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Rio de Janeiro, 26 de março de 2017


País

Diferentes formas de narrativas podem ser complementares

Marina Ferreira - aplicativo - Do Portal

19/06/2015

 Yasmim Restum

As manifestações de junho de 2013 confirmaram a perda de hegemonia dos meios de comunicação tradicionais sobre a informação. Durante os protestos, a mídia independente ganhou força na internet e pautou grandes veículos – que reproduziam vídeos feitos por iniciativas como Mídia Ninja e Coletivo Mariachi. Para o fundador da Agência de Notícias das Favelas (ANF), André Fernandes, as mídias alternativas dão voz a cidadãos normalmente esquecidos pela imprensa massiva, mas não representam uma oposição às grandes mídias. “A grande mídia teve que correr atrás dessa população. O melhor exemplo disso é a criação de Parceiros do RJ (quadro no RJTV), inspirado na ANF”, observou Fernandes, no seminário Jornadas de Junho Revisitadas: produção de sentido e narrativas em disputa, quinta-feira passada (18).

Organizado e mediado pelo jornalista Leonel Aguiar, coordenador do curso de Comunicação Social da PUC-Rio, o encontro reuniu também o repórter Leslie Leitão, da revista Veja; a fundadora do Coletivo Carranca (dissidente do Mídia Ninja), Raquel Boechat; e o criador do portal Rebaixada, Arthur William, formado em Jornalismo pela PUC-Rio. Eles avaliaram os papeis e as implicações, inclusive práticas, das mídias independente e tradicional. Consideram-nas, em geral, menos antagonistas ou concorrentes do que complementares. Leonel pondera:

– É importante refletir até que ponto há uma disputa ou uma confluência entre essas diversas narrativas associadas às manifestações de junho de 2013. Se há uma complementação entre as narrativas produzidas por esses coletivos e pela imprensa hegemônica. Como pesquisador, me parece que se completam.

Yasmim Restum  Com o ANF, Fernandes percebe que os “moradores das comunidades são e sentem-se mais representados”. O portal reúne 300 colaboradores que produzem reportagens, crônicas e análises sobre o dia a dia das favelas. Expõem uma visão interna, diferente da observada na grande mídia. Ainda assim, o artífice da agência colaborativa não a considera oposta á abordagem hegemônica:

– A questão maior gira em torno da linha editorial de cada veículo. A da ANF é dar voz aos pobres. Penso sempre em fazer algo diferente, que traga muita informação feita pelos próprios moradores das favelas. No início, queria me manter longe da publicidade, mas, com o tempo, percebi que todo trabalho sério precisa dessa renda. Ao contrário da grande mídia, não quis fazer peças publicitárias com conteúdo jornalístico, mas sim manter o predomínio da informação.

Yasmim Restum Já Leslie Leitão lembra que jornalismo, independentemente do viés editorial e da natureza ou tamanho do veículo, exige o compromisso com a pluralidade de visões e com o equilíbrio. Caso contrário, torna-se tendencioso. Assim, “não acha construtivo pensar em oposição, mas no compromisso com a verdade que deveria ser comum a todos”. Ele alerta para as armadilhas do “miadiativismo”:

– Somos todos jornalistas, não importa se o cara tem audiência de uma pessoa ou de um milhão, se é mídia colaborativa, independente ou tradicional. Por isso acho perigoso o miadiativismo, que é mais um movimento social do que jornalístico. Para mim, esses ativistas não são jornalistas. Seriam se estivessem cobrindo de maneira imparcial, equilibrada, não escolhendo o que publicam para “não prejudicar o movimento”.

Embora reconheça a importância democrática e o peso crescente das mídias alternativas na sociedade – em especial, ao expor fatos ou ângulos à sombra –, Leitão conta que, nas Jornadas de Junho, observou “colegas deixando de registrar e veicular imagens dissonantes à proposta ativista”.

Por outro lado, Raquel Boechat argumenta que iniciativas como o Mídia Ninja e o Coletivo Carranca se desenvolveram justamente no vácuo entre a rua e a mídia hegemônica. De certa forma, a crise de representação política sinalizada nas manifestações populares se estendeu aos veículos de massa.

– Quando vi a disparidade entre a efervescência de movimentos que tomava conta das ruas e o que era veiculado pela televisão, percebi que precisava me mexer. Fui para rua e registrei boa parte das manifestações com meu celular. No início, postava tudo na minha página no Facebook, mas depois encontrei lugar no Mídia Ninja. Por diferenças políticas e editoriais, saí e em setembro criei o Coletivo Carranca.

Yasmim Restum A escalada dessas produções independentes (117 mil postagens referentes a “junho 2013” no Youtube) levou Arthur William a fundar o portal Rebaixada como parte da sua pesquisa de mestrado na UERJ. “A ideia era reunir todo esse conteúdo independente numa plataforma segura, para preservá-lo”, recorda. A página agrega vídeos, mapas e textos produzidos por midiativistas durante junho de 2013. O professor Leonel reitera o papel social do jornalismo:

– A ideia de que o jornalismo não é apenas uma atividade profissional, não é apenas um lugar de lucro das empresas, mantém a profissão com um papel muito importante na esfera pública: o de apontar para o cidadão. Daí o porquê de se ter um jornalismo de qualidade, democrático, bem produzido e em equilíbrio de conflitos e interesses.