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Rio de Janeiro, 26 de junho de 2017


País

Maioria da população no Brasil, negros são minoria na política

- aplicativo - Da sala de aula

14/08/2015

 Pixabay

Nas eleições de 2014, do total das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, 71,9% das vagas foram ocupadas por homens brancos, enquanto 14,4% o foram por homens pardos e 3,7% por homens que se autodeclararam pretos. A sub-representação política desses grupos não pode ser totalmente explicada pela carência de candidatos da raça negra. Para o cientista político da Universidade Federal de Ouro Preto Antônio Marcelo Jackson, a baixa presença do negro na política envolve baixa autoestima:

— O nosso racismo, sim, sem duvida nenhuma, contribui para a baixa quantidade de negros no sistema representativo da política. Na medida em que não há negros chegando aos mais diversos postos do alto escalão, então você tem uma sociedade problemática e discriminatória.

O professor da Unirio e sociólogo no Iesp/Uerj Luiz Augusto Campos acredita que negros e pardos estão sub-representados no parlamento brasileiro porque, segundo ele, a alta  taxa de renovação dos políticos no poder não implica, necessariamente, em uma renovação ideológica e racial. O sociólogo atribui a baixa presença no parlamento à falta de acesso da população negra aos partidos políticos tradicionais e a distribuição desigual de financiamentos das campanhas eleitorais:

— As máquinas políticas mais fortes eleitoralmente tendem a ter menos negros, como é o caso do PMDB, do PSDB, por exemplo. Se os negros não têm acesso a grandes máquinas partidárias, eles não têm representação. A segunda razão é a distribuição desigual de recursos de campanha. O candidato negro tem dificuldade grande de chegar no patamar  de uma elite mais competitiva e, por isso, tem o acesso prejudicado por financiamento de campanha.

 Agência Brasil Para Leci Brandão (PCdoB-SP), a segunda mulher negra eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo em 180 anos, apesar da graves distorções no sistema político, os deputados são representantes do povo e refletem o desejo do eleitor para nas Casas Legislativas. De acordo com a deputada estadual, é preciso mudar as estruturas de poder para que a democracia racial seja alcançada na política:

— Existem poucos deputados negros e devemos questionar porque os negros têm uma representação tão pequena e tão desproporcional, visto que somos a maioria da população. Dentro da Assembleia o que conta é a composição de forças que aqui está. Se há poucos parlamentares comprometidos com a questão da igualdade racial e da justiça social não há como termos ações concretas e importantes voltadas para essa população. Sofremos do racismo institucional e que só pode ser combatido se mudarmos as estruturas.

A baixa presença de políticos negros no poder

A sub-representação dos negros nas Casas Legislativas do Brasil não pode ser atribuída à falta de engajamento político do eleitor negro. Para o autor da lei antirracismo, Carlos Alberto Oliveira, o preconceito racial, ainda predominante no país, atrapalha a formação de uma identidade completa do eleitorado negro para com políticos da raça negra. Já sociólogo Luiz Augusto Campos acredita que é normal o fato do eleitor ser reativo a uma categoria discriminada historicamente. Por outro lado, o especialista aponta as desigualdades na distribuição de candidaturas, que tornam o candidato invisível. Por isso, segundo ele, não é possível culpar o eleitor pela não-eleição de candidatos negros.

O cientista político da Universidade Federal de Ouro Preto (MG) Antônio Marcelo Jackson faz alusão ao filósofo francês Arthur de Gobineau para elaborar uma tese sobre a sub-representação do negro na política brasileira. Gobineau sustentava que a raça branca era marcada pelo uso da razão, e a negra pela força física. A mistura de raças, segundo o filósofo, significava um atraso para a sociedade brasileira. Com essa análise, o cientista político Antônio Jackson acredita que a mentalidade disseminada na época colonial afeta as bases de poder que, atualmente, estão consolidadas sem a presença efetiva de negros:

— Se você vive num grupo social que é declarado o tempo todo como inferior, com o passar do tempo, acredita que a raça negra é inferior, segundo Gobineau. Por isso, o próprio negro não vota no negro. O problema é ideológico. É preciso um conjunto de ações afirmativas que partam do poder político e que deixem claro que aquilo que acontece é um absurdo, e que é possível mudar a ideologia presente da sociedade.

Desde as últimas eleições, em 2014, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a computar a variável cor/raça dos candidatos registrados para o pleito, somando-se aos demais atributos tradicionalmente coletados pelo TSE como profissão, grau de instrução, patrimônio, gênero. As dificuldades de ascensão social dos não brancos no Brasil, estatisticamente documentadas, contradizem o mito que realça o caráter harmonioso da convivência racial no país.

