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Rio de Janeiro, 25 de abril de 2017


País

Enquanto enfrenta crise, Estado do Rio já deve pensar no futuro da segurança hídrica

Andressa Pessanha, Davi Raposo e Lucas Augusto - aplicativo - Do Portal

23/02/2015

 Andressa Pessanha

Com o sistema de abastecimento responsável por suprir 75% do consumo do Rio de Janeiro operando com 3,14% de sua capacidade, como estimou a Agência Nacional de Águas (ANA) na quarta-feira 11, o fantasma da crise hídrica assombra a região Sudeste do Brasil. Além da cidade de São Paulo – que sofre o maior impacto, atualmente sob risco de um racionamento de cinco dias sem água a cada dois –, o Rio de Janeiro mergulha na pior crise da história devido a longos períodos de estiagem e à má gestão dos recursos naturais disponíveis. A professora desempregada Cândida Mara Ferreira Padilha, de 32 anos, já enfrenta filas para bombear água para a caixa da casa de vila em que mora com mais cinco pessoas, três delas crianças, em Sepetiba, Zona Oeste do Rio. Apesar de sofrerem constantemente com a falta de água durante o verão, este ano a situação ficou ainda mais precária, explica Cândida:

– Devido ao constante fechamento do Guandu, minha mãe às vezes precisa ficar até cinco horas para conseguir encher nossa caixa d’água.

Ainda que as chuvas da última semana tenham tirado o reservatório de Paraibuna do volume morto, não é hora de comemorar: Santa Branca, também um dos quatro principais abastecedores da Região Metropolitana, continua abaixo do nível normal. Especialistas alertam que a média de chuvas não é suficiente para enchê-los. Portanto, o controle do abastecimento deve ser feito na distribuição da água para o consumo. Com um plano para suportar os períodos de emergência, elaborado pela gestão hídrica fluminense, o Rio poderia evitar que São Paulo se torne uma “fotografia do seu futuro”. O professor de Hidrologia Paulo Canedo, da Coppe da UFRJ, explica que os níveis baixos de entrada de água nos reservatórios não deixam outra solução a não ser controlar o abastecimento.

A pouca entrada deve-se à quantidade de chuva abaixo da média histórica para a região Sudeste nos dois últimos anos, levando em consideração as normas climatológicas (período de 30 em 30 anos que serve como referência para os estudos climatológicos), como explica o professor Cleber Castro do Instituto de Geografia da Uerj:

– O Brasil tem duas estações, uma mais chuvosa e outra menos. Não choveu nos meses em que prevíamos chuva. Ou seja, foram seis meses de período de seca prevista, mais seis meses de inesperada. E agora vai vir novamente o período de pouca chuva. Ou seja, serão 18 meses sem chuva suficiente.

Ainda que a crise tenha se agravado por fatores climáticos aliados a de gestão governamental, o desmatamento de áreas às margens de rios utilizados para o abastecimento das metrópoles de Rio, Minas e São Paulo contribui tanto para a escassez de chuvas como para erosão. O geólogo da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Rede Internacional de Estudos sobre o Meio Ambiente e Sustentabilidade (Rimas), Pedro Luiz Côrtes, enfatiza a importância da preservação dos mananciais:

– Devemos evitar desmatamento, ocupação irregular e captação clandestina, porque isto cria um grande comprometimento destas áreas.

Este é o caso do Rio Paraíba do Sul. Rodeado por cidades e indústrias, suas margens sofrem degradação ambiental e possuem um alto nível de poluentes, principalmente nos trechos do município de Tremembé (SP) e Aparecida (SP), áreas mais poluídas de acordo com estudos da Universidade de Taubaté (Unitau). Canedo explica que o reflorestamento das áreas de campo no entorno do rio diminuiria o impacto das variações climatológicas, ou seja: com o plantio forte e a diminuição da ação do homem na bacia, nem as chuvas fortes nem a época de seca causariam danos tão desastrosos. Porém, esta seria uma medida de longo prazo.

Em curto prazo, Canedo propõe um modelo que pode ser seguido em qualquer situação emergencial além da atual crise. As etapas na gestão da água consistem, primeiramente, em simples avisos recomendando à população o uso com moderação; e o uso racional com medidas mais incisivas:

– O poder público deve adotar medidas de controle, como proibir o uso de mangueiras d’água e a rega de plantas com balde, sob pena de multa. E tarifar a conta de água, de forma a evidenciar que o recurso hídrico está escasso. Isto é a antecipação da crise. Não se pedem grandes sacrifícios, e sim que as pessoas racionalizem o uso da água.

