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Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2017


País

Morte de Eduardo Campos abala cenário político-eleitoral

Claudiane Costa, Gabriel Camargo, Jana Sampaio e Larissa Fontes* - aplicativo - Do Portal

13/08/2014

 Fábio Rodrigues Pozzebom/Arquivo EBC

A morte do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB-PE), terceiro colocado na disputa à Presidência da República, em um acidente aéreo na manhã desta quarta-feira no litoral de São Paulo, abalou o cenário das eleições presidenciais. Embora seja prematuro projetar os passos da corrida ao Planalto com a saída de cena do neto de Miguel Arraes, especialistas ouvidos pelo Portal PUC-Rio avaliam os impactos da perda não só no xadrez da sucessão presidencial, mas na História do Brasil, subtraída precocemente do líder carismático que se posicionava entre o patrimônio político legado do avô, um dos protagonistas de capítulos importantes da nossa trajetória democrática e o discurso de modernização. Uma combinação estratégica para vesti-lo de estadista promissor, impulsioná-lo no Nordeste e alimentar pretensões de se cacifar Brasil afora. Com o início da campanha, começava a buscar voos mais altos, nacionalmente, até a ambição ser abreviada pela queda do jato, em Santos (as causas do acidente, que matou os demais seis ocupantes da aeronave, são investigadas pela Aeronáutica e as polícias Federal e Civil). Segundo pesquisa Datafolha divulgada semana passada, Campos acumulava 9% das intenções de voto, atrás de Aécio Neves (PSDB), com 23%, e da presidente Dilma Rousseff, com 38%.

O cientista político Cesar Romero Jacob, diretor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio aposta que o caminho natural é a vice da chapa, Marina Silva, tornar-se a candidata à Presidência. O vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, e outros cânones do partido têm dez dias para tomar este ou outro rumo, inclusive recolher a candidatura ao Palácio do Planalto. Caso Marina suceda Campos, como acredita boa parte dos analistas, tanto Dilma como Aécio "sairiam perdendo", avalia Romero Jacob, pois a ex-ministra do Meio Ambiente arregimenta eleitores dos dois candidatos:

– Ao tomarem como prioridade a questão política econômica do país, os três candidatos adotaram tônica e posicionamento de centro parecidos. Mas quem deve perder mais votos com o novo contexto destas eleições é Aécio. Afinal, quem iria votar nele pode agora escolher Marina, já que os dois são de oposição.  

Para o também cientista político Ricardo Ismael, professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio, Eduardo Campos representava um meio-termo entre o Partido da Social Democracia (PSDB) e Partido dos Trabalhadores (PT). Ele lembra que o ex-governador de Pernambuco ainda estava “se apresentando” aos brasileiros:

– Campos se colocava como uma alternativa entre a mesmice do PSDB e do PT, que lideram as brigas eleitorais. Diante da repercussão nas redes sociais, com o primeiro debate que estava agendado e com a entrevista no Jornal Nacional, na véspera do acidente, ele estava se apresentando agora ao Brasil, estava ganhando conhecimento. É triste, porque tinha acabado de se tornar conhecido.

A socióloga Celina Vargas, neta do ex-presidente Getúlio Vargas – cujo suicídio, no exercício da Presidência, completa 60 anos no próximo dia 24, numa das tragédias associadas ao mundo político coincidentemente ocorridas no mês de agosto – lamenta a perda de Campos num país carente de lideranças políticas éticas:

– Campos vinha se apresentando como um representante político do Nordeste, mas com uma liderança forte no Brasil inteiro. Ele surge de um núcleo tradicional, com ligações com seu avô, Miguel Arraes, mas com características de modernização. Ele tinha uma compreensão sobre uma governança diversificada e sabia da necessidade de uma reforma política para o país. Nós todos temos que lamentar muito essa perda, ainda mais para um país que tem poucas lideranças boas e poucas com ética, como era o caso dele.

Marina Silva, a sucessora natural

Com a morte de Campos, a vice da chapa, Marina Silva, torna-se a bola da vez a menos de dois meses das eleições. A ex-senadora e ex-ministra é apontada como uma saída para o PSB continuar na corrida eleitoral. Presidenciável na campanha de 2010 pelo Partido Verde, Marina angariou 20 milhões de votos — terceiro lugar na disputa contra Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) — e pôs a agenda ambiental na pauta política. A fundadora da Rede Sustentabilidade aliou-se ao ex-governador pernambucano em outubro do ano passado, ao ter a criação do partido barrada pelo Ministério Público Eleitoral.

O vice-presidente do PSB, Roberto Amaral ressalta que é cedo para se ter "qualquer certeza sobre o futuro do partido e das eleições à Presidência". Apesar das especulações, não se pode ainda precisar o substituto de Campos na corrida eleitoral, ou confirmar Marina como sucessora.

– Afirmar que a Marina pode ser a candidata do partido é uma especulação apressada. Evidentemente, um candidato a presidente que se retira de forma trágica do pleito tem consequências no cenário político, mas ainda não sabemos quais. Só os fatos da próxima semana poderão esclarecer o que vai acontecer. Seria precipitado falarmos qualquer coisa neste momento – pondera Amaral.

O sociólogo e também professor da PUC-Rio Luiz Werneck Vianna lembra que a candidatura de Marina depende da indicação do PSB, pois ela não tem direito sucessório. O Tribunal Superior Eleitoral (TRE) determinda prazo de dez dias para o PSB escolher o substituto de Campos, que pode pertencer a qualquer um dos partidos da coligação Unidos pelo Brasil (PSB, PPS, PHS, PRP, PPL e PSL).

– Se, na vacância do candidato, o partido indicá-la, Marino será uma candidata com peso na disputa, um personagem do jogo político atual. A imprevisibilidade passou a agir: a morte de Campos e uma possível candidatura da Marina.