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Embora seja praticamente consensual o diagnóstico de que a política brasileira é feita majoritariamente por brancos, compreender os mecanismos políticos e sociais que levam à sub-representação dos não brancos não é tarefa simples. O sociólogo Luiz Augusto Campos traça uma relação entre política e poder para explicar a baixa presença de negros em cargos políticos:

— Os partidos tradicionais são partidos que têm elites igualmente tradicionais. As elites tendem a ser mais fechadas a uma renovação externa dentro do partido. Muitas famílias dominam a política em determinados partidos. Estas famílias garantem a renovação de pessoas, mas a renovação tende a ser intrafamiliar, não é uma renovação externa, o que impossibilita a entrada do negro nesses partidos. Isso tende a reproduzir uma desigualdade racial em sua composição. Determinados partidos tendem a dar mais espaços a membros de determinadas políticas econômicas. Partidos ditos de esquerda tendem a ter mais negros candidatos.

Se o racismo ainda é prática recorrente na sociedade brasileira, as instâncias de poder do país parecem não estar preocupadas com o debate do tema. De acordo com o professor Antônio Marcelo Jackson, a questão racial tem pouco espaço na pauta do legislativo e não é vista como um problema pela maioria dos parlamentares. Para ele, o parlamento só funciona na base da pressão:

— Se existe alguma demanda de movimentos sociais, o legislativo reage e produz coisas até boas. Se não, não acontece e cada deputado tem seu interesse particular e não se importa com o interesse público. Algumas demandas sociais já foram apresentadas pelo parlamento brasileiro, mas só aconteceu diante de demandas sociais que apareceram. Não é uma coisa espontânea, por isso não dá para mensurar ou medir isso. Se for para mensurar, digo que o parlamento não faz nada para combater as questões raciais, ele só reage às demandas.

Para Wyllys, os aparelhos ideológicos do Estado convergem para a gestão de um branco sobre a sociedade. Para ele, assim como ocorre com os gays, os negros não votam em candidatos da mesma raça por falta de identificação:

— O sistema serve para que nós, as vítimas desse aparelho ideológico, introjetemos os valores do próprio sistema e viremos cúmplices da nossa própria desgraça. Então os gays são homofóbicos, as mulheres são machistas e os negros introjetam racismo, ou seja, uma falta de identificação consigo mesmo. Talvez essa seja a principal estratégia para que eles permaneçam vitoriosos.

Assassinatos de jovens negros são quase quatro vezes maior

Apesar da mudança no papel, os negros ainda sofrem racismo e frequentemente se vêem em situação de discriminação. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, divulgada em setembro de do ano passado, 104,2 milhões de brasileiros são pretos e pardos, o que corresponde a mais da metade da população do país (52,9%). A possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea):

Wyllys também afirma que a violência contra a população negra tem raízes mais profundas. Ele afirma que o próprio sistema judiciário perpetua o racismo e questiona a efetividade da Lei:  

— Qual é a cor da população carcerária? A que classe social pertence a população carcerária, que a gente trancafiou? Qual é o perfil socioeconômico dos 500 mil presos, da população carcerária? Essas são perguntas para o movimento negro.

Leia também: Violência policial e sub-representação política ameaçam direitos civis de negros em todo o mundo

O advogado e presidente do Coletivo Justiça Negra Luiz Gama, Bruno Cândido, admite que somente a "nova geração" do movimento está discutindo medidas de combate a práticas racistas. Segundo o advogado, a juventude atual, quem vem, em maioria, do meio acadêmico, não crê que a prisão seja a medida mais adequada para combater o racismo. Para ele, os jovens discutem o tema pois são os mais afetados pela violência.

— Não há dúvida de que quem coloca isso em pauta é a juventude negra. Até porque é a juventude que é alvo do encarceramento, alvo da violência policial, é alvo até dessa discussão do congresso sobre redução da maioridade penal, comenta.

O advogado afirma que o sistema judiciário é seletivo fruto de um problema estrutural que vem desde a época da escravidão.

— O sistema criminal é defeituoso desde o seu nascimento. Ele foi criado para selecionar, para recrutar negros para o sistema carcerário. Além disso, estamos falando de uma lógica do racismo estrutural, o que quer dizer que as questões raciais caem em invisibilidade ou na banalização. Então, o membro do Ministério Público ou o juiz banalizam a pena, não por considerar o racismo um crime em  potencial, mas justamente por considerar que no Brasil não existe racismo. É preciso um esforço do movimento negro  para fazer entender essa pauta pela Justiça. E é isso que estamos tentando fazer.

