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Rio de Janeiro, 20 de agosto de 2017


País

Casamento: o que o rito significa para a juventude

Andréia Coutinho - aplicativo - Da sala de aula

03/11/2015

 Arquivo pessoal

Véu, grinalda e aliança dourada na mão esquerda. Cerimônia religiosa, tapete vermelho e o “sim” no altar. Assinatura de papéis no cartório, comunhão parcial ou total de bens e vida estável. Sair da casa dos pais, dormir na mesma cama e mudar de sobrenome. Dividir o mesmo teto, construir uma família e viver um conto de fadas. Essas são algumas ilustrações, entre tantas outras, que se encaixam nas possibilidades do significado da palavra casamento – na teoria e na prática. Há quem ainda acredite nele e há também os céticos que o consideram dispensável ou fadado ao fracasso. E no universo dos que têm fé no clássico “até que a morte nos separe” estão os jovens cristãos – católicos e protestantes –, que, por influência da religião, se preocupam mais em formalizar a união quando comparados aos jovens que são desapegados de crenças.

O casamento civil, instituído há 125 anos, foi promulgado pelo presidente Marechal Deodoro da Fonseca, sob o decreto nº 181. Regulamentado pelo Código Civil, ele é um contrato exclusivo entre duas pessoas, com mais de 16 anos. As celebrações públicas podem variar de acordo com a cultura. No cristianismo, mais do que apenas uma comunhão de vida e bens, o ato de se casar vai além e se torna um marco crucial na nova caminhada dos que se propõem ao desafio.

De acordo com a pesquisa “Estatísticas do Registro Civil” do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE), de 1999 a 2008, houve um aumento nas taxas de nupcialidade legal – dados que relacionam o número de casamentos realizados em uma determinada época por cada mil habitantes em uma região ou em todo o país. O levantamento concluiu que a elevação do número de matrimônios se justifica pela melhoria no acesso aos serviços de Justiça, em especial ao registro civil de casamento, pela procura dos casais por formalizar suas uniões consensuais e pela oferta de uniões coletivas. Porém, para os jovens cristãos, a oficialização civil apenas não basta. Segundo a zootecnista Susana Haidamus, de 25 anos, a magia da cerimônia religiosa tem uma forte influência para a vida toda.

 Arquivo pessoal  – Acho indispensável! É o consentimento matrimonial firmado perante Deus. O casamento religioso nos garante bênçãos que só Deus poderá nos dar – afirma a jovem, que é protestante e decidiu se casar aos 20 anos.

Susana e José Cláudio Bezerra, de 25 anos, se casaram em março de 2010. Os dois faziam o mesmo curso de graduação (Zootecnia), na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e moravam em residências estudantis na cidade de Seropédica. Faziam quase tudo juntos. Iam para as aulas, almoçavam no bandejão, faziam trabalhos em dupla, viravam noites estudando, voltavam da faculdade. Eles se conheciam há 11 anos e eram melhores amigos desde os tempos do ensino fundamental. Como cristãos, eles decidiram permanecer virgens até o casamento, apesar das tentações diárias e das diversas oportunidades, já que moravam perto um do outro. Quando completaram quatro anos de namoro, eles terminaram o relacionamento:

– Nós podíamos viver como marido e mulher e ninguém saberia, mas tínhamos o temor de Deus e não queríamos desagradar-Lhe. Então, resolvemos terminar o namoro para não dar mais brecha para a tentação. Foi uma decisão radical, porém a única solução que vimos. Contei para os meus pais o porquê de termos terminado, e eles acharam que deveríamos nos casar logo, pois sabiam que nos amávamos de verdade – explica Susana.

A influência do sexo (ou a falta dele)

A questão sexual é considerada um dos fatores que “aceleram” a decisão do casamento entre os jovens cristãos, mas não a principal. O entendimento do que a união significa que é o diferencial. Em uma pesquisa chamada “Defina casamento”, feita com 20 jovens, entre 18 e 26 anos, que frequentam a Igreja Batista de São Gonçalo, 14 jovens responderam “ser um só em Cristo”, três responderam “compartilhar a vida e construir uma família” e os outros três “liberdade para fazer o que quiser”.

Segundo o padre José Abel, coordenador da Pastoral Universitária da PUC-Rio, existe uma orientação para que os jovens cristãos, tanto católicos como protestantes, esperem pelo casamento para dar início à vida sexual, mas não é uma proibição.

– Nas igrejas protestantes, essa questão é mais imposta. Já no catolicismo, não. Se um casal não decide esperar pelo casamento para ter uma vida sexual ativa, é algo mais aceito na Igreja Católica. Já houve muito a “demonização” do sexo e, hoje, ela é bem menor – opina o padre.