Além disto, Canedo propõe uma política de incentivo: quem reduzisse o consumo em relação ao mês anterior ganharia desconto na tarifa. A proposta contaria também com punições caso o gasto de água aumente. “Quem não tiver uma melhoria no consumo recebe penalidade tanto pelo aumento da tarifa como pelo gasto exagerado de água”, sugere.

Canedo faz ressalvas, contudo, quanto à aplicação da tarifa, uma vez que ela não deve se tornar uma forma de arrecadar mais:

– O propósito não é vender mais caro; é simplesmente mostrar que a água está escassa. O governo deve criar uma conta especial, na qual todo o sobreganho do aumento tarifário não iria para o governo, e sim para hospitais, por exemplo.

Rio de Janeiro é o estado que mais consome água no Brasil

A economia de água esbarra no alto nível de consumo do brasileiro, e especialmente do fluminense. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), em 2013, o Rio de Janeiro foi o estado que teve o maior consumo de água per capita do país, na faixa de 253 litros diários por pessoa, valor duas vezes maior que o recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Para Castro, a falta de informação sobre as condições dos reservatórios e a falsa noção de abundância dos recursos hídricos contribuíram para o cenário desenhado pela estiagem. De acordo com o especialista, os governos estaduais tinham em suas mãos dados e informações que poderiam ser utilizadas de antemão, com “políticas proativas que se antecipem aos problemas socioambientais”.

 Juliana Reigosa

Já Côrtes reforça a necessidade de orientar melhor a população sobre as formas de racionar. Na avaliação de Côrtes, apesar do pedido dos governos por economia de água, falta uma “orientação didática” de forma a incentivar medidas como, por exemplo, a captação adequada da água da chuva, o uso de arejadores nas torneiras (bico que mistura ar com a água, usando menos volume desta) e de vasos sanitários com caixas acopladas de até seis litros.

A orientação didática serviria, também, para setores industriais e agrícolas, que deveriam ser estimulados a utilizar água de reuso. O governo fluminense criou, na segunda-feira (9), um gabinete que se reunirá todas as quartas-feiras, às 14h, para definir, junto com empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz, estratégias para a utilização de água de reuso próximo à Baía de Sepetiba, onde deságua o Rio Guandu. Uma pesquisa com 487 empresas feita pela Federação Nacional das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) revela que 30,6% já enfrentam problemas devidos aos baixos níveis dos reservatórios, consequência da medida “atrasada” do governo:  

– Deveriam ter sido criados, lá atrás, incentivos fiscais para que o reuso fosse financeiramente interessante para as empresas. No momento, nós temos que forçar a prática, seja ou não interessante financeiramente – aponta Canedo.

Apesar da necessidade de um tempo maior para desenvolver sistemas de reuso da água, o investimento pode ser muito lucrativo em longo prazo – observa André Trigueiro, especialista em gestão ambiental e professor de Jornalismo da PUC-Rio. Ele reitera que já deveria haver uma política de reuso por parte das indústrias, já que elas são as responsáveis pela grande quantidade de água consumida, aliviando a pressão sobre os rios.

Outros setores além de indústrias poderiam, também, adotar o reuso. Especialistas avaliam que shoppings também podem passar a utilizar, assim como nas residências. Nas casas, porém, Canedo ressalta que é preciso um cuidado especial com o armazenamento, para evitar focos de mosquitos, e o risco de contaminação:

– Quem comanda a água de uma empresa ou de um shopping são profissionais habilitados. Já numa casa ou num prédio de apartamentos são pessoas comuns, não habilitadas. Por vezes, até crianças têm acesso a esse comando. Então, há de se ter um cuidado para que essa água de reuso não caia para uma finalidade errada, e acabe contaminando a saúde dos cidadãos. Tendo esse cuidado, tudo bem.

Corte no fornecimento para racionamento pode aumentar vazamentos na rede

Entre as medidas emergenciais que repercutem no país, o racionamento ganhou destaque e divide especialistas. O governo de São Paulo anunciou um pacote de oito obras para adiar a implantação de um rodízio. Em reunião com o governador Luiz Fernando Pezão e o secretário de Meio Ambiente, André Corrêa, no Rio, na segunda-feira (9), a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, afirmou que “o estado tem água, mas precisa administrá-la com racionalidade”.

São Paulo, que enfrentou um período de racionamento em 2004, encara a perspectiva de novos rodízios, mas sem a dimensão real da crise:

– A partir do momento que a crise começou, houve má gestão, porque só recentemente os agentes do governo e o atual presidente da Sabesp, Jerson Kelman, começaram a se posicionar. Eles mostraram que existe sim a perspectiva de termos racionamento. Antes, o governo não cogitava a possibilidade e dizia que estava tomando medidas. Isso passava à população uma segurança que não é real – alerta Côrtes.

