. Na última ditadura, os livros infantis que surgiram sabiam lidar com o ficcional e traduzir experiências de vida, não necessariamente perceptíveis de imediato por crianças. Mas o ludismo, as metáforas, as alegorias sensíveis marcaram estética e eticamente toda uma geração de leitores. Basta ler hoje um livro como Flicts (de Ziraldo), e atentar para as possibilidades de leitura que já trazia em 1969. 

Atualmente no Brasil publicam-se mais livros para o público infanto-juvenil do que para adultos, como observa Maria Lucia Machens:

– Há uma gama imensa de excelentes livros. Estas obras só precisam ser lidas. O primeiro contato da criança com o texto está na leitura pelo adulto. Ao escutar uma boa história, a criança se identifica com a trama ou os personagens, sente-se cúmplice deles e acaba sentindo prazer, mas ainda necessita do adulto, pois ainda não sabe ler. O problema é que muitos adultos não leem, portanto, não dão o exemplo. O que morreu foi o engajamento de muitos adultos.

Literatura infantil na ditadura brasileira

Algumas obras que retratavam por meio da literatura infantil a realidade vivida naqueles tempos:

 Reprodução A história da sapa Cristina, de Sonia Robatto, 1969: a obra de Sonia Robatto conta a história da sapinha que tinha uma mãe muito rigorosa e não a deixava sequer pôr as patinhas na água. Não podia nadar porque fazia frio, não podia brincar na lama porque ia sujar a casa, não podia chupar gelo porque dava dor de garganta.

 

 Reprodução A bolsa amarela, de Lygia Bojunga, 1976: narrado pela protagonista Raquel, que conta seus conflitos pessoais e familiares. A narradora exprime três vontades: a de crescer, por achar que gente grande está sempre achando que criança está por fora; a de ser menino, por acreditar que só homens podem fazer tudo o que querem; e a de escrever, uma forma encontrada de organizar seu caos interior.

 

 

 

 

 Reprodução Bento que bento é o frade, de Ana Maria Machado, 1977: Nita é uma menina que se recusa a obedecer ordens, discute o motivo das convenções e sonha com um mundo sem regras. Nita se sente incompreendida e vai em busca de pessoas que a apoiem. Ao voltar de viagem, traz na bagagem lições que aprendeu e percebe que seus amigos, assim como ela, estão mudados.

 

 

 

 

 

 Reprodução O reizinho mandão, de Ruth Rocha, 1978: ligada ao momento político no Brasil, às vésperas da revogação do AI-5, a obra conta a história de um reizinho chato e mandão, que assumiu o reino com a morte do pai, um rei muito popular e justo. O reizinho controlador cria regras absurdas, como proibir dormir de gorro na primeira quarta-feira do mês. A população fica com medo e se cala.

 

 

 

 

De olho nas penas, de Ana Maria Machado, 1981: Miguel faz uma viagem maravilhosa mundo afora. Assim, vai desvendando os segredos da América Latina, da África e da sua própria vida.

Era uma vez um tirano, de Ana Maria Machado, 1982: O livro, publicado três anos antes do fim do regime militar, conta a história de um país muito divertido e que, por descuido e um pouco de preguiça, deixou-se dominar por um tirano. A população tristemente assistiu e, em silêncio, obedeceu, enquanto o rei, por ser o mais forte, dava ordens e proibia tudo que não fosse obrigação e trabalho. As crianças só queriam rir, brincar e se divertir, tudo que era proibido em seu país.