Já o teólogo Rafael de Castro Lins, formado pelo Seminário Batista do Sul, argumenta que o celibato exigido pela igreja até o dia do casamento faz com que uma grande maioria dos jovens cristãos o encare como um propósito a ser alcançado. Para ele, na igreja ainda se observa um significado maior dado ao casamento:

– Ele não só é instituído por Deus como também é abençoado por ele. Para os jovens cristãos protestantes, o casamento, além de tudo o que simboliza, é também uma forma de viver a sexualidade sem culpa. Os jovens que não professam uma fé cristã estão livres dessas exigências e, logo, se sentem livres para desfrutar da relação sexual.

Mais casamentos e menos divórcios na sociedade brasileira

Outra pesquisa do IBGE comprovou que os casamentos no Brasil são o triplo dos divórcios. Em 2012, os cartórios registraram 1.041.440 de casamentos no país, enquanto os divórcios chegaram a 341,6 mil. Ou seja, para cada separação registrada, houve pelo menos três casamentos. No ano seguinte, os casamentos chegaram a 1,1 milhão, e os divórcios caíram para 324,9 mil.

Os dados mostram que uma parcela considerável da sociedade ainda acredita no casamento – seja ele civil, religioso ou ambos. Lins afirma que, em sua opinião, a oficialização civil é tão importante quanto a religiosa, porém o ser humano necessita de tradições como uma forma de segurança e aceitação social.

– O casamento religioso é uma maneira simbólica de receber a bênção de Deus sobre a nova família que nasce. Ele declara também ao mundo que você escolheu alguém especial para amar e se entregar em todos os sentidos. A tradição e todo o significado que a união carrega são os motivos que o fazem imprescindível – pontua o teólogo.

 Arquivo pessoal  Por outro lado, há também os jovens que não acreditam no matrimônio e o julgam como uma instituição falida. É o caso da estudante Isadora Cabral, de 22 anos. Ela afirma não condenar os que escolhem se casar, mas deixa claro que acha uma decisão desnecessária,  bem longe dos seus planos. Desde pequena, a jovem, que é ateia, nunca sonhou nem com casamento nem com filhos.

– Casamento nunca significou muita coisa para mim. Eu adorava ver os filmes da Disney, as princesas se casando, o final feliz, mas isso nunca me comoveu e nunca planejei isso para o meu futuro. Sempre coloquei na cabeça que eu queria ser livre para poder viajar e investir na minha profissão, embora não soubesse o que eu ia fazer ainda. Para mim, casamento não passa de um anel e de um papel passado. Só isso! É o tipo da coisa tradicional e eu acho meio idiota, sem sentido – diz Isadora.

José Cláudio, o marido de Susana, acredita que muitos jovens estão se casando pelo motivo errado. Ele conta que, quando decidiu se casar, pessoas disseram que ele estava louco, já que não tinha dinheiro nem casa, além de ser muito novo para decidir pela vida inteira. Porém, o zootecnista não acredita que tenha perdido sua juventude. Pelo contrário.

– Eu aproveitei de verdade, pois tinha alguém ao meu lado para compartilhar e que estava interessada em quem eu era. As pessoas se casam hoje por cumplicidade, por dinheiro, por status, por carro, por casa, por diversos fatores, exceto pelo principal, que é o amor. Dessa forma, quando caem em si, o casamento acaba, ou melhor, nunca existiu. Vejo que alguns jovens dentro da igreja têm ansiedade em casar, mas se esquecem de que mais importante que casar é o cônjuge que você vai escolher – defende.

A fé que ajuda os jovens cristãos a acreditarem que o casamento pode ser eterno quando há a bênção de Deus não anula os desafios da vida a dois. Para o padre Abel, que já realizou dezenas de cerimônias, o matrimônio é um jogo de renúncia que, para dar certo, é preciso ir além dos beijos e abraços. Ele lembra que antigamente havia menos separações, pois o que realmente importava era a instituição matrimonial.

 Arquivo pessoal

– No catolicismo, o casamento é um sacramento com testemunhas qualificadas para que os noivos façam suas promessas. A ideia de aliança se processa para os fiéis. Faz parte da nossa fé acreditar que Deus tem a ver com o matrimônio. Considero corajosos os jovens que decidem se casar. É bonito, é bacana. Mas não pode ser só euforia, tem que ter compromisso, que vai além da religião. Quem tem a consciência de fé acredita que Deus é a base da vida a dois – explica.

A bióloga Sarah Costa, de 22 anos, celebrou sua união com direito a capela, buquê de flores e votos. Apesar de também ser cristã protestante desde pequena, ela não considera que a cerimônia religiosa seja algo indispensável.

– Acredito que Deus e nossos pais nos abençoariam igualmente se tivéssemos decidido casar apenas no cartório, depois almoçar em um restaurante e tal. Para mim, é importante ter os rituais de passagem que marcam tão bem as etapas da vida. E a felicidade é tanta que nós precisávamos dividir com mais pessoas – vibra Sarah.