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Rio de Janeiro, 21 de julho de 2017


País

Ituassu: "Cultura da participação política cresce na internet"

Juliana Reigosa - aplicativo - Do Portal

06/10/2014

 Davi Raposo

As iniciativas de monitoramento dos políticos no ambiente virtual, com a intenção de aprimorar o meio democrático, representam um avanço nessas eleições. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em parceria com a Google, lançou recentemente o site “Eleição Transparente”, que busca identificar casos de censura judicial a informações publicadas na internet durante o período eleitoral. O blog “Preto no Branco” confronta promessas e frases dos candidatos com bancos de dados oficiais no Brasil e no exterior. O “Truco”, da Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo, analisa os dados veiculados pelos candidatos à Presidência no Horário Eleitoral Gratuito. Diante da necessidade, e da dificuldade, de se conhecer o rendimento parlamentar para escolher melhor os candidatos, pesquisadores da PUC-Rio desenvolveram a página eletrônica O Que Fez Seu Deputado, que traça uma radiografia da produtividade dos 46 deputados federais do Rio no Congresso, desde a posse, em fevereiro de 2011, até o início da campanha, em julho. “Assim o cidadão pode se informar melhor e, consequentemente, votar melhor”, sintetiza o jornalista e professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio Arthur Ituassu, idealizador da iniciativa pioneira, ao ressaltar que a ferramenta eletrônica favorece a cultura da participação política na internet (leia mais abaixo).

“O Que Fez Seu Deputado” fornece ao eleitor um inventário didático do desempenho daqueles representantes populares eleitos em 2010. Os 46 deputados são avaliados de acordo com parâmetros como a participação em importantes votações, as leis propostas, os discursos no plenário da Câmera e a assiduidade.

– Nosso objetivo foi trazer alguma contribuição para a sociedade e a democracia brasileira no contexto das eleições. Algo que também pode servir de objeto de análise para as nossas próprias pesquisas –  destaca o autor de “O Brasil depois da Guerra Fria - Como a democracia transformou o país na virada do século” (2013, Ed. Apicuri / PUC-Rio).

As informações, extraídas das páginas eletrônicas do Congresso e dos próprios deputados, foram processadas, analisadas e didaticamente organizadas pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Política (COMP) da PUC-Rio, vinculado ao Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD), da Universidade Federal da Bahia. Para facilitar a compreensão, estão apresentadas em seções: “Trajetória política”, o histórico político do representante; “O que fez seu deputado”, um resumo das informações dispostas na página; “Votou contra” e “Votou a favor”, um registro das votações do parlamentar; ”Ausências”, “Abstenções” e “Obstruções”, que também aparecem eventualmente, em torno do registro de votações. Além disso, a página eletrônica apresenta “Assiduidade” do deputado; “Discursos” que fez no Plenário; “Propostas” que apresentou e “Comissões” de que participou.

O monitoramento digital reúne ainda fichas técnicas de cada deputado. O eleitor encontra desde informações básicas do deputado, como partido, idade e volume de votos obtidos na eleição de 2010, até o patrimônio declarado naquele ano e o status na Justiça eleitoral: se é ou não Ficha Limpa. Os endereços eletrônicos do parlamentar no Congresso Nacional e nas redes sociais, além de seu site oficial e e-mail de contato também são apresentados, indicando o peso crescente das mídias digitais na disputa pelo voto.

– Trata-se de um projeto em construção. Foi a primeira consolidação de resultados. Pretendemos ampliar o escopo de observação para os deputados federais de outros estados – prevê Ituassu.

 

Portal: Como surgiu a ideia da página eletrônica “O que fez seu deputado”?

Ituassu: É um projeto coletivo do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Internet e Política (Comp) da PUC-Rio. Nosso trabalho é de análise da comunicação política digital, mostrando de que forma ela enriquece os processos democráticos, inclusive o próprio regime democrático. Sempre pensamos em ter também um lado de extensão, que é uma contribuição que o Comp pode dar ao regime democrático. Resolvemos discutir o que poderíamos fazer para estas eleições e decidimos criar o site “O que fez seu deputado”.

Portal: Quais desafios foram encontrados durante o monitoramento das informações dos parlamentares?

Ituassu: Há outros processos semelhantes, mas percebemos que as informações não estão muito inteligíveis. O desafio é tentar traduzir, da melhor forma, informações como o comportamento parlamentar em termos de participação em votações, propostas sugeridas e assiduidade. Queríamos que o projeto tivesse um cunho bastante inteligível para o cidadão comum. 

Portal: De que forma os centros de pesquisa, alinhados às novas tecnologias, podem  contribuir ao avanço democrático?