Analistas consideram a ex-senadora beneficiária das Jornadas de Junho do ano passado, pois a popularidade entre os jovens a teria recolocado no trilho de “terceira via”. Para o cientista político Ricardo Ismael, a candidatura de Marina pode ser a opção "mais viável na atual conjuntura política", redesenhada agora sem Eduardo Campos.

— Talvez seja a opção mais viável no momento. Esta é a grande pergunta. Eu diria que Marina é uma candidatura forte. Mas não interessa ao PT ter uma candidata com um apelo popular forte. A Dilma vai tentar puxar o PSB para ela, para o PT — prevê o analista.

Herdeiro de Miguel Arraes

Neto de Miguel Arraes, governador de Pernambuco por três vezes – morto também num 13 de agosto, de 2005 –, e filho da ministra do Tribunal de Contas da União (TCU) Ana Arraes, Eduardo Henrique Accioly Campos já nasceu no meio político. Seria impossível não ter respirado profundamente política nos 49 anos de vida, completados no domingo passado. Formou-se em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde começou a militância política como presidente do Diretório Acadêmico, em 1985. No ano seguinte, Campos desistiu do mestrado nos Estados Unidos para virar chefe de gabinete do avô. Em 1990, filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro (PSB) e foi eleito deputado estadual. Neste período, criou a primeira Secretaria de Ciência e Tecnologia do Nordeste e a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe).

A projeção local o impulsionaria ao Congresso Nacional em 1994, com 133 mil votos. Em 1995, tornou-se secretário do governo e, em 1996, secretário da Fazenda. Foi reeleito em 1998 para a Câmara Federal. O terceiro mandato como deputado federal veio em 2002, quando destacou-se como um dos principais articuladores do governo Lula. No ano seguinte, assumiu o Ministério da Ciência e Tecnologia e, em 2005, a presidência nacional de seu partido. No início de 2006, licenciou-se do cargo para concorrer ao governo do estado pela Frente Popular de Pernambuco, sendo eleito em 2007 e reeleito com 82,84% dos votos.

Em 2011, Eduardo Campos se envolveu em polêmica por conta de supostas indicações de familiares para cargos públicos. Entre elas, sua mãe, filha do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, Ana Arraes que foi eleita ministra do Tribunal de Contas da União (TCU) com 222 votos e apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Jornal Nacional no dia anterior à sua morte, Eduardo Campos negou ter indicado a mãe e defendeu o fim dos cargos vitalícios.

Um dos programas de sua gestão com maior expressão é o Pacto Pela Vida, programa de segurança pública para diminuir os índices de violência no Estado. Para preparar o caminho rumo ao Palácio do Planalto, anunciou a saída do PSB da base do governo em setembro do ano passado, o que foi visto pelo PT como ato de "ingratidão".

Em 2013, candidato à Presidência no Paraguai também morreu em acidente aéreo

Não foi a primeira vez que um candidato à Presidência na América do Sul morreu durante a corrida eleitoral. No dia 2 de fevereiro de 2013, o candidato ao cargo no Paraguai, Lino Oviedo, da União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace), também morreu em um acidente aéreo. Oviedo, aos 69 anos, voltava de helicóptero para Assunção após um comício em Concepción, cidade a 400 quilômetros da capital paraguaia, quando o helicóptero caiu e explodiu, não deixando sobreviventes.

No Brasil, a morte de políticos em acidentes aéreos também não é novidade. Em 1992, o helicóptero que transportava o deputado federal Ulysses Guimarães, o ex-senador Severo Gomes e suas esposas desapareceu entre Angra dos Reis e São Paulo. Todos os corpos foram encontrados, menos o de Ulysses. Cinco anos antes, o então ministro da Reforma Agrária, Marcos Freire, morreu após seu avião explodir logo em seguida a decolagem, no Pará.

Todos os sete tripulantes – Campos, cinco pessoas de sua equipe de campanha e dois pilotos – morreram na queda do jato particular no litoral de São Paulo.

Morte de Campos reverbera nas redes sociais

A confirmação da morte do presidenciável Eduardo Campos (PSB) abalou o mundo político. Há 28 anos na vida pública, o ex-governador pernambucano foi “a maior liderança do estado”, de acordo com o cientista político da PUC-Rio Ricardo Ismael. Nas redes sociais, correligionários e outros políticos manifestaram sua solidariedade e tristeza. Em nota o vice-presidente da República Michel Temer lamenta: – Não há palavras para descrever a tragédia que hoje se abateu sobre a política brasileira. Assim como todo o país, estou chocado com esse acidente e com as perdas para amigos e familiares.

No Twitter, a presidente e candidata a reeleição Dilma Rousseff manifestou condolências pelo ex-ministro de Tecnologia do governo Lula: "O Brasil inteiro está de luto. Tivemos Eduardo e eu uma longa convivência no governo Lula, nas campanhas de 2006, 2010, e durante o meu governo. Sempre tivemos claro que nossas eventuais divergências políticas seriam menores que o respeito mútuo característico de nossa convivência. Estou tristíssima".

Figuras públicas compartilharam mensagens no Twitter:

Luciana Genro (PSOL), candidata a presidente: "Confirmação da morte de Eduardo Campos é uma tragédia terrível! Minha solidariedade a familia e amigos. Esta eleição se transformou em luto!"

Cesar Maia (DEM-RJ), candidato ao Senado: "Triste e inacreditável. Candidato Eduardo Campos estava em avião que caiu em Santos."

Marta Suplicy (PT-SP), ministra e senadora licenciada: "Muito triste com o falecimento de Eduardo Campos! Meu profundo sentimento à Renata e filhos".

*Colaborou: Júlia Cople e Viviane Vieira.