Entretanto, o racionamento tem detalhes técnicos que podem prejudicar ainda mais o abastecimento – ressalva Trigueiro. Segundo o ambientalista, o corte no fornecimento causa pressurizações e despressurizações constantes na rede. Esse processo provoca estresse nas tubulações, que podem não resistir e provocar mais vazamentos:

– O racionamento pode ocasionar mais problemas em função deste vai e vem de água na rede. Ou seja, para ser estabelecido, pressupõe um nível de urgência de quase desespero.

O alerta sobre a possibilidade de novos vazamentos traz à tona um problema que já é bem conhecido nos sistemas de distribuição. Segundo dados do próprio Snis, o Brasil desperdiça 37% da água tratada que é distribuída. No Rio de Janeiro, esse índice é de 30%. Segundo os especialistas, um volume de perdas administrável gira em torno de 15%:

– Há um grande trabalho a se fazer no sentido de mapear essas perdas e diminuir ao máximo desperdício causado, por exemplo, por trechos muito antigos da rede. É triste ver que em uma situação de falta de água perdemos pelo menos 25% – avalia Côrtes.

Entre os fatores que devem estar contemplados em um plano de recursos hídricos “forte”, está a criação de novas fontes de captação da água em momentos emergenciais. “Apesar da dificuldade de encontrar reservas com o mesmo volume do Paraíba do Sul, que fornece cerca de 50 mil litros por segundo, é conveniente criá-las por uma questão de segurança hídrica”, destaca Canedo.

Trigueiro cita o caso de São Paulo, que poderia ter diminuído os prejuízos causados pela estiagem, caso tivesse investido em reservas.

A solução de São Paulo foi recorrer à distribuição de água captada da represa Billings, que contava com 60,2% de reservas disponíveis antes do carnaval. Entretanto, o reservatório apresenta taxas de coliformes fecais cem vezes acima do valor estabelecido pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), além da existência de metais pesados, segundo estudos da USP:

– A Sabesp não investiu o que poderia para evitar essa situação constrangedora de não ter um plano B. A captação na represa Billings é fruto da falta de um cardápio vasto de soluções de curto prazo. A única coisa que resolve agora é chuva, muita chuva, que, diga-se de passagem, não está caindo – observa Trigueiro.

Crise hídrica: alerta para o investimento em fontes alternativas de energia

O aumento na demanda de energia nos primeiros meses do ano diante de um baixo regime de chuvas pode ser uma combinação fatal para as hidrelétricas, responsáveis por 70% do consumo de energia do país. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que os principais reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste operam com 17,74% de sua capacidade. A utilização de termelétricas para evitar a falta de abastecimento gera um custo 50% superior ao das hídricas, o que resultou no aumento da conta de luz, estabelecido no início do ano pela Agência Nacional de Energia Elétrica (adicional de R$ 3 por cada 100 quilowatts-hora).

O apagão que atingiu onze estados e o Distrito Federal no início do ano e resultou na compra de energia da Argentina alertou para a necessidade de outras fontes energéticas. Especialistas enxergam na crise um momento para adotar fontes alternativas, como a eólica (energia dos ventos), maremotriz (aproveitamento de energia das marés e das ondas), solar e nuclear, se feita com segurança e planejamento. “Nós temos um sistema hidrelétrico bom, mas obviamente está suscetível a falta de água”, observa Côrtes. “As condições atuais estão postas para mostrar a necessidade de se investir em alternativas e reduzir a nossa dependência de hidrelétricas”.

O geólogo da USP cita o caso de Portugal, que, apesar de uma demanda menor por energia, instalou parques eólicos e deixou de comprar energia para exportar para outros países.

Castro destaca que cada região do país tem seu potencial para diferentes meios de produção de energia. A região Nordeste, por exemplo, tem capacidade eólica de 75.000 MW, a maior capacidade eólica do país, segundo o Ministério de Minas e Energia.

– Temos que explorar as potencialidades de cada região. Em partes da região litorânea, poderia haver também um sistema de energia das marés. No Nordeste, investimento em energia eólica e solar. Pode até ser caro, mas é a hora de investir – esclarece.

No Rio de Janeiro, a Rodovia Raphael de Almeida Magalhães, conhecida como Arco Metropolitano, já adota um sistema de energia inteligente nos postes do trecho entre a Rodovia Washington Luiz (BR-040) e Itaguaí: painéis de energia solar. “Se foi feito ali, deveríamos ter em todos os postes da cidade, mesmo que seja em ritmo lento”, defende Castro.

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