Ituassu: O Centro de Estudos Avançados em Democracia Digital (CEADD), coordenado pelo professor Wilson Gomes, reuniu outros grupos de pesquisa que também trabalham em democracia digital, como o GPDD, da UFMG; o Nides, da UFBA; o GPolitC’s, da UFAL; e o nosso, Comp. Estabelecemos parcerias, pesquisas conjuntas, seminários, discussões de trabalhos produzidos e cursos para a sociedade. Há cursos de pós-graduação em Democracia Digital, ministrados em Salvador, e cursos de formação do uso das redes sociais em eleições. Desenvolvemos também trabalhos com índices de transparência em relação a iniciativas do Estado. Por exemplo, o Estado tem iniciativa de tornar-se mais transparente. Fazemos, então, uma análise dos problemas, do que pode dar certo ou não, a partir de um know-how, que se consolida na mesma área acadêmica da democracia digital.

Portal: Como a ferramenta pode resultar em avanços concretos?

Ituassu: É difícil medirmos um avanço concreto porque teríamos que fazer uma pesquisa empírica com os usuários que acessam o site. Porém, imaginamos que há dois lados. O primeiro é o da cultura da participação política da internet.  Este lado enaltece as possibilidades que a internet traz de participação, transparência, debate e deliberação sobre os temas comuns. Ao produzirmos iniciativas com esse viés, favorecemos, de certa forma, a cultura da participação política, que é muito forte na internet e está sendo apontada em vários estudos como uma contribuição para os regimes democráticos.

Portal: De que maneira isso ocorre?

Ituassu: Durante muito tempo, houve uma discussão na ciência política relativa à apatia do cidadão e seu descolamento de questões políticas, por meio do distanciamento da esfera política e da cidadania, ou seja, em relação às barreiras colocadas para que o cidadão não participe dos processos decisórios. Hoje há um potencial de mudar essa cultura da apatia por uma cultura da participação, com a comunicação política online.

Portal: E o outro lado dos avanços?

Ituassu: O outro lado é da própria informação, da transparência mesmo. Existe uma discussão sobre a qualidade da comunicação pública, como ela efetivamente informa o cidadão e prepara-o para participar politicamente, por meio de debates dos temas da política. As organizações midiáticas têm uma peculiaridade: pelo menos no caso brasileiro, são voltadas para o aspecto comercial. Por isso, há embutidos aspectos comerciais fortes, por vezes deturpando o tipo de informação ideal para o cidadão participar politicamente. Quando criamos esse projeto, colocamos na internet uma informação sem cunho comercial. Assim, pretendemos contribuir para o regime democrático brasileiro. Imaginamos que exista o lado da participação e o lado da informação e transparência, da possibilidade de ter uma informação mais elaborada e diversificada sobre a esfera política.

Portal: O que diferencia “O que fez seu deputado” de outras iniciativas do gênero, voltadas à fiscalização de políticos, como a “Eleição Transparente” e o “Truco”?

Ituassu: O site “Eleição Transparente” pertence ao terreno da liberdade de expressão na web, do acompanhamento com relação a iniciativas de censura de conteúdo na internet, o que é bastante louvável e interessante. O “Truco” tenta levar uma informação política para o cidadão com uma linguagem gamificada, por meio da ideia dos polígrafos digitais, que trabalha com a credibilidade do político, tendo um viés de questionamento. Já “O que fez seu deputado” trabalha mais com dados, ou seja, como o político votou, quantos e quais discursos ele fez, qual foi seu grau de assiduidade. Por certo sentido, essa ideia de trabalhar com dados consolidados, a partir do momento em que a legislatura já acabou, é uma forma de gerar certa neutralidade política com relação àquela informação. Eu diria, então, que são perfis diferenciados de atuação, nos quais nenhum é melhor que o outro, mas todos são iniciativas louváveis.

Portal: De que forma vocês pretendem ampliar o campo de atuação da ferramenta?

Ituassu: É um projeto que temos pensado e debatido, ainda mais em função da repercussão positiva que tivemos. Ele começou agora, mas já pensamos em longo prazo. Resolvemos começar pela experiência mais localizada no Rio de Janeiro, que são menos deputados. Há um ganho de experiência de como buscar essas informações, quais problemas precisam ser aprimorados, como os de metodologia e designer do site. “O que fez seu deputado” foi todo feito por nós e, exceto eu, a equipe é composta basicamente por estudantes. Então é um projeto que pretende colocar-se sempre em evolução e aprimoramento para chegarmos, na próxima eleição, com um site melhor, com uma metodologia mais aprimorada e com um espectro amplo de análise que evolva todos os deputados do Congresso Nacional. Esse é o nosso alvo para daqui a quatro anos.

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