Bruno acredita que a sociedade considera a prisão como a solução de qualquer questão, inclusive o racismo. Ele garante que esse caminho não é a resposta ideal para o problema.

—Não, a prisão não resolve problema nenhum, principalmente no Brasil, onde ela não ressocializa, não devolve a pessoa da maneira que deveria para a sociedade, como uma pessoa de ‘bem’.

Porém, para o presidente do Coletivo Justiça Negra Luiz Gama, uma solução alternativa para reduzir os casos de agressões verbais contra negros seria o pagamento de multas.

— Determinados casos de racismo, dependendo do grau de violência que aconteceu, deveriam sim ter uma punição na qual indivíduo seria obrigado a pagar uma indenização. Eu acredito é que o bolso é que vai disciplinar, assim como a Lei Seca no Rio de Janeiro, por exemplo. A sociedade do Rio de Janeiro mudou com a Lei Seca, propõe.

Crise de representatividade: o lugar dos negros na mídia televisiva

Uma das figuras mais importantes da televisão norte-americana e do showbiz mundial, a showrunner negra Shonda Rhimes é a criadora de “Scandal”, “How to Get Away With Murder” e “Greys Anatomy”. Sucessos de crítica e público, as três séries se destacam por um elemento em comum: trazer um elenco significativo de atores negros, desempenhando papeis de destaque para a trama. No Brasil, a ausência de autores negros como Shonda Rhimes é um dos motivos para a crise de representatividade artística dos negros, principalmente no maior produto televisivo nacional, as novelas:

Para o jornalista João Fernando, especialista em séries da Revista da TV do jornal O Globo, um dos fatores responsáveis pela presença de personagens negros em papéis de destaque se dá pelo fato de os personagens serem um reflexo da autora. Outro fator que explica a maior inserção dos negros na televisão é de que, nos Estados Unidos, há uma preocupação maior em contemplar diferentes minorias sociais na mídia. Entre os norte-americanos, especialmente na mídia, a temática da segregação dos negros é um tema constante que vai além da culpa pelo passado escravocrata e a segregação:

— Seja em filmes de comédias ou em talk shows, o tempo todo há situações e piadas que abordam essa temática. Por lá, a piada não tem o peso ofensivo que tem no Brasil. Por aqui, a situação é diferente, pois os negros estão mais misturados na população e o preconceito é mais velado. Ninguém se dirige aos negros como fazem na TV e na ‘vida real’ norte-americana. No Brasil, há um comedimento, um certo desconforto em abordar as diferenças. Fica a impressão de que autores e diretores estão tentando compensar uma dívida histórica.

A TV Globo completou 50 anos em 2015. Porém, a primeira novela com uma protagonista negra só foi ao ar em 2004, com Tais Araújo no papel principal de “Da Cor do Pecado”. Já o primeiro casal negro a protagonizar uma novela foi em 2012, com Lázaro Ramos e Camila Pitanga em “Lado a Lado”. Considerado o maior especialista de telenovelas do país, Mauro Alencar afirma que até 1970, os negros eram retratados majoritariamente em personagens servis nas novelas de “capa e espada”, ambientadas recorrentemente na Europa monárquica dos séculos XVII e XVIII.

Esses papéis de serviçal ou escravo contribuíam para que esses personagens tivessem uma carga psicológica extremamente reduzida. No início da década de 70, houve uma migração no papel social que a novela desempenha, de modo o folhetim deveria retratar a realidade do brasileiro. A partir desta mudança, Mauro acredita que as novelas foram culturalmente responsáveis por quebrar o paradigma vigente até então.

Selva de Pedra

— Do ponto de vista psicossocial, a telenovela reflete os avanços da sociedade; e, claro, uma vez que o negro passou a conquistar relevância econômica durante as últimas décadas é natural que sua presença ganhe protagonização na história de telenovela. A novela ‘O Grito’, exibida em 1975, tinha Ruth de Souza interpretando Albertina, uma personagem economicamente independente. No mesmo ano, Janete Clair escreve a personagem Percival, um renomado psiquiatra, vivido por Milton Gonçalves em ‘Pecado Capital’. Em 1995, ‘A Próxima Vítima” trouxe uma família negra de classe média alta liderada por Antonio Pitanga e Zezé Motta.

A intenção de retratar a inserção dos negros na sociedade nas novelas já ganha a adesão de alguns autores consagrados. Escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, “Babilônia” traz a personagem Paula, interpretada pela atriz negra Sheron Menezes, como uma advogada bem sucedida que conseguiu entrar na universidade graças ao sistema de cotas. “Insensato Coração” (2011) é outra novela escrita pelo trio que trouxe Lázaro Ramos no papel de André, personagem rico e conquistador, situações pouco vistas na teledramaturgia brasileira. Porém, apesar dos atores negros estarem cada vez mais inseridos na televisão, ainda são poucos os papéis que fogem do estereótipo.

Enquanto as séries de Shonda Rhimes se destacam por trazer personagens negros em posições sociais de destaque, séries nacionais como “Filhos do Carnaval” e “Cidade dos Homens” contribuíram para limitar os personagens negros a espaços estereotipados. A primeira trama é ambientada no universo do Carnaval e do jogo do bicho e a segunda, nas favelas cariocas.

Premiado ator de cinema, Thogun Teixeira atuou nas duas séries e acredita que as emissoras passaram a ambientar suas produções em espaços marginalizados para tentar aplacar o distanciamento em relação ao público, composto significativamente por negros. Contudo, a crescente representatividade dos negros na televisão não facilitou a entrada de atores negros na televisão. Segundo Thogun Teixeira, a maior dificuldade encontrada pelos atores é se manter trabalhando:

— Os publicitários, diretores e dramaturgos não atentam ao mercado consumidor potente que ainda carece ser representado. Isso afeta diretamente na manutenção de oportunidades e bons papéis para atores negros.

Em 2014, a TV Globo produziu a série “Sexo e as Negas”. Criticada pelo público antes mesmo da estreia, a série escrita por Miguel Falabella foi denunciada por conteúdo racista e discriminatório à Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial. A história de Falabella mostra quatro amigas, moradoras de uma favela no subúrbio do Rio, e que ao longo da trama tem que administrar a vida profissional enquanto procuraram pelo par perfeito.

Segundo Falabella, na época, a maior inspiração é o seriado americano “Sexy and the City” que também mostra a relação de quatro mulheres com a cidade, a vida profissional e os problemas da vida amorosa. Outra crítica à versão brasileira de Falabella é a associação da mulher negra ao conteúdo altamente sexualizado que não acontece na série americana.

Para Fernanda Júlia, diretora da Cia de Teatro NATA de Alagoinhas (BA), “Sexo e as Negas” é um reforço de estereótipos através de uma falsa justificativa de protagonismo. De acordo com ela, um ponto importante a ser levado em consideração, quando se pensa na representatividade de forma geral, é de onde se fala, quem fala e para quem fala. Fernanda destaca a produtora americana Shonda Rhime como um exemplo positivo:

— Shonda é negra, escreve a verdade sobre si, percebe a necessidade de referencialidade negra na TV e se dirige a um público negro que quer se ver representado nos espaços midiáticos. No caso de “Sexo e as Negas”, o olhar é colonizador. É um branco que possui em seu imaginário todos os estereótipos construídos sobre o negro.

A diretora ainda aponta o que seria uma impressão ilusória deixada por produções que abordam o negro e o racismo como temática:

— O pior é que ele (autor) acredita que está dando uma "forcinha" para a classe de atores negros ao colocá-los na mídia fazendo piadas racistas de si mesmo e rindo da própria desgraça. O divertimento de sempre do colonizador.

Com mais de 50 anos de carreira – quase todos dedicados à TV Globo –  o ator Milton Gonçalves sente falta de negros com papéis de destaque na televisão brasileira e também acredita que o principal fator para que isso aconteça é a falta de alguém que saiba fugir do mito:

— A televisão tem essa capacidade de persuadir, de complementar. A minha vida tem sido melhorar os personagens negros na televisão para que não sejam sempre folclóricos, não sejam sempre palhaços. Eu, voltando a dirigir, não teria nenhuma dúvida: eu colocaria no espetáculo, em um programa, na dramaturgia, ou o quê for, aquilo que o IBGE diz que nós, brasileiros negros, significamos mais de 52% desse país.

Além da dificuldade apontada por Fernanda e Milton em ter alguém que escreva sobre os negros e para eles de forma real, o problema está também em como fazer essa mentalidade chegar ao nível da produção de ideias. Para Frei David Santos, diretor da ONG Educafro, o interior das empresas de comunicação, constituído pela maioria branca, não condiz com o retrato da população brasileira que é majoritariamente negra. Segundo ele, para que essa diferença seja eliminada, o governo deveria exigir que as empresas aderissem a uma política de cotas:

— No Estatuto da Igualdade Racial tem um capítulo só sobre meios de comunicação e, quando foi criada, a nossa proposta (Educafro) era ter cota para negros em todos os meios de comunicação. Com a promulgação dessa lei, todos os meios de comunicação teriam que ter 20% de negros em todos os escalões. O Estatuto da Igualdade Racial seria nosso grande instrumento de mudança dessa realidade brasileira.

Segundo Frei David, a personagem de Sheron Menezes em “Babilônia” pode ser considerada uma mostra de como a política de cotas já está influenciando a mídia, mesmo que indiretamente. Apesar de não ser a protagonista do folhetim das nove, Paula é um recorte da sociedade que vivenciou a implantação das cotas nas universidades há 12 anos.

Ao contrário do que acredita Frei David, Milton não aceita as cotas como solução. Para ele, a mudança do cenário atual começa com a aceitação do negro como negro e que, entendendo a história, sinta orgulho da origem africana. Este seria o pontapé inicial, de acordo com ele, para que o negro possa ser representado não apenas na televisão, mas também politicamente.

Já Fernanda Júlia vê nas cotas um meio de ampliar a presença negra na televisão. Mesmo assim, ela afirma que aumentar o número de negros dentro das empresas não é o suficiente:

— Precisamos enegrecer a formação dos artistas negros, construir nossos canais de mídias e fortalecê-los. Temos que escrever a nossa história dentro das academias e em outros instrumentos de fomento cultural formal e informal. Precisamos nos consumir, comprar e vender nossos produtos entre nós e também para além de nós negros. Não basta a presença negra na TV, precisamos abordar as nossas histórias, do nosso ponto de vista.

A identidade cultural americana não se traduziu em representação política

O movimento negro no Brasil, segundo Carlos Alberto Medeiros, representa uma minoria, uma vanguarda. É o problema, diz ele, de se considerar a democracia racial uma das características centrais do Brasil. Um mito da miscigenação que se traduz em uma dominação que além do espectro político-econômico:

— O domínio não é apenas de classe. Existe também uma dimensão estética. A ideia de que beleza é a beleza branca. Há lideranças do movimento negro, por exemplo, que eu nunca vi namorar mulheres negras.

Nos Estados Unidos, Medeiros explica que a segregação explícita forçou os negros a criarem uma identidade por cima das questões de classe. Criou-se então uma unidade nos guetos: diante dos brancos, todos eram negros. Uma construção dos anos 1960 e 1970, promovida também pelo movimento Black Power. As universidades americanas, não por acaso, fundaram centros de estudos sobre a cultura e a diáspora africanas, o que ajudou, segundo o acadêmico, no reconhecimento do afro-americano naquela sociedade.

O Brasil negro ainda padece de uma identidade na sociedade e, por isso, tampouco se encontra na política nacional. O elo entre reconhecimento e representação, porém, não é automático. Shonda Rimes pode ser um dos americanos negros a veicularem histórias com o olhar dos próprios negros. Mas, nos Estados Unidos, a formação identitária não conduziu os afro-americanos a uma presença proporcional no Congresso americano.

Na House of Representatives, equivalente à Câmara dos Deputados brasileira, há hoje 46 congressistas afro-americanos de um total de 435 políticos. De 50 estados, eles ocupam as cadeiras de 24 territórios da federação. O cientista político Eric Ostermeier credita essa taxa representativa de 10% à divisão dos distritos em “distritos de maioria” e “distritos de minoria”. Isso significa que cada espaço delimitado escolherá um representante para si, em eleição majoritária, o que favorece a vitória de afro-americanos com o voto das comunidades. Sem esse desenho de áreas de votação por critérios raciais, a representação negra seria ainda menor, diz Ostermeier.

O pesquisador da Universidade de Minnesota ressalva que os negros não têm a mesma oportunidade em eleições para o alto escalão da política nacional. Apenas dois afro-americanos foram eleitos governadores, os democratas Douglas Wilder (Virginia, 1990-94) e Deval Patrick (Massachusetts, 2007-15). No Senado, o republicano Edward Brooke (Massachusetts, 1967-79) e a democrata Carol Mosely Braun (Illinois, 1993-99) figuravam como os únicos nomes da escolha popular desde 1913, até a eleição de Barack Obama por Illinois, em 2004. Atualmente, apenas Cory Booker, de Nova Jersey, e Tim Scott, da Carolina do Sul, colorem as cadeiras de senadores.

O triunfo de Barack Obama como primeiro negro a assumir a Presidência dos Estados Unidos foi, na visão de Ostermeier, um momento importante para a política e a história americana, 143 anos depois do fim da escravidão e 44 anos depois da Lei dos Direitos Civis. Desde a eleição de Obama, não houve, porém, segundo o pesquisador, alteração significativa na etnografia da mais alta cúpula política nacional:

— É incerto dizer se essa eleição marcará mudanças de fato na representação do negro americano, já que Obama não tem angariado índices de aprovação tão significativos fora do Partido Democrata.

 Agência Brasil Carlos Alberto Medeiros lembra a presença dos negros nas prefeituras de grandes metrópolis americanas, como Nova York, Los Angeles e Chicago. Washington e Atlanta, inclusive, têm tradicionalmente um afro-americano à frente da cidade, segundo o jornalista. A desproporção federal do Congresso pode ser explicada, para ele, pela falta de motivação à participação dos negros nas urnas, já que o voto no país não é obrigatório. Ostermeier avalia que tem sido difícil levar os americanos a votar de uma maneira geral, especialmente as minorias raciais, como observou nas eleições legislativas do ano passado:

— Apesar de um engajamento maior nas eleições em que Barack Obama foi eleito e reeleito presidente, os negros tendem a comparecer ainda menos à urna. Não podemos descontar que esse segmento da população é também mais pobre que os demais, e pessoas mais pobres tendem a ir votar menos. O ponto-chave seria, na verdade, a economia, não a raça por si só.

E se um grupo específico de indivíduos – uma raça ou uma classe social – não está mobilizado a votar, há menos pressão para os eleitos representarem os interesses desses cidadãos, explica Ostermeier. A maioria dos políticos, ele complementa, visa a interesses próprios e presta particular atenção a quem pode ajudá-los a se reeleger. Para Carlos Alberto Medeiros, o sistema distrital de voto atenua essa consequência, porque o deputado trabalha para a comunidade que o elegeu. A organização bipartidária da bancada negra no Black Caucus também contribui a discussão de pautas e projetos.

Mais de 90% dos afro-americanos eleitos para a Câmara concorreram pelo Partido Democrata. São os democratas que hoje, em geral, conduzem a agenda negra, na ala mais liberal da legenda. As principais pautas envolvem as liberdades e os direitos civis, como na luta pela eliminação das leis de identificação para votar e pelo fim da intervenção americana nas guerras do Oriente Médio, até porque uma significativa porcentagem dos militares são parte das comunidades pobres ou de minorias. Ostermeier diz que os republicanos negros, como o senador de Carolina do Sul, Tim Scott, e o deputado da Florida, Allen West, costumam votar com os conservadores, o que é reflexo do eleitorado mais branco deles. Medeiros lembra que foi o Partido Republicano quem instituiu o fim da escravidão, mas que hoje carrega a disputa interna de projetos políticos com a ala radical do Tea Party:

— Os negros antigamente tinham retratos do presidente Abraham Lincoln e associação com os republicanos. A partir dos anos 1950 e 1960, isso começou a mudar. Em 1980, Ronald Reagan trouxe a onda conservadora aos Estados Unidos. Os democratas começaram a puxar essa bandeira para si, o que não significa que todos sejam progressistas – pondera Medeiros.

Na visão de Ostermeier, criador do blog Smart Politics, os fatores para explicar a sub-representação negra incluem a pouca quantidade de candidatos negros aos cargos do alto escalão. Em parte, fruto de políticas racistas – o racismo estrutural – e do próprio senso comum do eleitorado, especialmente no Sul do país – o racismo cultural. Ele pondera que o preconceito tem diminuído significativamente nas últimas décadas e, por isso, prevê um gradual aumento da representação negra nas próximas gerações.

*Texto produzido para a disciplina Redação em Jornalismo Impresso, ministrada pelo professor Chico Otávio, pelos alunos Andressa Hernandes, Bárbara Baião, Bruno Tortorella, Camila Coriolano, Danielle Chan, Diego Mello, Diogo Honorato, Elsa Maffia, Fernanda Aragão, Julia Cople, Layssa Soares, Lola Ferreira, Luana Montone, Luciana Lacerda, Manuela Bomfim, Marina Ferreira, Nathalia Marins, Nicoli Crivoi